'Risco esquerda' vira estratégia bolsonarista na disputa ao Senado em SP

*Arquivo* SÃO PAULO, SP, 09.07.2022 - Haddad, Lula, Alckmin e Márcio França durante evento em SP. (Foto: Marlene Bergamo/Folhapress)
*Arquivo* SÃO PAULO, SP, 09.07.2022 - Haddad, Lula, Alckmin e Márcio França durante evento em SP. (Foto: Marlene Bergamo/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Com o bolsonarismo rachado entre Janaina Paschoal (PRTB) e Marcos Pontes (PL) na briga pela vaga de São Paulo no Senado, eleitores do campo conservador passaram a ouvir mensagens de alerta que dão como certa a vitória do adversário Márcio França (PSB) caso continuem pulverizando os votos.

Apoiado pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o ex-governador é hoje considerado o favorito por estar à frente nas pesquisas de intenção de voto e concentrar os votos da esquerda. Ele não enfrenta competidores de peso dentro desse segmento, unificado em torno dele.

A preocupação com o "risco esquerda" é vocalizada pela própria Janaina, que destoa de simpatizantes fiéis do presidente ao admitir a possibilidade de derrota de Jair Bolsonaro (PL) na eleição nacional, e por cabos eleitorais de Pontes. O alarme foi soado em ambientes virtuais nos últimos dias.

O temor dessa parcela subiu de nível com a escolha do presidente nacional do PSOL, Juliano Medeiros, como suplente de França. Os detratores especulam que o psolista tem chance de assumir o posto de vez caso o titular se afaste para virar ministro em um eventual governo Lula.

Janaina ironizou a situação, em uma rede social, ao perguntar se estaria em curso "um grande acordo para deixar a única cadeira do Senado para a esquerda". A deputada estadual é pressionada a abrir mão da candidatura em nome de Pontes, apoiado oficialmente por Bolsonaro.

Ex-ministro da Ciência, Tecnologia e Inovações no atual governo, ele concorre com o nome de Astronauta Marcos Pontes e faz uma campanha vinculada ao presidente. Já a adversária, que alterna elogios e críticas ao mandatário, refuta o rótulo de bolsonarista, mas possui eleitores nesse grupo.

Uma mensagem em favor de Pontes direcionada aos "prezados patriotas" correu aplicativos de trocas de mensagens com uma advertência: "Se dividirmos nossos votos em vários candidatos da direita, a vaga fatalmente será do candidato da esquerda".

O texto, sem autor identificado, diz que os apoiadores do ex-ministro têm "que ser inteligentes" e canalizar votos para ele: "Ou a cadeira do Senado por SP irá para o partido da esquerda [sic], infelizmente".

Bolsonaro, que está em segundo lugar na corrida presidencial, conseguiu levar à desistência outros interessados na vaga ao Senado, como Cristiane Brasil (PTB) e Arthur Weintraub (PMB), mas fracassou na tentativa de demover a deputada, que almeja a candidatura desde 2020.

"Eu sou uma pessoa pé no chão", diz à Folha Janaina, celebrizada pelo impeachment de Dilma Rousseff (PT). "A direita está numa divisão muito grande, o que prova que a esquerda é mais inteligente", acrescenta ela, que atribui a Lula o sucesso da convergência no terreno rival.

A parlamentar já afirmou que Bolsonaro lançou o candidato ao Senado apenas para atrapalhá-la. "Ele prefere dar a cadeira de São Paulo à esquerda a ter uma pessoa independente e justa no Senado. Direita dividida elege a esquerda!"

Newsletter Eleições 2022 Um resumo com o que de mais importante a Folha destaca sobre a eleição *** Janaina endossa as posições presidenciais em temas como aborto, drogas e liberdade individual, mas já destoou em relação à pandemia de Covid-19 --chegou a apelar na tribuna da Assembleia Legislativa em 2020 para que o governante saísse do cargo, mas depois amenizou o tom.

