Rivais no Grupo F, Croácia e Marrocos fazem 'duelo político' de torcidas de direita e de esquerda

A ideia de que futebol e política não se misturam ficou para trás. A Copa do Catar tem mostrado isso, com os protestos de jogadores e torcedores. Mesmo no Brasil, onde essa máxima era defendida com mais força, a declaração de voto em massa dos atletas na última eleição escancarou que este distanciamento não existe mais. Mas em poucos locais esta associação é tão forte como na Croácia e no Marrocos, cujas seleções estreiam nesta quarta, às 7h, pelo Grupo F.

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Nos dois países, o futebol reflete em cores fortes o contexto sociopolítico. Em ambos os casos, como escape para populações sufocadas pela crise. Mas a situação croata é mais delicada, pois o caminho escolhido pela sociedade é o do forte nacionalismo que exalta os tempos da Ustasha, partido de extrema-direita que tomou o poder durante a Segunda Guerra a partir de aliança com a Alemanha Nazista. Foi o único período de independência antes do atual.

As manifestações se acumulam. Em 2014, o zagueiro Josep Simunic foi punido por 10 jogos pela Fifa após uma saudação nazista em jogo das Eliminatórias. Dois anos depois, uma enorme suástica apareceu marcada no campo antes de jogo com a Itália. Ela teria sido feita por torcedores. Em 2020, um grupo de torcedores do Dinamo de Zagreb foram detidos após exibirem, orgulhosos, uma faixa com os dizeres: "Nós vamos f*** mulheres e crianças sérvias".

O caso mais recente ocorreu em setembro. Centenas de torcedores, também do Dínamo, promoveram uma marcha nazista em Milão, antes do jogo contra o Milan, pela Liga dos Campeões.

Já no Marrocos não é exagero dizer que as arquibancadas são palco de uma das manifestações mais fortes da sociedade local na última década. Os grupos de ultras (no Brasil chamados de organizadas) dos clubes se transformaram no megafone através do qual os jovens expressam suas frustrações e reivindicações.

“Vocês desperdiçaram uma juventude talentosa e as destruíram com drogas. Vocês venderam as riquezas do país e reprimiram uma geração inteira”, diz o trecho de uma das músicas cantadas pela torcida do Raja Casablanca. Ela e outras canções são entoadas nos estádios e compartilhadas em redes sociais. Refletem uma juventude que perdeu a confiança na política diante de um cenário de precarização dos empregos e da educação, além do aumento da fome.

— Várias crises, como a hídrica as consequências econômicas da covid, têm feito o país bastante frágil em termos de índice de desenvolvimento. E isso inegavelmente se reflete na expectativa dos jovens em relação ao futuro — resume Maurício Parada, professor de História Contemporânea da PUC-Rio.

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Sem representatividade e sem expectativa de futuro, estes jovens também sofrem com a repressão do governo nas ruas. As arquibancadas acabaram se revelando o local de maior liberdade para expressar as insatisfações.

— Fora do estádio, esses cantos são usados sem vinculação ao futebol. A letra é adaptada, mas a música mantém sua essência — explica o jornalista Amine El Amri, que escreve sobre esportes no “A Manhã”, do Marrocos:

— Para muitos torcedores, o movimento de ultras é o único grupo no qual podem confiar. Os jovens marroquinos têm pouca ou nenhuma fé nos políticos. Alguns até nunca votaram. Ou não têm idade para votar. Você pode dizer que os ultras são o movimento político número um entre eles.