Rogerio Fasano conta em livro a trajetória da família que é sinônimo de luxo no Brasil

Não é mais uma coletânea de passagens de uma família de imigrantes italianos que elegeu o Brasil para viver e fez sucesso, muito sucesso. "Fasano, dal 1902..." (Ed. DBA), livro que será lançado no Rio na próxima segunda-feira (6), é bem mais do que isso. Fala dos 120 anos da chegada do milanês Vittorio Fasano até a recente abertura do Hotel Fasano, ano passado, em Nova York, mas é acima de tudo um livro de bom gosto. E é prazeroso de ler - não apenas pela seleção de receitas que traz.

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São boas histórias, de sucessos e de fracassos; de encontros e desencontros; de erros e acertos; todas tendo como "voz" o restaurateur Rogério Fasano, o Gero, que há 40 anos está à frente da marca. O molho especial fica por conta do humor e da irreverência (inconfundíveis) do Gero, que não economiza nos detalhes íntimos (fala, por exemplo, do transplante de fígado a que se submeteu) e surpreendentes, a começar pelo episódio em que conta como ele, então com 18 anos, estudante de cinema em Londres, descobriu pelo jornal que o pai, Fabrizio, estava à beira da falência. Todos os bens da família tinham sido vendidos para quitar dívidas. A notícia mudaria para sempre a sua vida: voltou para o Brasil e se juntou ao pai para trabalhar.

- Meu pai nunca me deu lição de moral. Foi milionário graças ao seu próprio esforço, perdeu tudo e nunca se lamentou uma única vez. Acordava, vestia seu terno e ia à luta. Nunca se achou azarado ou injustiçado. Construímos muito juntos - diz Gero que, desde então, pôs o sobrenome da família em nove hotéis e 27 restaurantes em três países.

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Gero conta que a ideia do livro é um somatório de momentos: os seus 60 anos, os 40 anos de profissão e a abertura do hotel Fasano em Nova York.

- Queria contar a nossa história lá fora. Lançamos lá e foram dois mil livros autografados - diz o empresário, que procurou mostrar as quatro gerações que estiveram por trás do nome Fasano, cada uma com o seu papel. - Meu bisavô não era um restaurateur, era importador de café. Mas meu avô foi, e meu pai acabou entrando no ramo com a minha volta para o Brasil. São muitas "vozes" pelas páginas.

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Luciano Ribeiro, jornalista carioca que divide a autoria dos textos do livro, fala, com carinho (são amigos há décadas, jogavam bola juntos) do "empresário improvável", da curiosidade de entender como Gero chegou tão longe sendo, quase sempre, notívago e tendo até um certo desprezo por negócios.

- Ele trocava a noite pelo dia. A pedido de uma grande joalheria, desenhou um dos raros relógios masculinos da rede. Nele, os ponteiros marcam apenas as horas PM - diz o jornalista. - Gero não gosta de ler balancetes, não entende de impostos, regimes tributários, fluxo de caixa, ou seja, questões fundamentais para ter negócios bem-sucedidos. Pelo que ele se interessa? Futebol, cinema, música, literatura. Acredita que carros são alemães, vinhos são franceses, comida é italiana e o humor é inglês e judaico.

Pelas 160 páginas, ilustradas com fotos de época e atuais, há relatos de fracassos retumbantes, como a abertura do Jardin Gastronomique Fasano, dedicado à nouvelle cuisine francesa.

- Tentamos agitar a casa de todo jeito. Um dia, meu pai sugeriu que fizéssemos um chá Fasano. Anunciamos. Deu certo, porque o salão lotou. Meu pai estava radiante, uma alegria só, encantado com a quantidade de jovens pelas mesas. Até o momento em que um deles se levantou da mesa e anunciou que era o dia da ''pendura". Todos eram estudantes de direito e ninguém pagou um chá sequer - lembra Fasano. Ah, essa história não está no livro.

Quando abriu o Gero Rio, Fasano teve o cuidado de não contratar nenhum funcionário empregado em restaurantes cariocas. Colocou um anúncio no jornal, selecionou os melhores, levou para treinamento em São Paulo e, quando inaugurou, estava com um staff tinindo.

- Quando o Giuseppe Cipriani conheceu o meu pai, no Fasano, ouvi dele o seguinte: "Eu nunca roubaria um maître da equipe do Fasano, mas sim quem passa as camisas do Fabrizio."

A busca incansável pela perfeição, seja no serviço ou na cozinha, o jeito peculiar de entender luxo e sofisticação, e os ingredientes italianos, que durante anos foram confessamente "contrabandeados" pelo empresário (camuflava as "pepitas" de trufas na mala), estão entre as muitas passagens abordadas na obra, que conta como cada uma das casas do grupo nasceu: Fasano, Gero, Parigi, Trattoria, Bistrot Parigi, Gero Panini e os hotéis.

No desfecho, uma coletânea de receitas: oito pratos e oito drinques, pinçados entre os clássicos, coisas como o ossobuco com risotto alla milanese, do Fasano; o Bollito, do Parigi; a Torta Caprese, do Gero; o Bloody Mary, do Baretto.

Fasano dal 1902... Autores: Luciano Ribeiro e Rogério Fasano. Editora: DBA. Páginas: 160. Preço: R$ 250.

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