Rombo na Americanas: ação da varejista sai do Ibovespa cotada a R$ 0,71

O último dia da ação da Americanas como parte do Ibovespa, principal índice da B3, foi para esquecer. Após abrir em queda, já abaixo da casa de R$ 1, o papel chegou a operar com forte avanço na parte da manhã, mas o movimento foi perdendo força ao longo do dia.

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No fim do pregão, Americanas ON (ordinárias, com direito a voto) caiu 29%, negociada a R$ 0,71, depois de passarem por sucessivos leilões.

Os papéis já perderam cerca de 94% do valor. Antes da crise, causada pelo anúncio de inconsistências contábeis no balanço da varejista, a ação valia R$ 12. Com isso, a ação virou uma "penny stock", jargão do mercado para ativos que valem menos de R$ 1.

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Devido ao pedido de recuperação judicial, aprovado pela Justiça na quinta-feira, os ativos da Americanas serão excluídos de todos os índices da B3 após o fechamento dessa sexta-feira. A ação continua a operar na Bolsa.

Para a exclusão, será considerado o preço de fechamento da ação da AMER3 do pregão desta sexta. A participação da Americanas será redistribuída proporcionalmente aos demais integrantes das carteiras nos índices.

Além do Ibovespa, a ação fazia parte de 13 índices. A exclusão faz parte da metodologia da B3, já tendo ocorrido com outras empresas.

Perspectiva negativa e volatilidade

Na visão de analistas de mercado, a tendência é que o papel siga apresentando forte volatilidade daqui para frente à medida que a recuperação judicial – que deve ser longa - avance.

—A volatilidade vai fazer parte, sem falar nas pessoas que vão se aproveitar disso para fazer operações de day trade. Para quem pensa em uma posição fundamentada, não é mais um papel a ser escolhido — disse o sócio e head de renda variável da Legend Investimentos, José Simão.

A retirada do papel do Ibovespa gera implicações em cadeia. Isso porque, muitos fundos de investimento replicam os papéis listados no índice. Com a Americanas de fora, eles serão obrigados a vender esses papéis.

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No longo prazo, isso tira liquidez dos ativos da companhia e o volume de negociações diminui bastante.

— Isso tende a aumentar a força vendedora, o que deve puxar ainda mais a cotação da ação para baixo, pois todos esses fundos vão ter que tirar a ação do portfólio, e quando esse canal fechar, a liquidez ficará reduzida, assim como a volatilidade deve aumentar — destaca o sócio e chefe da mesa de operações da Ação Brasil Investimentos, Idean Alves.

O processo de venda das ações também indica a retirada do investidor institucional do papel, o que pode beneficiar ativos de outras empresas do setor.

— Você não vai ter mais o investidor institucional querendo montar posições nesse papel. Com isso, terá volume e liquidez menores. Isso já vem acontecendo e muitos estão terminando de desembarcar, o que pode atrair fluxo para outros papéis de varejo para quem precisa compor a carteira com esse setor — disse Simão.

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Com um valor tão baixo de cotação, a expectativa é que a empresa apresente forte volatilidade, tanto para cima quanto para abaixo a depender do andamento do processo de recuperação judicial.

— Qualquer centavo representa um percentual alto para ações com valores inferiores a R$1,00. Isso traz muita volatilidade no papel e torna um risco para o investidor por falta de liquidez — avalia o sócio da AVG Capital, Lucas Almeida.

Venda de ativos deve ocorrer

O objetivo da recuperação judicial é assegurar a continuidade da empresa e evitar que ela quebre. Ao recorrer à Justiça, a companhia consegue blindar seu caixa da cobrança dos credores por um período de 180 dias (que podem ser prorrogados pelo juiz da recuperação).

Nesta etapa, a empresa deve iniciar negociação com os credores para formular um plano de recuperação, que precisa ser aprovado em assembleia pelos credores.

Analistas de mercado já destacam que a companhia precisará se desfazer de ativos para levantar caixa, mesmo que o montante não seja suficiente para amenizar o rombo nas contas. Entre as possíveis vendas, eles citam o Hortifruti e Natural da Terra ou a fatia da empresa na joint-venture em rede de lojas de conveniência com a VEM, da Vibra (antiga BR Distribuidora).

Papéis do setor já tinham dificuldades

Vale lembrar que a situação para as ações de empresas do setor de varejo, especialmente aquelas com exposição ao e-commerce, já não estava fácil na Bolsa.

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Diante do cenário macroeconômico de juros e inflação elevados, com alta inadimplência, os ativos apresentaram desvalorização nos últimos anos. A queda ainda foi impulsionada pela forte concorrência com players estrangeiros.

Concorrentes devem ganhar espaço

Para o chefe de pesquisas da Ativa Investimentos, Pedro Serra, a saída de Americanas do mercado é positivas para as concorrentes, principalmente Magazine Luiza e Via. Desde o início da crise na Americanas, os papéis do Magazine Luiza têm se beneficiado na Bolsa.

— É um player muito grande que vai levar muito tempo para voltar. Isso significa uma fatia de mercado que vai ficar à disposição. Vai ter um aumento de tráfego de pessoas nos sites de Magalu e Mercado Livre.