Roberta Miranda: 'Cantei por um prato de comida, Marília Mendonça também'

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Pioneira no sertanejo feminino, Roberta Miranda sempre afirmou a mulher como sujeito dentro de um universo dominado pelo machismo. Esta talvez seja a principal característica que une a arte da cantora de 63 anos à obra de Marília Mendonça, que morreu aos 26 num desastre aéreo na última sexta-feira, dia 5, considerada pela veterana como uma “sementinha” que levava a mensagem adiante. Mas a mulher representada nas canções de Marília não é a mesma das músicas de Roberta. Embora ainda sofra por amor, não precisa mais do papel masculino para se sentir completa.

Além de gerações, um mundo de transformações comportamentais separa as duas. Mas foi Roberta quem pavimentou o caminho para que Marília e suas contemporâneas surfassem firmes nessa onda e pudessem elevar a perspectiva feminina a outro estágio.

Na entrevista a seguir, Roberta, que precisou ser atendida por médicos ao saber da morte da amiga, considerada uma “filha”, analisa a evolução da música sertaneja do ponto de vista feminino (“na minha sofrência, a gente esperava por migalhas de amor, Marília parte para outra”). A cantora também conta que que vai homenagear Marília no show em que celebra seus 35 anos de carreira (dirigido por Jorge Farjalla, “My Life” estreia dia 20, no Tom Brasil, em São Paulo), narra situações de machismo com que teve que lidar e fala de sexualidade.

Como você está agora? Qual foi o diagnóstico quando parou no hospital ao receber a notícia da morte de Marília?

Estou melhor. É um choque, mas a vida segue. Estava no carro, com meu filho, cachorro e uma amiga. Olhei o celular e entrei em choque. Foi difícil me tirar do carro. Estávamos numa via, todo mundo buzinando. Só lembro de dizer “estou mal”. Tive um pico de pressão. O diagnóstico foi choque.

Você e Marília gravaram “Os tempos mudaram”, em 2017, no seu DVD. Como foi quando se conheceram?

Foi no palco, nesse dia. Foi lindo. Nunca tínhamos nos encontrado. Eu só a via falar de mim na internet, que eu era inspiração, ídola dela. Quando vi aquela coisinha, nos abraçamos e choramos muito. Era como se fosse uma sementinha minha, uma filha. Era esse legado que eu queria também. E ela assimilou isso de uma forma linda. Hoje, quem deixa esse legado para o empoderamento feminino é ela. Depois do show, ela me contou que tinha fumado dois maços de cigarro e bebido um litro de uísque de tão nervosa que estava com nosso encontro. Eu tinha muito amor por ela.

O Brasil sabe a falta que ela vai fazer para a nossa cultura. Mas e para você, Roberta, que vazio ela deixa como amiga?

A falta que já está fazendo. Sou uma pessoa que nem eu entendo. Poderia expressar toda hora o que sinto, mas não é assim. Mas, perceba, meu corpo não aguentou o choque de perdê-la. Nem eu sabia que ia sofrer tanto.

Você foi pioneira em afirmar a perspectiva feminina no universo sertanejo. Marília coloca a mulher como sujeito, mas em outra época. Retoma os temas de sofrimento, amor e ciúme de outro lugar, depois de o mundo caminhar um pouco. Que diferenças de abordagem enxerga?

Eu já tinha ladrilhado para as meninas de agora passarem. Através das canções, Marília dizia: “Cara, eu te amo, mas tudo bem, não quer, bola pra frente. Vou para o meu bar, ficar com meus colegas, minhas amigas, vou para a balada e vam’bora”. Era um jeito incisivo de mostrar como se faz. Existe uma diferença. Posso até ter feito a sofrência, mas a minha era mais comedida. A gente ficava esperando o perdão, o amor voltar, por migalhas de amor. Ela, não. Não estava nem aí, é resolvida. É como se dissesse: “Estamos resolvidas. Não sou obrigada a ficar te esperando, vou para outra”. Essa sofrência deu garra para mulheres decidirem em seus relacionamentos.

Quais as piores situações de machismo que enfrentou?

Passei por situações terríveis. Boicotes... De eu chegar para fazer show e cortarem o cabo. Teve músico que disse que só gravaria comigo se eu colocasse seu nome na autoria da canção. Preconceito tipo: “O que ela está fazendo ali? Que tipo de mulher é essa? Quem ela pensa que é?” Sempre mostrei para eles quem sou. Com milhões de pessoas me esperando na plateia, ouvi no camarim um músico que trabalhava comigo dizer: “O que essa jacu está fazendo aqui com tanto sucesso?” Ouvia eles rindo. Terminei o show, fui ao camarim e mandei embora.

