Romance 'Esforços olímpicos' usa vida de atletas de elite para refletir sobre o cotidiano dos mortais comuns

Nelson Vasconcelos, especial para O Globo
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Primeiro romance da americana Anelise Chen, “Esforços olímpicos” se baseia na vida de atletas de elite para refletir sobre o cotidiano dos mortais comuns. Qualquer fato ligado a qualquer esporte pode ser um gancho para tratar de temas como família, amigos, amores, universidade. Com extensa pesquisa histórica sustentando a narrativa, os coadjuvantes semideuses garantem veracidade a conflitos, tragédias e situações cômicas criadas pela autora. É tipo uma mitologia do esporte costurada por um enredo fictício. E com pitadas inofensivas de autoajuda.

Quem puxa o fio da meada é Athena, uma ex-nadadora que nos abre seu diário de anotações. Mesmo precisando finalizar uma tese intrincada, ela não é exatamente pragmática: em vez de sentar e escrever o que interessa, enrola-se com divagações alheias ao trabalho. É assim que perde tempo e a bolsa que lhe garante uma sobrevivência modesta. Sua vida degringola capítulo a capítulo, mas o negócio dela é filosofar.

Misturando episódios verídicos à sua ficção, Anelise provoca questionamentos: o que há por trás de tantos recordes e fracassos? Como se alimenta a autoconfiança? Perder é morrer? Será positiva a cobrança permanente por medalhas, títulos e supremacia? Será que todo mundo conhece seu lugar na partida? Tem sentido o endeusamento patético de atletas milionários? O mundo acadêmico não parece uma competição esportiva?

Vá saber as respostas... O que importa é que essas e outras tantas perguntas estejam presentes na vida de cada um, fazendo do esporte um campo vasto para reflexões. De certa maneira, “Esforços olímpicos”, lançado nos EUA em 2017, lembra o clássico “Mundo de Sofia” (Jostein Gaarder, 1995) ou as obras de Alain de Botton, suíço que gosta de deitar regras sobre “como usar filosofia”.

Vê-se que a autora pesquisou bastante para encontrar acontecimentos que se encaixassem no seu enredo. São muitas informações e casos intrigantes, como a tentativa de suicídio, aos 15 anos, da Nadia Comaneci, primeira atleta a conquistar o chamado dez perfeito na ginástica olímpica, marcando os Jogos de Montreal, em 1976. Ou a tirada nada sutil do corredor Marty Liquori, “Gente feliz não corre uma milha em 3’47’’”, uma das muitas frases de esportistas que ela cita no livro.

Fugindo um pouco de Olimpíadas, tem até Brasil no livro. Lá pelas tantas, Athena comenta sobre Moacir Barbosa, uma das grandes vítimas do racismo brasileiro. Barbosa foi o goleiro da seleção na Copa de 1950, que perdeu a final por 2 a 1 para o Uruguai, no Maracanã. Embora o futebol seja um jogo coletivo, a culpa da derrota recaiu unicamente sobre o goleiro, que carregou esse estigma até o fim da vida, em 2000, aos 79 anos.

Ora, se a vitória nem sempre é saborosa, e se a derrota pode ser cruel e traumática, será que o sujeito que desiste de uma prova está necessariamente errado? Depende, tudo depende. Para o superciclista Lance Armstrong, que foi banido do esporte pelo uso de doping, desistir não era opção nem mesmo quando o corpo pedia arrego (“A dor é temporária. Se eu desistir, ela vai durar para sempre”).

Para o filósofo e escritor Albert Camus, no entanto, os desistentes têm seu valor por serem rebeldes. Athena pensa nisso ao saber que um grande amigo, ex-namorado, se matou. Covardia ou coragem?

O romance vai nesse compasso, sempre com uma puxada para a tomada de consciência e um pessimismo renitente. Parece que não há escapatória: campeão ou não, as tais dores do mundo vão aparecer qualquer hora dessas, ainda que só na aposentadoria. Então, esteja sempre pronto para qualquer coisa. Não deixa de ser um ensinamento com jeitão filosófico. Ou será autoajuda?

Interessante que Athena apresenta tantas histórias boas que faz o leitor correr ao Google para conferir se tudo o que ela conta é verdade — e é. Assim, a leitura se torna também uma experiência via web, justamente como a maioria de nós se relaciona hoje com os esportes. Provocar esse jogo multiplataforma certamente não foi intenção de Anelise, nascida em Taiwan e criada na Califórnia. Mas ficou bacana.

Certo é que o livro funciona até mesmo porque o mundo dos esportes não costuma inspirar muitos escritores. Alguns ainda chegam lá, mas a maioria parece mais preocupada com o próprio umbigo. Anelise Chen também está, mas disfarçou bem.