De fogueira improvisada a pedidos surreais, a rotina dos entregadores em SP

No frio de São Paulo, solução encontrada pelos entregadores enquanto esperam os chamados foi uma fogueira improvisada. (Foto: João Conrado Kneipp/Yahoo)

Na esquina das ruas Maria Rosa e José Gonçalves de Oliveira, no Itaim Bibi, um grupo de entregadores se aquece diante de uma fogueira improvisada na beira da calçada à espera de um chamado vindo dos aplicativos.

Apesar de cravada no coração financeiro de São Paulo, a cena do aglomerado de trabalhadores com bags, coletes e corta-ventos laranjas florescentes entre os que passam de roupa social, terno e gravata não chama mais atenção. Já faz parte do cenário e da rotina.

“Daqui, a maioria faz uma jornada acima de 10 horas por dia. Tem dia de 12 horas, 14 horas. A concorrência tem tirado grana de muita gente, hoje em dia tem entregador em todo lugar. Se antes a gente tirava R$ 200 num dia, agora roda pra tirar R$ 100”, afirma um dos entregadores.

Sob a condição de anonimato, eles revelaram ao Yahoo! Notícias as condições da rotina do setor de MEIs (Microempreendedores Individuais) que mais cresceu na cidade de São Paulo nos últimos anos.

Um levantamento realizado pela Secretaria de Desenvolvimento Econômico e Trabalho da Prefeitura de São Paulo, publicado no dia 3 de julho deste ano, mostra que os registros de microempreendedores individuais cadastrados no setor de entregas rápidas tiveram uma alta de 165% na comparação entre 2017 e 2018.

É a maior alta percentual entre todos os cadastros de MEIs, fazendo com que a a profissão de serviços de entregas rápidas fique em 3º lugar entre as mais exercidas por microempreendedores. Somente no último ano, na capital paulista, foram mais 12 mil novos entregadores dos apps UberEats, iFood, Rappi e Loggi levando produtos em motos, bicicletas e até patinetes elétricos.

Entre as razões para o assombroso aumento, está o surgimento de novas plataformas de entregas, mas também o momento econômico do País, que faz com que as pessoas que estejam sem emprego formal atuem nesse setor até voltar à sua atividade profissional, conforme explicou a própria secretária de Desenvolvimento Econômico e Trabalho, Aline Cardoso, na divulgação do levantamento.

MAIS ENTREGADORES, MAIS HORAS NA RUA

O crescimento no número de trabalhadores no setor, segundo eles, fez com que a profissão perdesse parte de sua rentabilidade. “Muita ‘boy’ na rua é menos entrega. Aí o jeito é fazer mais horas. Dependendo do dia, já cheguei a ficar até 2h da manhã na rua”, afirma Jean, de 30 anos, sendo 10 deles como entregador. “Já fui motoboy, depois UberEats, iFood e agora sou Rappi”.

A última empresa é o alvo da maior parte das reclamações dos entregadores ouvidos pelo Yahoo! Notícias, que vão desde o não cumprimento da taxa mínima paga por entrega até a descaso com os funcionários e seus equipamentos de trabalho.

Durante os 40 minutos em que a reportagem esteve no local, ao menos 4 corridas com valores abaixo da taxa mínima de R$ 5,90 pregada pela Rappi foram registradas.

“Eles falam que o valor mínimo é esse (R$ 5,90), mas todo dia tem corrida de R$ 3 e pouco, R$ 4 e pouco. Hoje eu já fiz uma entrega de R$ 3,82”, afirma o mais novo dos presentes, que disse ter 19 anos e faz os percursos de bicicleta. “Tô desde às 8h, fiz cinco entregas e consegui tirar R$ 32,29 até agora”, completou ele, pouco antes das 19h.

O mantra mais repetido entre os entregadores era de que o valor obtido por dia de trabalho depende da disposição de cada um. “Por 10, 12 horas na rua, eu tiro uma média de R$ 80”, conta Jean. O turno sob a motocicleta começa após outro período de 12 horas como porteiro de um condomínio. “Lá (no prédio) é dia sim, dia não, alternado. Aí consigo conciliar”, completa.

‘QUALQUER COISA’

Entre os quatro diferentes níveis de entrega no seu sistema de serviço delivery, que são liberados à medida em que o entregador realiza um determinado número de pedidos, a Rappi possui um que já virou até piada entre eles: o ‘Qualquer Coisa’.

