Rodrigo Capelo: pesquisa O GLOBO/Ipec reforça potencial desperdiçado pelo Vasco

Se o dirigente do clube de futebol não souber o mínimo sobre a sua torcida, ele não tem a menor ideia do que está fazendo. Daria para sustentar a afirmação com conceitos básicos do marketing, citar os quatro P's de Kotler, lembrar que toda empresa precisa conhecer seu público-alvo. Mas já vou avançar o sinal ao tratar você, torcedor, como consumidor. Sei que para um caderno de esportes o termo pode ofender, então vamos buscar outra linguagem.

Este texto começa assim, pelo viés do marketing e do consumo, porque a maneira como interpretamos os resultados da extensa e inédita pesquisa sobre torcidas contida aqui precisa ser um pouquinho diferente da habitual. Brasileiro tem certa obsessão por encontrar nesse tipo de material a confirmação para a sua mania de grandeza — “meu clube é maior do que o seu” —, mas quem segue por essa via geralmente perde o que há de valioso nos dados.

Por que a lista das maiores torcidas do Brasil importa? Pois ela determina o tamanho do mercado consumidor de cada clube e, por consequência, o potencial de expansão de seus faturamentos. O Flamengo arrecada mais do que seus rivais porque, além de ter se organizado na última década, tem muito mais torcedores. Fica mais fácil vender ingressos, conseguir sócios-torcedores e até negociar patrocínios e direitos de transmissão. O dinheiro move o futebol.

Tendo em mente que a quantidade de torcedores facilita o crescimento de um clube, não há surpresa ao encontrar Corinthians, Palmeiras e São Paulo na sequência do Flamengo nas duas listas: das maiores torcidas e das maiores receitas. Por outro lado, no quinto lugar das pesquisas sobre público, o Vasco não fica nem entre os dez maiores em termos de grana. Duas conclusões são evidentes. A sua administração recente foi um desastre, e o seu potencial para crescimento, desde que combine investimento e governança adequada, é tremendo.

Além do quantitativo, é necessário entender o perfil das torcidas. Como elas se dividem em relação a gênero, idade, localização e classe social? Provavelmente, aí está uma explicação para a dificuldade vascaína de prosperar financeiramente. O seu público se divide entre várias regiões brasileiras, embora a maior concentração naturalmente esteja no Rio de Janeiro, e a sua torcida é mais numerosa entre famílias com renda inferior a um salário-mínimo. É mais difícil tornar consumidor quem está distante do estádio e tem orçamento familiar restrito.

Nada disso é propriamente inédito. Outras pesquisas, no passado, constataram que a torcida do Vasco tem esse perfil, assim como São Paulo e Fluminense costumam ter maioria entre classes abastadas, com renda familiar superior a cinco salários-mínimos. E é por isso que a compreensão do cenário não passa só pelos dados inéditos. A pesquisa é uma fotografia do momento. A história está contada no filme, isto é, na sequência de vários quadros diferentes.

Pesquisas sobre torcidas causam repercussão enorme no Brasil, porém restritas a vaidades e discussões meio vazias. Então, faço esse apelo. Deixe para lá se o seu clube está meio percentual acima ou abaixo do adversário. Lembre-se de que há limitações em qualquer levantamento dessa natureza: margem de erro, intervalo de confiança, questões de amostra. O perfil das torcidas diz muito sobre presente e futuro dos clubes que formam nosso futebol.

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