Rodrigo Fagundes faz 50 anos, mostra coleção de brinquedos e entrega cantadas: ‘Ator gay não pode interpretar pegador?’

“As pessoas têm Bolsonaro como presidente e vêm falar pra mim que sentem medo da Annabelle?”, argumenta um bem-humorado Rodrigo Fagundes, enquanto apresenta a sala de seu apartamento, em Copacabana, na Zona Sul do Rio, para a equipe do EXTRA. A boneca aterrorizante do filme “Invocação do mal”, acomodada em destaque numa cadeira, dentro de um móvel sob medida, é uma entre os mais de 500 brinquedos curiosos e raros que o intérprete do Armandinho de “Cara e coragem” coleciona. Neste 30 de outubro, véspera de Halloween, o ator completa 50 anos, “mas com energia de 25”, reforça. E, além da não reeleição do atual presidente da República ao cargo, diz, com os olhos marejados, que gostaria de ganhar um outro presente especial: poder passar novamente um dia inteirinho com a mãe, Maria de Lourdes — que perdeu a vida, aos 77 anos, em agosto do ano passado, para a Covid-19. Nesta entrevista, o mineiro também revela detalhes sobre o relacionamento de 19 anos com Wendell Bendelack, de 48, um dos colaboradores de Claudia Souto no roteiro da novela das sete; as cantadas que recebe por causa do malandro da TV; dramas pessoais e surtos, entre outros assuntos.

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Sem festa

“Que dia pra fazer aniversário, né? Em plenas eleições... Eu não vou comemorar. Tinha a ideia de fazer um festão de 50 anos, mas muita coisa foi acontecendo... Minha mãe faleceu... Se fosse por ela, eu teria que celebrar em grande estilo. E 50 é um número tão significativo, né? Quero fazer festa na hora em que eu achar que vou estar realmente feliz”.

Meio século de vida

“Mais jovem, eu achava que quando chegasse aos 50 estaria igual ao (ator) Mário Lago. Lembra dele? Cabelo branquinho, de óculos... Mas cheguei aqui com a energia dos 25 anos. Não fumo, não bebo, não me drogo. Estou entrando no segundo ato da minha vida. Com sorte, vou para o terceiro”.

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Vaidade

“Pinto o cabelo por causa da novela, já estou com os fios branquinhos aqui nas laterais. No auge da pandemia, engordei muito, 20kg. Descobri gordura no fígado e princípio de diabetes. Apavorado, fiz exercícios e eliminei 19kg. Agora dei uma relaxada, preciso voltar. Os cremes, eu começo a usar e desisto, não sigo uma rotina”.

Do humorístico às novelas

“Quando eu estava no ‘Zorra total’, queria muito fazer novela, e o (diretor Maurício) Shermann não liberava. Me sondaram para duas e eu nem fiquei sabendo, porque ele vetou. Ouvi de grandões da Globo que eu nunca faria novela porque estava marcado por um só personagem, o Patrick. Por muito tempo eu acreditei nisso. ‘Cara e coragem’ é a terceira que faço, e é uma surpresa a cada semana. Quem pensa que Wendell me conta o que vai acontecer com Armandinho se engana. Ele está escrevendo 30 capítulos à frente, isso poderia influenciar no meu jeito de interpretá-lo agora”.

‘Zorra total’

“Tive embates ali. Vim com um personagem pronto do teatro (da peça ‘O surto’) e quiseram mudar tudo. Meu bordão, ‘Olha a faca!’, era herança da minha avó. Eu achava que ia durar três meses na TV, fiquei nove anos no ar. Patrick era a minha essência, mas eu tinha medo de falar da minha sexualidade. O programa era machista, tinha quadros inacreditáveis. Hoje, não tem mais espaço para esse tipo de humor. A gente tem que evoluir”.

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Exposição nas redes

“Nunca falei sobre a minha intimidade, mas também nunca escondi. Minha primeira foto do Instagram, de 2015, já tinha na legenda que Wendell era o meu amor. Sofremos ataques quando postamos fotos juntos. Xingam, põem emoji de vômito. É um povo tão descontente com a própria vida, que ataca quem quer ser de verdade”.

