Caso Robinho escancara tolerância do futebol e da sociedade com a violência sexual

Andréa Martinelli
·Editora sênior, HuffPost Brasil
·10 minuto de leitura

As transcrições dos diálogos de Robinho, que tem um status de ídolo no futebol mundial, sua condenação por estupro na Itália, e as declarações posteriores dele sobre as acusações, em que se diz inocente e afirma que “infelizmente, existe esse movimento feminista”, mostram a existência de uma tolerância da sociedade ― e do esporte ― com crimes contra as mulheres.

Este é o entendimento de especialistas da Sociologia e do Direito ouvidas pelo HuffPost Brasil. Segundo Viviana Santiago, socióloga e especialista em educação pela UFPE (Universidade Federal de Pernambuco), o caso Robinho, um dos mais recentes envolvendo violência de gênero e futebol, “mostra que vivemos em uma sociedade que opera na cultura do estupro”.

Dados divulgados nesta semana pelo FBSP (Fórum Brasileiro de Segurança Pública) apontam o contexto alarmante deste tipo de crime no Brasil: uma pessoa foi estuprada a cada 8 minutos no Brasil em 2019. 86% das vítimas eram mulheres, e mais da metade delas tinha até 13 anos de idade. Em 84,1% dos casos, o autor era conhecido das vítimas. Ou seja, os criminosos são familiares ou pessoas de confiança da família.

“Nem a repercussão, nem a condenação, nem todas as provas, os áudios que vazaram na imprensa fizeram o clube repensar; de modo geral, o que foi questionado é: ‘será que ele fez isso, mesmo?’. O recuo aconteceu somente pelo interesse econômico do clube e apenas isso. Desta forma, continuamos a responsabilizar meninas e mulheres pela violência sexual sofrida”, analisa Viviana Santiago.

Na época em que foi condenado, em 2017, Robinho jogava pelo Atlético Mineiro. Naquele momento, o assunto foi minimizado pelo clube e, durante treinos, ele chegou a tirar fotos com crianças que visitavam a chamada “Cidade do Galo”, centro de treinamento do clube. Mesmo após a condenação, colegas de time e torcedores, foram acolhedores e saíram em defesa do atacante.

Mas esta não foi a primeira vez em que o jogador esteve envolvido em acusações deste tipo. Anos antes, em 2009, quando jogava pelo Manchester City, da Inglaterra, Robinho foi processado por uma outra jovem, que teria sido violentada sexualmente por ele em uma boate. Mas o processo foi arquivado.

Agora, em 2020, mesmo com todo este histórico, o Santos optou por recontratar o atleta, que foi revelado pelo clube no início de sua carreira. Porém, no universo do futebol, o atleta é mais um dos jogadores brasileiros que protagonizam escândalos de estupro e violência contra mulheres e, mesmo assim, encontram um lugar nos clubes.

Na avaliação da socióloga e educadora Viviana Santiago, este tipo de atitude por parte dos clubes leva à normalização da violência e passa uma mensagem educacional para meninos, que vêem no futebol uma referência.

“Se o futebol é aquilo que mais inspira meninos no Brasil, qual é a responsabilidade dos clubes em não olhar para a violência de gênero? O que eles estão ensinando quando contratam jogadores que cometeram este crime?”, questiona. “O futebol oferece um ideal de masculinidade, ele forma mentalidades. Ser homem, então, inclui ser também violento com mulheres.”

O que os clubes estão ensinando quando contratam jogadores que cometeram este crime? Viviana Santiago, socióloga

Em 2016, o meia Wescley, do Ceará, foi denunciado pela ex-esposa, então grávida. A acusação era de estupro e lesão corporal grave; o atleta joga até hoje pelo clube. Em 2019, o goleiro Jean foi preso em flagrante, acusado de agredir a ex-mulher em viagem aos Estados Unidos com a família. Após repercussão negativa, ele acabou demitido do São Paulo, time no qual era reserva. Meses depois, foi contratado pelo Atlético-GO, onde hoje joga como titular.

Neymar, também em 2019, foi investigado após acusação de estupro pela modelo Najila Trindade Mendes de Souza, e teve apoio do próprio presidente Jair Bolsonaro, à época. O jogador foi inocentado no processo.

O caso mais emblemático, porém, envolve o goleiro Bruno, que foi condenado a 22 anos e 3 meses de prisão pelos crimes de homicídio triplamente qualificado, sequestro e ocultação de cadáver. Ele é apontado como mandante do assassinato da modelo Eliza Samudio. Hoje, em liberdade condicional, ele joga pelo Rio Branco (AC), após cumprir mais de um sexto da pena.