Muitos cantores sertanejos cantam músicas compostas por Marília. Ao se depararem com aquelas letras, alguns, talvez, possam repensar suas próprias atitudes. Qual é a importância disso?

Muita. Tem que acabar com isso, né? Não dá mais para falarem “atrás de um grande homem existe uma grande mulher”. É assim: “À frente de um grande homem está a mulher”. Homem não vive sem mulher. Você não vê mulher na sarjeta por amor, vê homem. A mulher é a parte forte, frágil são eles. Tem que respeitar a mulher. Não é um favor, é obrigação.

Qual música dela mais bate em você?

“A flor e o beija-flor” e aquela que diz “não finja que não estou falando com você” (“De quem é a culpa”). É o tipo de canção que bate diretamente em mim. Embora tenha um palavreado diferenciado, a melodia me pega, me emociona.

Pretende homenagear Marília em seu show, “My life”?

Claro! Não tem como desvincular o show dela, tudo está atrelado. Mudei meu avatar no Instagram em sinal de respeito a ela. Mas ainda não sei como vai ser a homenagem.

O show celebra 35 anos de uma carreira que não foi fácil. A infância pobre, a saída de João Pessoa rumo a São Paulo, onde passou anos como crooner de boate até virar recordista de vendagens de disco e ganhar cinco Grammys. Qual foi o momento mais difícil dessa trajetória?

Cantei por um prato de comida até chegar a compositora de sucesso e rainha da música sertaneja consagrada pelo povo. Tudo foi difícil. Foram anos tentando pagar o aluguel com gorjetas, porque o que eu ganhava no Beco (bar que era reduto da bossa nova)... Marília também cantou por comida. Temos trajetórias parecidas. Ela contou que, um dia, precisava pagar o aluguel e cantou cinco vezes para o mesmo cara. Eu nunca mais na minha vida canto “Ronda”, porque um cara me fez cantar essa música das 21h às 5h da manhã para me dar uma caixinha e eu pagar o aluguel. Peguei trauma.

Sente-se realizada com o que conquistou na carreira?

Às vezes, sento na minha cozinha... Porque tenho um problema sério com alimento, sabe? É que já não tive mesmo o que comer. Olho a minha geladeira cheia... Para quem dormiu em construção, que teve travesseiro de pedra... Eu adormecia em pedras de construções, dormia na rua. Sou grata à vida. Meus fãs são o meu oxigênio. Mas até hoje parece que carrego um carma. Mas com muita determinação, paixão e garra. Olho meu passado e penso: “Envergo, mas não quebro”.

Você tem uma ótima autoestima, né? Outro dia, causou ao aparecer quase nua nas redes. Sempre foi segura?

Sou bem resolvida. Uma pessoa que passa o que passei e chega onde chega... Gera uma autoestima exacerbada quando você diz “não” para o mundo que quer que você se foda, entende? Um sentimento de “vou conseguir e pronto”. Tive problemas quando passei muito do peso no início da carreira. Quando ia fazer “Faustão”, entrava de dieta para perder dois, três quilos em 15 dias. Mas, aí, liguei o botão do foda-se, não estou mais nem aí.

Você já disse que o seu inbox “come solto”. Muito assédio?

Nossa senhora, pelo amor de Deus! É terrível (risos). E pelas duas partes, homens e mulheres. Apesar de ter 63 anos, tenho um físico privilegiado. Não bebo, não fumo, não saio do prumo, n perco noite de sono nem vou para a balada. Vivo para a música e me cuido muito. Brinco no TikTok: “Desculpe, novinhas, é o DNA” (risos).

Essa sua nova forma de se comunicar tem a ver com a conquista de um público mais jovem?

Demais. Tive uma renovação de 52% no público, segundo levantamento do Instagram, pegando gente de até 34 anos.

Está solteira?

Digamos que esteja com o coração ocupado com amor, mas, fisicamente, solteira.

Durante toda a sua carreira você teve que lidar com boatos sobre sua sexualidade. Como encara isso?

Lido de uma forma tranquila, hoje, depois de 25 anos de análise. Minha vida, desde que comecei com o sucesso, sempre foi preservada. Digamos que eu tenha um pacto com minha mãe no leito de morte de que minha vida pessoal seria reservada. Prefiro ser um ponto de interrogação a ser um ponto final.

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