Morte de Yevtushenko põe fim à era dos poetas que lotavam estádios de futebol

Ignacio Ortega.

Moscou, 5 abr (EFE).- Com a morte do grande escritor russo Yevgueni Yevtushenko, que faleceu no último sábado nos Estados Unidos aos 84 anos, se encerra uma era, a dos poetas soviéticos que lotavam estádios de futebol após a morte de Stalin.

"Um poeta na Rússia é mais que um poeta", costumava dizer Yevtushenko, frase que se transformou em seu credo vital e literário.

É difícil de acreditar nos tempos das redes sociais e do lazer interativo, mas no final dos anos 50 e nos anos 60 na União Soviética, dezenas de milhares de pessoas iam aos estádios não para assistir a jogos de futebol ou a comícios, mas para escutar seus poetas preferidos, autênticos ídolos das massas.

Em meio ao degelo político e cultural aberto pela chegada ao poder de Nikita Kruschev (1953-1964), os cidadãos soviéticos tinham nas estrofes e poemas o mais valioso dos tesouros.

Assim como Bella Akhmadulina, Robert Rozhdestvensky e outros poetas da geração dos anos 60, o carismático Yevtushenko declamou seus poemas no antigo Estádio Central Lênin de Moscou perante mais de cem mil pessoas, incrédulas com os inusitados ventos de liberdade que sopravam após o fim do stalinismo.

Yevtushenko, que também encheu estádios em outros lugares do mundo como México, Espanha, Chile e Estados Unidos (o emblemático Madison Square Garden de Nova York), conseguiu algo extraordinário: ser admirado por partidários do regime e dissidentes, comunistas e liberais, russos e americanos.

Apesar de escrever poemas desde muito jovem, o momento crucial de sua carreira literária ocorreu quando sua tia lhe disse que Stalin era um "assassino" e que seus avôs por parte de pai e mãe tinham sido reprimidos como inimigos do povo.

Yevtuchenko nasceu em 1932 em Irkutsk (Sibéria). Publicou seu primeiro livro de poemas em 1956 e, no ano seguinte, enfrentou a linha dura do partido ao defender um colega, o que causou sua expulsão do Instituto de Literatura.

"O que posso fazer com ele? Enviá-lo à Sibéria? Nasceu lá!", disse Kruschev em uma ocasião.

O poeta obteve fama mundial com apenas 28 anos ao publicar o poema "Babi Yar" em memória dos judeus assassinados pelos nazistas, no qual também faz críticas ao antissemitismo na União Soviética.

Sua popularidade foi tamanha que também enfrentou o sucessor de Kruschev, Leonid Brezhnev, ao sair em defesa dos dissidentes, criticou o envio de tanques soviéticos para esmagar a Primavera de Praga em 1968 e se reuniu com o presidente americano Richard Nixon em 1972.

O amor das massas soviéticas evitou que Yevtuchenko fosse deportado, como aconteceu com Aleksandr Solzhenitsin, mas talvez isso o tenha impedido de ser premiado com o Nobel de Literatura.

Foi deputado durante a Perestroika, mas após a queda da URSS, em 1991, emigrou para os EUA, onde trabalhou como professor universitário até sua morte, embora não tenha deixado de viajar à Rússia, onde recebeu em 2010 o maior prêmio estatal no campo da cultura.

Seu amor pela Rússia e pela Sibéria nunca desapareceu e, de fato, seu corpo será enterrado em Peredelkino, não longe de Moscou, segundo deixou escrito em seu testamento, para jazer junto a seu amado Boris Pasternak, prêmio Nobel, autor de "Doutor Jivago".

Tanto o presidente russo, Vladimir Putin, como o último dirigente soviético, Mikhail Gorbachev, o cantor Iosif Kobzon e o cineasta Nikita Mikhalkov, todos conhecidos por seu ideário ultraconservador, renderam homenagens a Yevtushenko.

Apesar de ter diagnosticado um câncer há seis anos e amputado uma perna, o poeta russo continuou viajando pelo mundo. No ano passado, deu vários recitais em Barcelona e Lima, sem deixar seus projetos cinematográficos, outra de suas paixões.

Segundo pessoas próximas, Yevtushenko defendeu a amizade entre Rússia e Estados Unidos desde que se exilou em Oklahoma até sua morte. EFE