Rodrigo Janot planejou matar Gilmar Mendes. E isso não é figura de linguagem. É surrealpolitik

O ex-procurador-geral da República Rodrigo Janot, durante lançamento da campanha "Todos juntos contra a corrupção, no Conselho Nacional do Ministério Público (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)


Repita comigo: o procurador-geral queria matar um ministro do Supremo.

De novo. O procurador-geral queria matar um ministro do Supremo

Mais uma vez. O procurador-geral queria matar um ministro do Supremo.

Agora pausadamente.

O.

Procurador

Geral.

Queria

Matar.

Um.

Ministro.

Do.

Supremo.

Não só quis como quase fez. Foi o que afirmou o próprio ex-procurador-geral da República Rodrigo Janot. Em entrevista à “Veja”, ele revelou como, em 2017, planejou assassinar o ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes.

“Fui armado para o Supremo. Ia dar um tiro na cara dele e depois me suicidaria. Estava movido pela ira. Não havia escrito carta de despedida, não conseguia pensar em mais nada”.

O gatilho para o ato extremo ocorreu quando Janot pediu ao STF a suspeição de Gilmar para atuar em processos contra Eike Batista, já que a mulher do ministro, Guiomar Mendes, atuava no escritório que defendia o bilionário.

Gilmar Mendes respondeu. Em oficio, afirmou que a filha de Janot, Letícia Ladeira Monteiro de Barros, advogava para uma empreiteira igualmente investigada, e poderia “ser credora por honorários advocatícios de pessoas jurídicas envolvidas na Lava Jato”.

“Aí eu saí do sério”, justificou Janot.

Em um país onde as instituições de fato funcionam, uma pessoa ofendida possui meios e recursos para interpelar judicialmente o ofensor, buscar reparos, se defender.

Mas o que dizer quando o próprio procurador-geral da República atribui a uma pistola a forma mais eficaz de defender a sua honra e da sua família?

Nos filmes de Hollywood, a busca por justiça pelas próprias mãos é chamada de heroísmo. No mundo real, é a falência de todas as instituições.

Leia mais no blog do Matheus Pichonelli

Naquele ano, 59.103 pessoas foram assassinadas no Brasil. Praticamente uma a cada 9 minutos. Por pouco Gilmar Mendes não engordou as estatísticas.

“Quando cheguei à antessala do plenário, para minha surpresa, ele já estava lá. Não pensei duas vezes. Tirei a minha pistola da cintura, engatilhei, mantive-a encostada à perna e fui para cima dele. Mas algo estranho aconteceu. Quando procurei o gatilho, meu dedo indicador ficou paralisado. Eu sou destro. Mudei de mão. Tentei posicionar a pistola na mão esquerda, mas meu dedo paralisou de novo. Nesse momento, eu estava a menos de dois metros dele. Não erro um tiro nessa distância. Pensei: ‘Isso é um sinal’. Acho que ele nem percebeu que esteve perto da morte”, relatou Janot, que contará histórias de desequilíbrio como essa em um livro de memórias.

Na República dos Desequilibrados, a surrealpolitik (obrigado, Joanna Burigo) brasileira tem tudo para ser best-seller.