Marroquinos exigem direito a nome, templo e enterro cristãos

Javier Otazu.

Mohammedia (Marrocos), 13 abr (EFE).- Os cristãos marroquinos saíram da clandestinidade em que vivem e expuseram abertamente e oficialmente suas reivindicações: direito a um nome cristão, a rezar em uma igreja e a serem enterrados fora de um cemitério muçulmano.

Agora, eles até se atrevem a receber jornalistas em um café de Mohammedia, entre Casablanca e Rabat, em frente a uma igreja onde não podem entrar porque os templos do país, construídos durante as colonizações francesa e espanhola, são proibidos aos marroquinos, e a polícia faz patrulhas discretas, mas frequentes, nesses locais.

As leis marroquinas consideram todo cidadão como muçulmano, exceto um status especial concedido à pequena comunidade judaica. Assim, os casamentos são feitos por um juiz muçulmano, as escolas praticam obrigatoriamente a educação islâmica e a infração do jejum no Ramadã é punida, por exemplo.

Os marroquinos se identificam tanto com a cultura muçulmana que os cristãos contam que é muito difícil ser aceitos como tais, inclusive entre familiares e vizinhos. "Eles preferem aceitar um criminoso a um cristão", disse Zoheir.

Mustafa, por exemplo, contou que trabalha em um escritório governo. Lá, os colegas o botaram de lado. "Desde que souberam que eu era cristão, eles evitam se aproximar".

Hanan, por sua vez, lembrou que teve que se mudar para Casablanca, a quase 500 quilômetros de Tarudant, onde nasceu e morava, por conta da incompreensão em sua cidade.

Mesmo assim, eles garantem que existem milhares de cristãos no país - quase todos evangélicos -, que há comunidades em todas as grandes cidades - inclusive em muitos povoados -, e que conseguem se reunir clandestinamente para praticar juntos a religião.

"Trazemos bíblias de contrabando do exterior, como se fossem haxixes ou cocaína", brincou Zoheir.

Como são proibidos entrar nas igrejas, eles se reúnem na casa de alguém, em salões de festas ou em acampamentos fora da cidade, "sempre com medo de que a Polícia apareça", contou Hanan, reconhecendo que, apesar de tudo, as detenções já não são mais tão frequentes, como eram há alguns anos.

Em 2013, um jovem que tinha se tornado cristão escutando programas de rádio foi condenado a dois anos e meio de prisão, mas o escândalo internacional gerado foi enorme e no julgamento em apelação ele foi absolvido.

No Código Penal do Marrocos um artigo específico que paira sobre os cristãos: pena de até três anos de prisão para quem "tentar quebrar a fé de um muçulmano". Apesar de se referir claramente às ações de proselitismo, o texto foi usado de forma abusiva para castigar todo marroquino que pratique outra fé diferente do islã.

Os cristãos, que nos últimos dias quebraram o silêncio, tentam se distanciar de toda atividade de evangelização ou proselitismo, mas são evasivos na hora de explicar como a fé cresce entre os adeptos, além de reconhecer que de vez em quando fornecem materiais (livros, aparelhos de rádio) aos fiéis que vivem em lugares isolados.

Além disso, afirmam formar "uma igreja marroquina", que sua língua é variante do árabe - eles se empenham em não usar o francês nem nas entrevistas - e que não têm relação orgânica com movimentos cristãos estrangeiros, algo muito delicado na cultura marroquina.

"Geralmente, somos tratados como agentes, espiões ou traidores. Nos custa muito convencer um marroquino que somos tão marroquinos e tão patriotas quanto eles", declarou Zoheir.

Cansados de tanta incompreensão e encorajados por alguns sinais - que asseguram ter observado em discursos do rei Mohammed VI e até do ministro de Assuntos Islâmicos, formaram a Coordenadoria Nacional de Cristãos Marroquinos e apresentaram suas demandas ao Conselho Nacional de Direitos Humanos, uma organização oficial e consultiva que se comprometeu simplesmente a estudar os pedidos.

Entre essas demandas, além de nome, templo e túmulo, figuram o direito a um casamento civil e a uma educação laica.

"Minha filha (de 11 anos) me pergunta por que ela é obrigada a estudar o Corão se é cristã", afirmou Hanan.

Zoheir, Mustafa e Hanan não veem motivos para serem otimistas e acreditam que os frutos desse combate serão colhidos dentro de 10 ou 20 anos. Por enquanto, ficariam felizes em ter reconhecidos o direito de existir. EFE