Rocha que desabou em Capitólio tinha fraturas que ofereciam risco de desabamento, aponta especialista

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SÃO PAULO — As chuvas intensas que atingiram Minas Gerais nos últimos dias foram o gatilho para o deslizamento de parte de um cânion localizado no lago de Furnas, em Capitólio (MG), na manhã deste sábado, afirmam dois especialistas ouvidos pelo GLOBO. O acidente em um dos principais destinos turísticos mineiros deixou ao menos cinco mortos e 20 desaparecidos, segundo o Corpo de Bombeiros.

A professora do departamento de geografia da Universidade de São Paulo (USP), Bianca Carvalho Vieira ressalta que o tipo de rocha que compõe o local já possui pré-disposição a desabamentos. E que a que desabou, vertical, possuía fraturas geológicas:

—Aquela é uma área de risco, mais suscetível a tombamentos, e as fraturas são caminhos para a água passar. Cada fratura é uma área mais vulnerável. Quando há entrada excessiva de água, estas fraturas ficam encharcadas, o material amolece, perde coesão e sofre um rompimento — explica a geógrafa

A especialista, que atuou no mapeamento de áreas de riscos a inundação e deslizamentos no estado de São Paulo, explica ainda que o tombamento é um dos processos mais difíceis de se prever. Justamente por isso, é necessário, frisa, manter vistoria constante e evitar o trânsito de pessoas e veículos em períodos de maior risco, como era o caso de Capitólio neste momento. O mapeamento de áreas de riscos, exigido por lei federal, é ajuda importante para se evitar acidentes, diz a professora.

Edilson Pizzato, professor do Instituto de Geociências da USP, também reforça que é prudente evitar áreas como a da tragédia em Capitólio quando há um período longo de chuvas.

— A chuva e a tromba d'água aceleraram o processo de rompimento. Anteriormente, chovia mas havia tempo de a água drenar. Uma vez que o excesso de água preencheu toda a fratura, no entanto, a pressão foi muito forte e empurrou a rocha para fora — explica Pizzato. — Sabemos que é uma condição natural desse tipo de formação, mas é preciso estar sempre vistoriando para checar se há trincas e, assim, determinar que se evite a área após muita chuva.

Segundo o especialista, quando as condições climáticas não são favoráveis, também se recomenda especificamente evitar a proximidade com o paredão de rochas.

— É recomendável, por exemplo, se criar uma área de segurança, considerando a própria altura da encosta, para evitar que os turistas se aproximem e mantenham uma distância segura em caso de tombamento.

Tentativa de alertar sobre perigo

O deslizamento de pedra na manhã deste sábado atingiu três lanchas que estavam na região do cânion. Um vídeo gravado por ocupantes de uma das embarcações que estavam próximas ao local mostra que turistas e barqueiros já haviam percebido que pedras estavam descendo pela encosta e que havia a iminência de o rochedo gigantesco despencar sobre a água. Nas imagens, eles tentam, sem sucesso, avisar aos outros barcos sobre o perigo.

Pelas estimativas do Corpo de Bombeiros, há 20 desaparecidos. Todas as vítimas foram encaminhadas para hospitais da região e até agora há informações de dois mortos. A Marinha informou em nota que tomou conhecimento do acidente no fim da manhã e que a Delegacia Fluvial de Furnas deslocou imediatamente equipes de Busca e Salvamento (SAR) para o local "a fim de prestar o apoio necessário às tripulações envolvidas no acidente, no transporte de feridos para a Santa Casa de Capitólio, e no auxílio aos outros órgãos". Segundo a corporação, um inquérito será instaurado para apurar as causas e circunstâncias do acidente.

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