Ronaldinho e a prisão no Paraguai: entenda o caso e o rumo das investigações

Ronaldinho Gaúcho e seu irmão, Roberto Assis, seguem cumprindo prisão domiciliar em um hotel em Assunção, onde estão desde o dia 7 de abril, após mais um mês detidos no Paraguai. E, pela primeira vez desde o início do caso, o ex-craque falou com a imprensa local.

"Foi um duro golpe, nunca imaginei que passaria por uma situação como essa. Toda a minha vida procurei alcançar o mais alto nível profissional e trazer alegria às pessoas com o meu futebol", disse Ronaldinho à TV ABC Color.

O ex-camisa 10 do Barcelona, seleção brasileira e tantos clubes falou o que pretende fazer quando toda essa situação se encerrar: "A primeira coisa que farei é dar um beijo na minha mãe. Ela vive dias difíceis desde o início da pandemia de covid-19 na sua casa. Depois será absorver o impacto que essa situação gerou e seguir adiante com fé e força".

Porém, um dos invstigador do MP paraguaio não crê que Ronaldinho e Assis agiram totalmente de boa fé: "Foi uma situação muito relevante eles terem usado esse passaporte. Ambos já sabiam que os documentos estavam sendo confeccionados. Não houve surpresa", disse Marcelo Pecci também à ABC Color.

Em decisão do juiz Gustavo Amarilla, mediante o pagamento de 1,6 milhão de dólares de fiança, a dupla foi solta da Agrupación Especializada de Assunção, onde estavam detidos, e foram transferidos para o Hotel Palmaroga, escolhido pela acusação.

O luxuoso hotel cinco estrelas fica no centro histórico de Assunção, no Paraguai, e não conta com outros hóspedes no momento. Os dois irmãos ocupam duas suítes premium pelas quais pagam 350 dólares de diária cada. 

Impedido de receber visitas devido a pandemia no novo coronavírus, o campeão do mundo com o Brasil em 2002 passa suas horas de lazer sem um esquema rígido, com algumas idas ao ginásio e passeios pela área comum do prédio. 

O gerente do Palmaroga contou como é a rotina do brasileiro e revelou um pedido especial feito pelo ex-jogador: um salão onde ele pudesse jogar bola - já que o hotel não possui campo de futebol.

O gerente também confessou que no início, Ronaldinho estava visivelmente abalado, mas que agora está melhor, sem perder duas de suas principais características: o sorriso e o bom humor.

Hotel prisão Ronaldinho
Hotel onde Ronaldinho Gaúcho e seu irmão cumprem prisão dominciliar / Foto: Divulgação Palmaroga Hotel

Inicialmente, a dupla havia sido presa preventivamente. Segundo o juiz Mirko Valinotti, que indiciou os irmãos, eles foram detidos para evitar que saíssem do país. Mas, agora, a promotoria concordou que já não existe mais esta necessidade e aceitou o recurso da defesa.

No entanto, o promotor do caso ainda disse acreditar que outros crimes possam ter sido cometidos: "Ainda não podemos adiantar sobre os passos das investigações, mas há indícios que outros crimes foram cometidos", afirmou ao Esporte Espetacular, da TV Globo.

A defesa tentou transferir os irmãos para prisão domiciliar por três vezes, mas não teve sucesso, o que finalmente aconteceu na audiência do dia 7.

Previamente, Ronaldinho estava em meio a 25 policiais condenados por crimes diversos, políticos acusados de corrupção e membros do crime organizado. A presença do ex-jogador também foi celebrada pelos outros detentos, principalmente pelo campeonato interno de futebol que aconteceu no presídio. O brasileiro recebeu convite de diversas equipes para participar da competição que teve como grande prêmio um leitão de 16kg, segundo a AFP.

Ele foi flagrado jogando uma partida amistosa com os outros detentos. Segundo o relato do jornalista Iván Leguizamón, da ABC TV Paraguay, Ronaldinho marcou cinco gols na vitória do seu time por 11 a 2 e deu um drible humilhante em um deputado paraguaio condenado por corrupção. R10 também foi visto jogando uma partida de futevôlei em uma quadra de areia no presídio para se distrair.

De acordo com relatos de pessoas que foram visitar o jogador, ele não aparentava estar deprimido. Além disso, segundo a ESPN, Ronaldinho estava trabalhando na marcenaria, para ocupar a cabeça.