Mulheres brasileiras realizam a performance de protesto "O estuprador é você", que viralizou em 2019 e é criação do coletivo feminista chileno "Las Tesis".  (Photo: BETO BARATA via Getty Images)
Mulheres brasileiras realizam a performance de protesto "O estuprador é você", que viralizou em 2019 e é criação do coletivo feminista chileno "Las Tesis". (Photo: BETO BARATA via Getty Images)

Segundo a advogada e especialista em direito penal, Maíra Zapater, há uma dificuldade em compreender que um crime de violência de gênero é grave.

“O Brasil é conhecido por ser um País extremamente punitivista, em que ‘bandido bom é bandido morto’, em que discutimos a prisão após a segunda instância e punições a corruptos na Lava Jato, por exemplo. Mas por que quando é um crime contra as mulheres parece que imediatamente todo mundo se preocupa com a presunção de inocência do acusado?”, questiona.

“Os clubes, enquanto empresa, contam com a tolerância que as pessoas têm, porque sabem que a torcida muito provavelmente não vai se importar, os patrocinadores também não. O que importa é o desempenho do atleta.”

A especialista e também professora da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) defende que, todo e qualquer réu ou condenado por um crime tem o direito não só de defesa, mas também da ressocialização e volta ao trabalho.

“A pessoa que sai da prisão, que sai de uma condenação, ela tem o direito de trabalhar. O trabalho de um jogador de futebol é esse: jogar bola. Mas não dá para fazer de conta que não existe a dimensão de ‘ídolo’ do futebol”, diz.

O Brasil é o 5º País no mundo que mais mata mulheres, segundo órgãos internacionais. Em 2018, uma mulher foi assassinada a cada duas horas, totalizando 4.519 vítimas, segundo os números do Atlas da Violência 2020.

Neste cenário, jogadores são formados em uma cultura esportiva que exalta a virilidade e imposição física não só como virtudes, mas como metas para obter o sucesso na carreira ― assim como estar rodeado de figuras femininas.

Mulheres brasileiras realizam a performance de protesto "O estuprador é você", que viralizou em 2019 e é criação do coletivo feminista chileno "Las Tesis".  (Photo: BETO BARATA via Getty Images)
Mulheres brasileiras realizam a performance de protesto "O estuprador é você", que viralizou em 2019 e é criação do coletivo feminista chileno "Las Tesis". (Photo: BETO BARATA via Getty Images)

Viviana Santiago explica que os episódios de violência contra a mulher cometidos por jogadores refletem não só o machismo, mas também os agravantes que reduzem a figura feminina a um objeto de consumo.

“O que tem por trás, também dessa cultura do estupro, é a compreensão de que os homens dominam as mulheres e têm elas totalmente a seu dispor”, diz a educadora. “Fica nítida a importância do movimento feminista nessa sociedade. É ele que questiona essa ordem estabelecida.”

“É como se [os clubes] dissessem: ‘nós gostaríamos de ter a oportunidade que eles tiveram’, de estuprar, de matar. É uma postura muito grave. A responsabilidade seria, simplesmente, não contratá-los. Ou criar formas de inibir este tipo de comportamento, gerar uma punição interna, por exemplo.”

No entendimento de Zapater, assim como no de Viviana, o futebol enquanto modalidade apresenta um modelo de masculinidade a ser alcançado por meninos e jovens brasileiros, e é preciso responsabilidade dos clubes.

“Uma coisa é a gente pensar um médico acusado de estupro, um dentista, um vendedor de roupa, talvez a tolerância fosse menor, mas ser um jogador de futebol no brasil é ainda um modelo de masculinidade. Ser jogador de futebol ainda é uma conduta imitável, que é perseguida pelos meninos”, diz Zapater.

Ser jogador de futebol ainda é uma conduta imitável, que é perseguida pelos meninos. Maíra Zapater, especialista em direito penal

Caso Robinho

Na noite da última sexta-feira (17), após pressão do movimento de mulheres e de patrocinadores, o Santos decidiu suspender o contrato com Robinho, assinado uma semana antes.

Em 2017, quando o atleta jogava pelo Milan, ele e Roberto Falco, também brasileiro, foram condenados pela Justiça italiana por violência sexual de grupo contra uma jovem de origem albanesa, de 23 anos.

O crime aconteceu na boate Sio Café, em Milão, em 2013, há 7 anos. Além de Robinho e Roberto Falco, que são amigos, outros 4 brasileiros teriam participado do ato. A condenação ocorreu em novembro de 2017.

Na sentença, a Justiça italiana informa que a acusação pediu 10 anos de prisão para o atleta. Em 2014, Robinho admitiu que teve relações com a vítima, disse que se tratou de sexo oral consensual; a defesa do jogador entrou com recurso e o processo ainda não foi finalizado. A partir do dia 10 de dezembro, será iniciada a análise do caso em segunda instância.

