Rocinha registra os primeiros quatro casos de coronavírus

Felipe Grinberg e João Paulo Saconi
1 / 2

faixa

Na Rocinha, faixas orientam os moradores a ficar em casa

RIO — A Rocinha é mais uma comunidade carioca a ter casos de coronavírus confirmados. Segundo a Secretaria estadual de Saúde, quatro pessoas moradoras da favela foram diagnosticadas com covid-19. Também já foram confirmados casos em outras comunidades como Cidade de Deus, Parada de Lucas, Vidigal, Mangueira e Complexo do Alemão.

Nos últimos dias o clima de apreensão tomou conta de toda a Rocinha. A morte de dois idosos na última semana está sendo investigada. Luiza Santana do Nascimento, de 70 anos, morreu na UPA da favela com o sintoma da Covid-19. Também na segunda-feira, o aposentado Antônio Edson Mesquita Mariano, de 67 anos, morador da favela, morreu com suspeita de infecção por Covid-19. A Secretaria municipal de Saúde investiga os dois casos. Os dois idosos passaram por testes, mas o resultado ainda não ficou pronto.

Pelo medo de outras pessoas estarem infectadas pelo vírus, comerciantes e moradores estão adotando uma série de medidas na tentativa de impedir que a doença se alastre pela favela. Só o comércio essencial funciona. À noite, ninguém sai de casa. Por dois motivos: o medo de serem infectados pelo coronavírus e a ordem do tráfico de drogas que instalou o toque de recolher na comunidade por conta da pandemia.

— Meu maior medo é meu filho ser infectado pela doença. Por isso, com uns bicos que fiz, comprei um álcool gel para ele. Já tá acabando, mas daqui a pouco tenho que ver o que vou fazer — conta a desempregada Suellen Cristina da Silva, de 31 anos.

Ela tenta manter o filho, Lohan Taylor Rodrigues da Silva, de 7 anos, dentro de casa, nesses dias de aulas suspensas por conta da quarentena:

— Ele tem ficado mais dentro de casa, mexendo no celular e vendo TV o dia todo. É melhor.

Uma outra moradora, que tem medo de se identificar, afirma que muitos moradores estão com medo de sair às ruas.

— Com a suspeita da morte aqui na favela, o pessoal não está se arriscando. O tráfico mandou todo mundo ficar em casa.

Morte em cinco dias

O documento com dados sobre a morte de Mariano também menciona “diabetes mellitus tipo 2” e “hipertensão arterial sistêmica” — duas doenças preexistentes. Apesar do histórico de saúde, seu filho, o garçom Antônio José Moreira Mariano, de 38 anos, afirma que seu pai tinha uma vida ativa:

— Meu pai vivia bem, tomava os remédios diários para pressão, para o coração e insulina. Mas não era um idoso cansado que passava o dia sentado no sofá.

Os primeiros sintomas surgiram em 25 de março. Com a progressão de tosse, dor de cabeça e febre alta, o aposentado foi à UPA da comunidade. Na ocasião, Mariano foi diagnosticado com pneumonia, segundo o relato do filho.

O quadro de Mariano piorou na madrugada de segunda-feira, dia 30. Antônio José levou o pai para o CER do Leblon.

— Nós chegamos com ele desmaiado na cadeira de rodas. Ele entrou no CER e foi para a sala vermelha. Então, o médico disse para eu sair e essa foi a última vez que vi meu pai vivo. Uns 20 minutos depois, o médico voltou e disse que meu pai teve uma parada cardiorespiratória e morreu. Resolveram fazer o teste quando meu pai estava praticamente morto. Então, não tem nada desse negócio de “vamos testar as pessoas”. Não tem teste nenhum — lamentou o filho do aposentado.

Momento de cautela

A direção da UPA da Rocinha não informou se houve uma aumento de pessoas procurando a unidade relatando estarem com sintomas da doença.

Na próxima semana, cerca de 200 kits de produtos de limpeza (álcool gel, detergente, água sanitária e sabonete) serão distribuídos na favela pela associação de moradores da Rocinha. Também foram distribuídos folhetos pedindo que os moradores fiquem em casa.