O enfrentamento público mais recente foi há alguns dias, também no plenário. Chorando, ela pediu a Michelle Bolsonaro que "não plante a semente da divisão religiosa" no país. A primeira-dama, evangélica, ataca Lula associando o petista ao Demônio e a religiões de matriz africana.

Janaina questiona a competência de Pontes para ser senador e se julga mais preparada. "O problema é que o pessoal do Bolsonaro vota no astronauta acreditando que o presidente vai ser reeleito, mas precisa pensar qual é o melhor candidato para qualquer cenário, inclusive se o eleito for o Lula", diz.

Pontes evita rebater e declara que faz uma campanha sem ataques aos demais candidatos, baseada em propostas. Segundo ele, seus focos são educação, ciência, tecnologia e oportunidades para jovens.

"Eu não acho que o Márcio França seja o favorito. Ele é o candidato do Lula, ligado às pautas do Lula; eu sou o candidato do Bolsonaro, ligado às pautas que nós defendemos, como família, proteção dos nossos filhos, toda a parte de valores que são extremamente importantes", diz.

Pontes não reitera a estratégia dos apoiadores que consideram inevitável a vitória do pessebista caso a cisão da direita permaneça. O ex-astronauta afirma que respeita a candidatura de Janaina, mas espera que naturalmente os votos hoje declarados nela migrem para ele.

Isso acontecerá, prevê, à medida que mais paulistas souberem que ele está concorrendo e tem o aval de Bolsonaro. "Aqueles eleitores que apoiam realmente a direita e têm lealdade às pautas do presidente vão estar comigo. Prefiro, em vez de atacar os adversários, mostrar a minha competência."

Pesquisa Genial/Quaest publicada no último dia 11 mostrou França com 29%, seguido por Pontes, com 12%, e Janaina, com 10%. Como a margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos, os dois últimos estão tecnicamente empatados em segundo lugar.

França atribui sua liderança ao seu perfil e ao fato de ser mais conhecido. "No Senado o eleitor espera uma pessoa experiente, ponderada", diz o ex-governador, que em 2020 concorreu a prefeito da capital.

Articulador das campanhas de Lula e Haddad, ele reconhece ser beneficiado pelo racha na direita, mas relativiza a pecha de esquerdista ao afirmar que atinge um eleitorado que não é o tradicional do PT. "Tenho votos de evangélicos, policiais, maçons. Eu ajudo a trazer um pedacinho a mais."

Tanto o candidato do PSB quanto o primeiro suplente negam existir acordo prévio para que o presidente do PSOL assuma a cadeira se Lula vencer. França tem dito que sempre cumpriu mandatos até o fim.

"Nunca foi discutido nada nesse sentido, até porque Lula não está fazendo tratativas sobre ministério. Primeiro precisamos ganhar", afirma Medeiros. Segundo ele, sua participação na chapa do Senado é fruto da negociação do PSOL por espaço nas candidaturas majoritárias da coligação.

A insinuação de que o psolista pode virar o titular é intensamente usada pelos bolsonaristas, que exploram o apoio do partido a medidas mais permissivas sobre aborto e drogas.

Janaina já descreveu Medeiros como "esquerdista raiz" e disse que o PSOL é a sigla que mais defende as pautas contrárias ao conservadorismo. Nas redes sociais, lança provocações: "Vamos entregar nossa única cadeira à esquerda? Não é possível que apenas Lula raciocine neste país!".

Segundo o suplente, as bandeiras defendidas por França na campanha giram em torno de combate à desigualdade e à fome. "Não estou nem um pouco desconfortável nesse lugar. Pouco a pouco, a militância do PSOL vai entendendo que eleger Márcio França é interditar a extrema direita."

Candidatos ao Senado por São Paulo Aldo Rebelo (PDT) Antônio Carlos (PCO) Astronauta Marcos Pontes (PL) Dr. Azkoul (DC) Edson Aparecido (MDB) Janaina Paschoal (PRTB) Mancha Coletivo Socialista (PSTU) Márcio França (PSB) Prof. Tito Bellini (PCB) Ricardo Mellão (Novo) Vivian Mendes (UP)