Romance de Sérgio Abranches lança olhar sobre as relações afetadas pela polarização

Entre o fim de 2019 e a eclosão da pandemia no Brasil, no início do ano seguinte, o escritor e cientista político Sérgio Abranches dividia suas horas de escrita entre um ensaio e dois projetos para ficção, um deles voltado à polarização política e à radicalização das opiniões que passou a contaminar as relações nos últimos anos. Logo, o último tomou a frente dos demais, a partir de episódios ocorridos durante a quarentena. O resultado é o recém-lançado romance “O intérprete de borboletas” (Record), no qual dois núcleos familiares rompem por desavenças ideológicas, num microcosmo da atual situação do debate político no país.

— Me preocupo com essa questão do aumento do ódio na política no cotidiano das pessoas já há algum tempo. Após a eleição do Trump e do Bolsonaro, escrevi um ensaio sobre a polarização para uma coletânea lançada pela Companhia das Letras em 2019 (“Democracia em risco?”), mas entendi que não conseguiria abordar essas questões só pelo universo da sociologia — conta Abranches. — Precisava ir pela ficção para entrar na psique e nas emoções daqueles personagens, para imaginar como o ambiente estaria afetando a vida deles.

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Mesmo sem citações explícitas a personagens reais da política ou a demarcação exata de um período no tempo (à exceção do início da pandemia), a narrativa contextualiza as divergências, à direita e à esquerda, no Brasil atual. Uma das famílias, de um casal divorciado, é formada pelo pai, professor, pela filha adolescente e pela mãe, recém-convertida a uma religião que condena o comportamento e as opiniões progressistas dos demais. A outra família é centrada em dois irmãos que não se falam mais por discordâncias políticas. Em torno dos dois núcleos, um círculo de amigos de classe média se vê cada vez mais refém dos acontecimentos e da escalada da intransigência.

— Um exercício muito penoso foi me colocar no lugar dos personagens com os quais não concordo. Precisava fundamentar aquela visão de mundo deles, a forma como passaram a normalizar a violência na sociedade, para não virar uma coisa caricata. Ao mesmo tempo, precisava ter um cuidado para não soar como um endosso àqueles pensamentos — observa o autor. — Quando começou o confinamento, imaginei que todo esse ódio fosse dar lugar a um sentido de solidariedade, por conta da tragédia coletiva que vivemos. Mesmo assim, a falta de empatia continuou com o negacionismo e a insensibilidade com tantas mortes por uma parcela da sociedade.

Segundo o escritor, a ambientação da maior parte da narrativa na capital paulista também foi uma forma de se distanciar dos eventos descritos ( “Já morei em São Paulo, mas hoje a minha relação é de visitante”, diz o mineiro de Curvelo radicado no Rio). Outro personagem central na trama, chamado apenas de “o Velho”, traz uma perspectiva mais abrangente aos demais. Ex-preso político, torturado durante a ditadura, ele assume uma personalidade oracular, vivendo isolado em um sítio, cercado pelas borboletas do título. Em meio à perplexidade geral com a radicalização do debate, são dele as opiniões mais voltadas à necessidade de conciliação.

— O Velho tem algumas inspirações reais, como o Mauricio Rosencof (dramaturgo e poeta uruguaio, que foi companheiro de prisão do ex-presidente Pepe Mujica durante a ditadura no país), e outras fictícias. O que ele tenta dizer é que não adianta tentar dar velhas soluções a novos problemas, isso não vai funcionar — comenta Abranches. — Os diálogos do livro passam muito pelo fim do mundo como conhecemos e o surgimento de outro mundo, que é o tema central da minha obra, de ficção e não ficção.

Para o autor de “Que mistério tem Clarice?” (Biblioteca Azul, 2015) e “Presidencialismo de coalizão” (Companhia das Letras, 2017), as emoções extremadas descritas no novo romance são reflexo da própria constatação de um mundo em metamorfose:

— É incrível como estamos à mercê de instintos tão primitivos, de impulsos derivados do medo, em pleno século XXI. Isso também é sinal de que estamos construindo algo que não sabemos o que será, porque estamos no processo. Precisamos de uma certa isenção, um afastamento político deste ambiente para construirmos algo melhor.

“O intérprete de borboletas” Autor: Sérgio Abranches. Editora: Record. Páginas: 240. Preço: R$ 49,90.

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