Na última sexta-feira (16), o Globo Esporte obteve com exclusividade trechos da sentença judicial e dos grampos que embasaram a condenação. Segundo o site, as conversas entre os acusados estão transcritas no processo que corre em segredo de Justiça na Itália.

Em um dos trechos, Roberto Falco e Robinho teriam dito que “ela se lembra da situação, sabe que todos transaram com ela”; “ela não conseguia fazer nada, nem mesmo ficar em pé, estava realmente fora de si”.

Robinho, ao centro, participa de uma sessão de treinamento como parte dos preparativos da nova temporada do Spor Toto Super Lig turco em Istambul, Turquia, em 2 de julho de 2019. (Photo: Anadolu Agency via Getty Images)
Robinho, ao centro, participa de uma sessão de treinamento como parte dos preparativos da nova temporada do Spor Toto Super Lig turco em Istambul, Turquia, em 2 de julho de 2019. (Photo: Anadolu Agency via Getty Images)

Em outra conversa entre Robinho e o músico Jairo Chagas, que tocava naquela noite na boate em que o crime ocorreu, o jogador teria dito que estava “rindo porque não estou nem aí, a mulher estava completamente bêbada, não sabe nem o que aconteceu”.

Robinho fala ainda que “os caras estão na merda... Ainda bem que existe Deus porque eu nem toquei aquela garota. Vi (nome de um dos acusados) e outros foderam ela, eles vão ter problemas, eu não... Eram cinco em cima dela”, citando nome de mais 2.

Em outra conversa, Robinho diz que falaria para a polícia que estava na companhia do músico. Chagas, então, pergunta se ele transou com a vítima. Robinho diz: “Não, eu tentei”. Em seguida, ele cita 3 nomes de amigos que teriam transado com a menina.

O músico diz que o viu colocando o pênis na boca da jovem. Robinho responde: “Isso não significa transar”. Em outros trechos, os acusados falam sobre a preocupação de alguém ter ejaculado na moça, sobre a ausência de câmeras de segurança no local e combinam as versões que falariam para a Justiça.

Em nota enviada à imprensa, os advogados Marisa Alija e Luciano Santoro afirmam que “o jogador reitera que não cometeu o crime do qual é acusado e que sempre se relacionou sexualmente de maneira consentida”.

“Taxativamente não houve violência sexual tampouco admissão de culpa nas interceptações telefônicas, o que fica claro quando analisadas na integralidade e no contexto correto. Segundo eles, “há nos autos provas suficientes da inocência de Robinho”, segue o texto.

Após repercussão dos trechos, Robinho concedeu uma entrevista ao site UOL. Nela, disse novamente ser inocente, afirmou que a relação foi com o consentimento da vítima e que áudios incluídos no processo e divulgados pela imprensa foram tirados de contexto, assim como sua defesa divulgou.

O jogador também atacou o movimento feminista. “Infelizmente, existe esse movimento feminista", em entrevista ao UOL. (Photo: Nigel Roddis / Reuters)
O jogador também atacou o movimento feminista. “Infelizmente, existe esse movimento feminista", em entrevista ao UOL. (Photo: Nigel Roddis / Reuters)

“Eles traduziram muita coisa fora de contexto. Na verdade, isso faz muito tempo. Em conversas de WhatsApp, a gente fala, mas nunca com falta de respeito, por desrespeitar as mulheres. Eles falaram que homens conversam entre si, que teve relação sexual com a mulher, com consentimento dela, porque ela quis, exatamente isso”, disse Robinho ao UOL.

O jogador também atacou o movimento feminista. “Infelizmente, existe esse movimento feminista. Muitas mulheres às vezes não são nem mulheres, para falar o português claro”, disse ao site.

O atleta afirmou que seu único arrependimento em todo o caso foi a traição à sua esposa, Vivian, com quem está desde 2009 e tem 3 filhos. “Eu me arrependo de ter traído a minha esposa. Esse é meu arrependimento.”

Pouco antes de rescindir o contrato com o clube brasileiro, um áudio do jogador enviado a amigos, em que ele se dizia perseguido, veio a público.

Ele afirmou que estava sendo perseguido pela TV Globo, que divulgou áudios dos autos do processo da Itália que serviram de base para sua condenação, e se comparou com o presidente Jair Bolsonaro, afirmando que faria uma homenagem a ele quando entrasse em campo novamente. “Vou meter uma camisa quando fizer gol: ‘Globo lixo, Bolsonaro tem razão’”, disse.

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Este artigo apareceu originalmente no HuffPost Brasil e foi atualizado.