Entenda o caso

Em Assunção, no Paraguai, onde participariam de compromissos comerciais, Ronaldinho Gaúcho e seu irmão, Roberto de Assis Moreira, ficaram sob custódia policial por suspeita de estarem portando documentos falsos, inclusive passaportes. Os dois alegam terem sido enganados, segundo a defesa de Ronaldinho.

No domingo (08), em entrevista ao Esporte Espetacular, da TV Globo, o promotor do caso, Osmar Legal, confirmou que os irmãos Assis utilizaram os documentos.

"Temos informações que eles já receberam os documentos falsos ainda no Brasil e também sabemos que eles utilizaram esses documentos para entrar no Paraguai. Os passaportes têm registros e assinaturas deles, então para nós fica claro que foram utilizados", afirmou.

Já o advogado de defesa dos ex-jogadores, Sergio Queiroz, garantiu que Ronaldinho e Assis não sabiam que os documentos eram falsos: "Eles não sabiam que os documentos eram ilegais. Eles apresentaram os documentos de boa fé e na total ausência de má intenção. Ronaldo e Assis não sabiam que os documentos eram irregulares. O Ministério Público entendeu isso", disse em entrevista coletiva no domingo (08).

Na coletiva concedida na quinta-feira, após o depoimento de Ronaldinho, o promotor Federico Delfino afirmou que os números dos passaportes encontrados no quarto de hotel dos irmãos Assis existem, mas pertencem a outras pessoas. “São passaportes originais, mas com dados apócrifos. Esses passaportes foram tirados em janeiro deste ano", disse.

A versão da promotoria local, no entanto, diverge da contada por eles. De acordo com o jornal ABC Color, Ronaldinho e Assis alegaram em um primeiro momento que os documentos lhes foram entregues ainda no Brasil.

Segundo Delfino, os dois argumentaram que os documentos foram um presente e responsabilizaram o empresário Wilmondes Sousa Lira pela entrega, relatou o investigador Gilberto Fleitas ao ABC Color.

Adolfo Marin, advogado de Ronaldinho e Assis, prometeu esclarecer o caso e declarou à rádio ABC Cardinal que os dois se dizem vítimas no caso: “Ronaldinho e seu irmão disseram que eram praticamente vítimas. Eles podiam entrar tranquilamente com a identidade brasileira. Ele está chocado e surpreso com esta situação. Ele testemunhará perante o Ministério Público e dirá quem enviou o documento”.

Além de Ronaldinho e Assis, outras duas mulheres foram ligadas ao caso e detidas. As duas teriam, em janeiro, solicitado os passaportes que estavam em posse dos ex-jogadores quando eles foram abordados no hotel em que estavam hospedados em Assunção.

Alegações da defesa

De acordo com informações da UOL, a defesa de Ronaldinho e Assis alegou que o ministério público paraguaio teria cometido sete irregularidades no caso.

  • Por determinação de Valinotti, Ronaldinho e Assis tiveram negados o "critério de oportunidade", concedido pela justiça do país a pessoas sem antecedentes criminais, que os tiraria do processos em troca de colaboração com a investigação, mesmo preenchendo os requisitados necessários para receberem o benefício;
  • Ronaldinho e Assis já teriam admitido o crime por qual são acusados: portar documentos falsos. Assim, o que é previsto no código penal para casos assim é multa, e não prisão preventina. Para a defesa do craque, os acusados deveriam responder ao processo em liberdade;
  • Como a dupla não foi acusada por outros crimes, como lavagem de dinheiro, eles não podem ser mantidos no país para a investigação de tais delitos sem que fossem autuados;
  • Para a defesa, Amarilla não poderia pedir uma perícia técnica no celular dos investigados sem que eles fossem acusados por outros crimes. Além disso, a demora da polícia paraguaia em realizar a perícia estaria prejudicando o argumento do juiz em manter Ronaldinho e Assis presos;
  • A prisão preventina dos brasileiros não estaria condizente a um crime considerado "menor", para a defesa dos acusados;
  • Na acusação, Amarilla afirmou que o imóvel apresentado pela defesa dos acusados (no requerimento da prisão domiciliar) não poderia ser utilizado, por não estar livre de impedimentos. A alegação da defesa é que não existem obstáculos para o uso da casa;
  • Para terminar, a defesa do craque considera que manter os acusados em prisão preventina para que eles continuem colaborando com as investigações representaria uma espécie de coação da polícia paraguaia.