Cantadas de mulheres

“No meu Instagram, 72,6% do seguidores são mulheres, 27,4% são homens. Elas ficam loucas em mim, por causa do Armandinho. Recebo muitas cantadas! Mandam nudes, falam do meu bigode, da camisa aberta... ‘Eu tenho chance?’, ‘Você está um tesão!’. Quem disse que gay não pode interpretar pegador? Como ator, nunca quis que a minha orientação sexual fosse um fator limitador. Já ouvi de uma produtora de elenco: ‘Não tem bicha na novela, pra você fazer’. Botam numa caixinha”.

Na arte e na vida

“Na novela, Armandinho está pegando as três ex-mulheres de novo, mas elas vão descobrir e se vingar, fingir que estão grávidas dele... Eu já tentei me relacionar com mulher. A gente tenta, né (risos)? Foram duas. Uma era só amiga, nós encenávamos um namoro para os nossos parentes. A outra, de verdade, durou só cinco meses. Demorei a exercer a minha sexualidade. Eu era confuso, de família tradicional e católica mineira. Tinha medo de tudo. Só fui ter meu primeiro namorado com 25 anos. Foi estranho, mas meu coração bateu melhor”.

Casamento

“Eu e Wendell estamos juntos há 19 anos. Estamos pensando em fazer uma festa ‘Casal 20’ no ano que vem. Ainda não nos casamos no papel. Ele é meu amigo, meu pai, meu irmão e meu marido. Conversamos muito sobre não perder o desejo um pelo outro. Sou de Escorpião, ele é de Peixes. Dou uma canseira nele (risos)”.

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Mãe

“Só quem passou pela tragédia da Covid em família sabe a dor. Quando minha mãe se foi, a tristeza fez morada aqui em casa. Tem dias em que ela passa longe, em outros a gente se cruza pelos cômodos. Há pouco tempo, uns amigos vieram aqui. Tocou o celular de um deles e estava escrito na tela ‘Mãe’. Me deu uma vontade de chorar... Nunca mais vou receber uma ligação assim”.

Pai

“Ele morreu em 2015, nós não tínhamos contato. Meu pai era sargento reformado do Exército. Tomou um tiro numa operação, aos 29 anos, e teve que se aposentar, porque a bala ficou alojada. Aí, começou a trabalhar como professor de autoescola. Foi o que ele fez por mim: me ensinou a dirigir. Nunca o abracei nem o beijei. Na educação machista que recebi, homem não beijava homem”.

Filhos

“Já temos duas filhas, as gatas Agatha e Emily. Eu até tenho talento pra ser pai de humano, mas não tenho vocação. Wendell também não. Tem dias em que a gente acorda e nem quer comer. Criança tem horário pra tudo”.

Coleção de brinquedos

“Tenho mais de 500 peças. Estão espalhadas por toda parte, até no banheiro. Minhas aquisições mais recentes foram os Ursinhos Carinhosos, as Fofoletes e a boneca Emília, que meu pai nunca me deixou ter. Essa minha coleção só começou a ser feita já quando adulto. Fui achando itens em brechó, no Mercado Livre... Os brinquedos de maior valor são a Anabelle e o ET. Ele está valendo uns R$ 7 mil; ela, R$ 6 mil. É nisso que eu gosto de gastar o meu dinheiro. Não tenho nem carro. Dou R$ 500 num boneco, mas não dou R$ 400 num pneu. Sou uma criança de 50 anos, louca pelos Goonies”.

‘O surto’

“Fico surtado quando vejo gente escrota se passando por boazinha. Tem pouquíssimas pessoas com quem eu não quero trabalhar mais. Também já surtei de ciúme. Uma vez, na boate, fui comprar bebida e, quando voltei, tinha um cara dançando com Wendell. Ah, dei um banho nele! Eu e meu marido viemos discutindo até em casa. No elevador, a gente já começou a se beijar, fazendo as pazes. Foi um dos melhores sexos da minha vida”.

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