Rodrigo Maranhão lança álbum visual gravado e filmado em apenas um dia

Rodrigo Maranhão surge na tela, para a entrevista por vídeo, dentro da cabine de 1,10 m² onde sua mulher, a atriz Isabel Guerón, e a também atriz e cronista Maria Ribeiro gravam o podcast “Isso não é Noronha”. Os episódios sempre terminam com o artista interpretando uma canção relacionada ao que as duas falaram.

— O “Noronha” é mais uma das coisas que eu me permito fazer e que me deixam feliz. Estou fazendo tudo — diz ele, que completará 52 anos em setembro.

“Tudo” significa não manter sempre separadas suas várias facetas: cantor, violonista, cavaquinista, compositor pop para o megabloco Bangalafumenga, compositor de gêneros brasileiros tradicionais para diversos intérpretes e para ele mesmo. Muito dessa multiplicidade se escuta em “Mercado das flores”, álbum que está lançando.

— Acabo não escolhendo para os meus discos o lado Banga. Nesse álbum tem duas do Banga, porque estou tentando acabar com essa loucura. Por que não posso gravar um batidão de funk? — pergunta, referindo-se a “Funk dos orixás”. — A pandemia me fez ficar mais generoso comigo. Sou um monte, mas tudo sou eu.

O carioca Maranhão ainda não é tão conhecido quanto suas composições. São dele, por exemplo, “Caminho das águas”, “Recado” (sucessos de Maria Rita), “Samba de um minuto” (Roberta Sá), “Rap do real” (Pedro Luís, parceiro na música) e “Baile da pesada” (Fernanda Abreu). Há algo de planejado nesse quase anonimato.

— Meu primeiro desejo foi ser compositor. Ouvia os nomes no rádio e achava chique aquele cara só compondo, sem se expor. A música ser gravada por um grande intérprete era o máximo. Há sempre um período em que fico com necessidade de cantar, de fazer um disco. Mas me considero mais compositor. É onde me sinto mais vaidoso, onde não gosto que falem mal de mim. Como cantor, entra por um lado e sai pelo outro.

De volta ao violão

Já o violonista, que estudou violão erudito na juventude, ficou em segundo plano nos três álbuns anteriores. Maranhão deixava a função para exímios violonistas de sete cordas como Nando Duarte e Marcello Gonçalves. Em “Mercado das flores”, ele toca o instrumento nas 14 faixas. E é acompanhado pelos colegas de sempre Marcelo Caldi (sanfona) e Pretinho da Serrinha (percussões), além de Pedro Franco (bandolim).

— Todo mundo fala em sair da zona de conforto, e eu adoro zona de conforto. E me desafiar dentro do conforto. Por que não trazer o violonista que sempre escondi, talvez por não ouvir meu pai? — diz ele, que mostraria mais sua destreza no violão e no cavaquinho se seguisse os conselhos do pai, Paulo.

Pedro Luís, seu parceiro em cinco músicas, elogia:

— O Maranhão junta as qualidades de um grande compositor com as de um instrumentista de rigor e bom gosto ímpares. Além de tudo, tem um canto delicado e pessoal. É ouro de mina o sujeito.

O isolamento forçado na pandemia deu a Maranhão a possibilidade de estudar como há tempos não conseguia. Mas também o obrigou a se mexer para pagar as contas. Voltou a dar aula de cavaquinho e aceitou compor a trilha de “Fim”, série que Andrucha Waddington está dirigindo a partir do romance de Fernanda Torres. E também faz uma ponta como ator.

— Há coisas que, antes da pandemia, eu não faria, ia ficar sem graça. Hoje me divirto. Foi por necessidade e virou prazer. Tenho dois filhos, vou fazer o quê?

Ao vivo, só que não

“Mercado das flores” é um “álbum visual”, gravado e filmado em apenas um dia, 9 de julho de 2021. A opção, feita por motivos financeiros, acabou por gerar um disco ao vivo realizado com os cuidados técnicos que um estúdio oferece.

São cinco canções inéditas e nove registros próprios de composições interpretadas antes por outros, como “Recado” e “Samba de um minuto”. Uma destas é “Do avesso”, já gravada pelo português António Zambujo.

— Rodrigo foi das primeiras pessoas que conheci no Brasil. Tive a felicidade de gravar algumas músicas dele. É um privilégio cantar aquele que eu acho ser um dos melhores autores contemporâneos da música brasileira— exalta Zambujo, por áudio.

Maranhão destaca mais intérpretes importantes na sua trajetória, como Rita de Cássia (também conhecida como Rita Peixoto), uma das primeiras a gravá-lo, e claro, Maria Rita. “Caminho das águas” foi tema de abertura da série “Amazônia”, da TV Globo, e conquistou um Grammy Latino em 2006.

O sucesso iluminou um aspecto de sua produção em que ele já não acreditava: o autor de choros, xotes, cirandas, ijexás e outros gêneros aparentemente distantes do que o dito mercado deseja. Uma mudança e tanto para quem gostava de heavy metal na adolescência e sonhava jogar basquete na NBA.

— Uma ex-batuqueira do Banga me disse uma vez: você agradece todos os dias a vida que tem? Foi um tapa. Eu me deixava contaminar pelas expectativas dos outros — conta. — O que eu queria era ser compositor. E isso eu consegui. Tenho mais de cem canções gravadas. O resto é bônus.

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