Ronaldão fala de futebol, democracia e preconceito: “Hoje o combate ao racismo está mais presente”

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Ronaldão durante visita ao Museu da CBF, no Rio de Janeiro (Rafael Ribeiro/CBF)
Ronaldão durante visita ao Museu da CBF, no Rio de Janeiro (Rafael Ribeiro/CBF)

Ronaldão, 55, foi campeão mundial pela Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 1994 e bicampeão mundial de Clubes em 1992 e 1993 pelo São Paulo Futebol Clube comandado pelo lendário Telê Santana. Com um 1,90m e forte porte físico, era conhecido pela elegância que desarmava os ataques adversários e a técnica apurada que apresentava com a bola.

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Hoje continua uma figura relevante dado seus posicionamentos sociais e políticos sobre futebol e sociedade como forma geral. Um paladino na defesa dos gramados, mas também de valores como igualdade racial, democracia e harmonia, o campeão concedeu uma entrevista exclusiva ao Yahoo Brasil sobre o futebol em sua época e o atual, o trabalho de Telê, a passagem pelo Japão, o racismo no futebol e na sociedade brasileira, a pandemia de Covid-19 e o estado atual da democracia no Brasil.

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Yahoo Brasil: De início você queria ser conhecido como Ronaldo, mas ficou como “Ronaldão”. Como foi esta história?

Ronaldão: Esta história é bem simples. Eu cheguei à Copa de 1994, nos EUA, uma semana antes de começar a competição. Portanto, o Ronaldo Fenômeno, já estava inscrito como Ronaldo, e a seleção não poderia escrever outro Ronaldo, por isto fui inscrito como Ronaldão, e assim ficou até hoje.

Você foi campeão mundial com a Seleção em 1994 e bicampeão mundial de clubes com o São Paulo. Quais são suas memórias mais doces daqueles tempos?

Realmente foram anos intensos em minha vida, dois títulos mundiais pelo São Paulo e em seguida mais um com a Seleção Brasileira, realmente o auge da minha carreira.

Quais as principais diferenças que observa do futebol naquele período para hoje?

Hoje em dia o futebol é muito mais rápido e corrido, os atletas estão correndo 15 km por jogo em média, com isto o jogo perde em qualidade técnica e ganha em intensidade e força.

Você foi um dos principais jogadores de Telê Santana. Qual acredita ser o legado dele?

O Telê Santana sempre foi um treinador exigente, tirava o melhor de cada jogador, e quem não tinha o que entregar realmente não tinha espaço com ele. Quem tinha com certeza teve muito sucesso na carreira.

Um período significativo da sua vida foi a passagem pelo Japão. Quais aprendizados que ali teve que carregou para sua vivência?

Morar em um país com uma cultura totalmente diferente da nossa, isto foi um desafio para minha família. Mas foi uma experiência muito importante para amadurecimento pessoal, aprendendo hábitos novos de uma cultura milenar, e viver em um país de primeiro-mundo sempre é gratificante.

Você é conhecido por seus posicionamentos sociais e políticos. Foi algo que você aprendeu na infância? Como se deu sua formação neste lado?

Minha posição política se iniciou em São Bernardo do Campo, nos anos 80, antes de iniciar minha carreira de atleta profissional de futebol. Assisti a várias manifestações dos metalúrgicos próximas a prefeitura, pois saia da escola Senai, em frente a prefeitura e via tudo aquilo; era um garoto, mas logo percebi que algo estava acontecendo, que aquele movimento queria algo importante, e que de certa forma mudaria alguma coisa no país. Daí para a frente participei dos movimentos pelas Diretas (O movimento político Diretas Já! buscava as eleições diretas ao cargo de presidente da República brasileira ainda dentro do contexto de Ditadura Militar), e outros movimentos pela democracia.

Hoje se fala de racismo no futebol e há as campanhas da própria FIFA e de outras entidades. Você se deparou com racismo enquanto jogador?

Sim de uma certa forma sim, me deparei com o racismo. Isto já aparecia com insultos vindo das arquibancadas, e o pior o racismo estrutural, pois quem vem de uma família trabalhadora - meu pai metalúrgico e minha mãe costureira -, o racismo estrutural é escancarado. Hoje em dia com as mídias sociais, o combate ao racismo está mais presente, mas por outro lado muitos covardes se escondem atrás dela. A luta continua, a Fifa e outras entidades esportivas combatem esta prática, e isto é muito positivo.

O que pensa da postura dos jogadores de futebol em relação a este problema e outras mazelas sociais?

Os atletas estão mais posicionados a respeito, isto é muito bom, não podemos deixar o mal prevalecer na sociedade como um todo. Investimento em educação e qualificação, creio ser o melhor caminho para que podemos ter uma sociedade mais igualitária e com menos desigualdade social, temos um longo caminho pela adiante, porém temos que continuar em frente.

De maneira geral crê que o atleta brasileiro se esquiva de temas sociais e políticos?

Não diria que se esquiva, só acho que poderiam falar um pouco mais o que pensam, se posicionarem, entretanto não são todos que pensam assim, infelizmente.

Outra bandeira que tem levantado é a questão da democracia em território brasileiro. O que observa sobre o momento político que o país atravessa?

O que percebo é que quando um determinado lado chega ao poder e começa a não conviver bem com os princípios democráticos, e isto é preocupante. Mas acredito que isto será passageiro e logo estes radicais que querem afrontar a democracia logo voltaram ao lugar do qual nunca deveriam ter saído. Mas como vivemos em uma democracia há espaço para todos, desde que respeitem o debate público e democrático.

Como a pandemia tem afetado sua vida pessoal? O que pensa da postura dos líderes brasileiros quanto a este problema?

Durante a pandemia, o melhor é se cuidar, observar as medidas de segurança e distanciamento social e uso de máscaras. Esperar a vacina, e apoiar aqueles que a defendem.

Voltando ao futebol, o que você acredita ter deixado como legado?

Como jogador, eu vivi intensamente meus 20 anos como profissional, aproveitei muito bem, e fui muito feliz. Agora é viver bem, com saúde, e cuidar da família.

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