'Roças' simbolizam desigualdade e são esperança para São Tomé e Príncipe

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SAO TOME E PRINCIPE, Roça de Água Izé, em São Tomé e Príncipe, que está abandonada e virou uma favela. (Foto: Fábio Zanini/Folhapress)
SAO TOME E PRINCIPE, Roça de Água Izé, em São Tomé e Príncipe, que está abandonada e virou uma favela. (Foto: Fábio Zanini/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Na última quinta-feira (30), o pequeno arquipélago de São Tomé e Príncipe, localizado na costa oeste da África, parou para marcar um dos momentos mais importantes de sua curta história como nação. O feriado do Dia da Nacionalização das Roças só não é mais importante que o da independência de Portugal, conquistada em 1975.

Há 46 anos, a decisão do governo do novo país de estatizar grandes propriedades rurais foi comemorada nas ruas. As “roças”, desde então, seguem sendo parte fundamental da vida econômica, política e social.

No português falado em São Tomé e Príncipe, a palavra tem uma acepção diferente da brasileira, onde frequentemente é usada de forma depreciativa para descrever uma propriedade rural precária.

No país africano, as roças seriam equivalentes aos grandes engenhos de cana-de-açúcar do Brasil colonial, ou às fazendas de café do século 19.

Com arquitetura majestosa, tinham em geral uma casa-grande, vastos terrenos para plantio e secagem de café ou cacau e o equivalente às senzalas, por lá chamadas de “comboios”.

Também recorriam a trabalho escravo ou servil, em que o empregado tinha liberdade apenas nominal na relação com o patrão.

“A roça está associada ao modelo português de agricultura, chamado também de ‘plantation’, de monocultura voltada para exportação. É um símbolo do regime colonial, e também uma marca de poder”, diz Marina Berthet, professora do Núcleo de Estudos Africanos da Universidade Federal Fluminense (UFF) e pesquisadora do tema.

Durante muitas décadas, as roças foram a base da economia santomense, e ainda hoje respondem por parcela relevante do PIB (Produto Interno Bruto) local, embora com relações trabalhistas mais modernas.

“As roças têm papel preponderante na história de São Tomé e Príncipe. Em 1910, o arquipélago era o primeiro produtor mundial de cacau. Algumas roças eram abastecidas com hospital, energia elétrica, água corrente, caminhos de ferro”, afirma Berthet.

Segundo ela, o modelo criado pelos portugueses dava muito poder aos administradores destas propriedades. “As roças eram microcosmos dentro da ilha. Os responsáveis tinham um poder político muito grande”, diz.

Essa realidade é retratada no livro “Equador”, do português Miguel Sousa Tavares, lançado em 2003 e que virou best-seller, com meio milhão de exemplares vendidos e traduzido para dez idiomas.

Na ficção, um aristocrata lisboeta no início do século 20 é enviado pelo rei português para ser governador-geral de São Tomé. Idealista, entra em conflito com a elite local em razão das condições de trabalho subumanas das roças.

As ilhas de São Tomé e Príncipe foram colonizadas pelos portugueses no século 15. Graças à localização estratégica, tornaram-se entreposto do comércio de escravos, e depois tiveram ciclos de produção de cana, café e sobretudo cacau, ainda hoje considerado um dos que têm melhor qualidade do mundo.

A população é uma mescla de descendentes de escravos trazidos de países da África continental e trabalhadores que vieram de países como Angola, Moçambique e Cabo Verde para as roças.

Há ainda mestiços e uma minoria de brancos descendentes de portugueses, numa população de pouco mais de 200 mil habitantes —mais de 95% em São Tomé e o restante na pequena Príncipe, a 140 km de distância.

A nacionalização das roças pelo governo socialista recém-instalado após a independência teve resultados díspares. Por um lado, acabou com o regime de trabalho semiescravagista que ainda vigorava e ofereceu a possibilidade de mais santomenses trabalharem em pequenos lotes de terra.

Ao mesmo tempo, a coletivização levou à queda na produção, refletida em números declinantes da safra de cacau. A colheita reduziu-se de cerca de 8.000 toneladas anuais do fruto nos anos 1970 para 2.000 atualmente.

Até hoje, as roças continuam sendo parte integrante da paisagem das ilhas. A professora Berthet calcula que existam ao menos 130 no país, algumas chegando a até 200 hectares de área.

Mesmo onipresentes e com tamanha importância para a formação da nação santomense, seus moradores enfrentam preconceito dos setores urbanos, diz ela. “Muita gente das cidades nunca foi a uma roça. E olha que é um país pequeno."

Na recente campanha presidencial, que terminou com a eleição do centrista Carlos Vila Nova, em agosto, houve poucos eventos eleitorais destinadas aos moradores da roça. Possivelmente, porque é um universo relativamente pequeno, de cerca de 15 mil pessoas.

O estado de conservação destas propriedades, a maioria construída no final do século 19 e início do 20, varia abruptamente.

Algumas, como a de Água Izé, perto da capital do país, São Tomé, são esqueletos do que um dia já foram. Lá, construções imponentes, como um hospital do início do século 20, estão abandonadas, invadidas pelo mato e ocupadas por sem-teto.

Casas que eram usadas por escravos também são utilizadas de forma precária por pessoas sem moradia, num cenário que se repete em outras roças. São o que mais se assemelharia no país às favelas brasileiras.

Outras são administradas por empresas agrícolas mediante concessão do Estado, e se parecem mais com agroindústrias.

E há também roças que foram reformadas e hoje funcionam como atrações turísticas, contribuindo para um setor que tem se desenvolvido no país.

Uma das mais conhecidas é a de São João dos Angolares, no sul da ilha de São Tomé. Construída no início do século 20, situa-se numa região que recebeu ex-escravos angolanos no final do século 16, que formaram uma espécie de quilombo local, com cultura e idioma próprios.

Até hoje, o angolar, que mistura português arcaico e línguas africanas, é falado por cerca de 5% da população da ilha.

Nessa região, com vista para uma baía e em meio à floresta preservada, o empresário João Carlos Silva, 64, mantém uma pousada de luxo na antiga casa-grande, que recebe turistas, a maior parte europeus.

“Este projeto funciona de certa forma como um piloto que mostra como pequenas e médias roças podem ser transformadas. O turismo rural é o futuro para o país”, afirma.

Com cerca de 100 hectares, o local também tem um restaurante, realiza workshops gastronômicos e promove atividades de turismo rural. Há também escola, creche e programas de capacitação para jovens da região.

Figura conhecida no país, Silva já extrapolou os limites de São Tomé e Príncipe. Em 2004 e 2005, fez uma série para a RTP portuguesa sobre cultura e gastronomia locais, que também deu origem a um livro.

“O futuro neste país não será um turismo de massa, mas um turismo ecológico, aproveitando a natureza e mesclando com o patrimônio histórico e o patrimônio imaterial”, diz ele.

As roças, afirma Silva, “estão no centro da vida em São Tomé e Príncipe desde a sua criação, para o bem e para o mal”.

“Hoje uma boa parte delas está em decadência, mas continuo a acreditar que podem ser resgatadas com projetos de desenvolvimento. Algumas já são pequenas vilas, que crescem de forma desordenada. Meu receio é que se transformem em favelas, com crime organizado, prostituição e violência doméstica”, diz.

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