Essa categoria é uma das mais elaboradas da empresa, pois o cliente transfere para o entregador o valor de seu pedido para que ele possa ir até o estabelecimento solicitado comprar o produto indicado, que, como o próprio aplicativo classifica, pode ser qualquer coisa.

“E é qualquer coisa mesmo que pedem, olha só”, afirma um deles, enquanto mostra um print da tela de um celular com um pedido para compra de 2 sacos de cimento de 50kg, 1 metro cúbico de areia grossa e 1 metro cúbico de pedra em uma loja de material de construção na Marginal Tietê. “Que jeito que alguém leva isso numa moto?”.

O valor que o entregador ganharia caso aceitasse o pedido? R$ 13,70.

Cliente solicitou, no pedido a um entregador de moto, dois sacos de cimento de 50kg, além de areia e pedra. (Foto: Reprodução)

Quando ocorre de o entregador aprovar a corrida e constatar que não consegue carregar o pedido no veículo, surge outro empecilho. “Temos que abrir um ticket no atendimento e esperar, aí é muita demora. Já fiquei 4 horas esperando um táxi que a Rappi chama nesses casos pra poder levar dois carrinhos de compras do mês até o cliente. É tempo perdido de outras entregas que podia ter pego”, afirma Jean.

A liberdade nos pedidos abre brecha para outra reclamação entre a categoria, a de flexibilidade de critérios na divisão entre as entregas realizadas por bicicletas e motos.

“Nessa semana, entreguei 60 latas de cerveja e um saco de gelo de 5kg”, afirmou um dos entregadores, contando o desafio de levar o pedido a bordo de uma bicicleta. “A gente vê um monte de pedidos para menos de 2km sair para pessoal de moto, enquanto a molecada da bike fica parada”, completa outro.

MORTE E DESCASO

Apesar dos relatos de episódios excêntricos e atípicos, a principal reclamação contra a empresa girou em torno do descaso e desvalorização que os entregadores alegam sofrer.

“Eles dão novas bags só para entregadores de outras marcas para fazer propaganda, para ter mais bags deles nas ruas. Se você tem uma bag velha da Rappi, eles vêm aqui com novas e dão pros outros, mas não te entregam. A mesma coisa com os corta-ventos”, revela Wesley, de 26 anos.

O assunto ganha força quando um deles cita a morte do entregador da Rappi Thiago de Jesus Dias, de 33 anos. Durante uma entrega no dia 6 de julho, o motoboy sentiu-se mal, teve um AVC (Acidente Vascular Cerebral) e agonizou em uma calçada no bairro de Perdizes por mais de 1h30 à espera de auxílio médico especializado.

Nem a Rappi, Polícia Militar, o Corpo de Bombeiros ou Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) prestaram atendimento à vítima, que morreu no hospital após ser levado por um amigo.

“Não tem lanche, não tem água, não tem banheiro, fica num frio desgraçado na rua esperando o celular apitar”, finaliza Wesley.

OUTRO LADO

Em nota enviada ao Yahoo! Notícias, a Rappi informou que os entregadores parceiros cadastrados “são profissionais autônomos que podem se conectar e desconectar da plataforma quando quiserem, sem horário fixo ou exclusividade, podendo encaixar a atividade em seu cotidiano da forma que preferirem”.

A respeito dos valores das taxas de frete, a empresa alegou que o valor é calculado com base em diversos fatores, como o clima, dia da semana, horário, zona da entrega, distância percorrida e complexidade do pedido, a fim de proporcionar equilíbrio entre oferta e demanda. Contudo, não respondeu se há uma taxa mínima de frete e se ela é respeitada.

Em casos de problemas com a plataforma ou uma entrega, a startup disse que o tempo médio de resposta é de 40 segundos no chat do suporte da empresa. Além disso, se os pedidos não são foram viáveis por meio da motocicleta ou bicicleta devido ao seu tamanho ou peso, a Rappi informou que aciona um carro para auxiliar na entrega.

Por fim, a empresa afirmou que dispõe, em todas as cidades que a empresa opera, um centro físico de atendimento aos entregadores para que possam resolver problemas pessoalmente. A empresa estuda expandir o número desses centros. “A Rappi reforça ainda que está sempre em busca de melhorias nos processos para aprimorar a experiência dos entregadores parceiros”, completa a nota.