Roubos no Estado do Rio crescem com a queda no isolamento social

·4 minuto de leitura

RIO — A maior flexibilização e o consequente aumento de pessoas nas ruas provocam um efeito colateral que já aparece nas estatísticas de violência do estado. Dados do Instituto de Segurança Pública (ISP) revelam que, comparando os meses de maio, quando menos gente circulava devido às medidas restritivas para conter o coronavírus, e julho, momento em que parte das regras já havia sido afrouxada, houve uma tendência de aumento de registro de assaltos em ônibus e de roubos de veículos, a pedestres, de celular e a estabelecimentos comerciais. Há casos em que os chamados “crimes de oportunidade” deram um salto: entre esses dois meses, os roubos em ônibus deram um pulo de 101%.

Em maio, com o isolamento social no auge, foram 420 assaltos em ônibus. E, em julho, com a volta do comércio e abertura dos shoppings, o número pulou para 846 casos registrados nas delegacias do estado. Longe de voltar ao patamar anterior à pandemia, o avanço desse tipo de crime preocupa. No início do ano, em janeiro, o total de casos era assustador: 1.181. Em fevereiro, foram 1.298.

Os especialistas, agora, acompanham as curvas dos números da segurança para descobrir até que ponto a volta ao normal também afetará o dia a dia da população. No mês de agosto, os assaltos dentro de coletivos continuaram altos, porém, com redução em relação a julho. Foram 671 casos — uma queda de 21% em relação ao mês anterior.

Mas o recrudescimento das estatísticas já deixou um rastro de tristeza. Um dos casos foi o do enfermeiro Luiz Otávio Rodrigues da Silva, de 27 anos, que foi morto, no último dia 15, quando voltava do trabalho para a casa, na Baixada Fluminense, após dar plantão num hospital particular em Niterói. A morte dele só terá impacto nas estatísticas divulgadas em outubro, mas as marcas deixadas na família e em amigos já doem profundamente. De acordo com testemunhas, Luiz, que usava fones de ouvido na hora do crime, não ouviu dois homens anunciando o assalto e, confuso, não obedeceu às ordens, o que lhe valeu um tiro na cabeça. Morreu no Hospital Getúlio Vargas, na Penha.

— Ele não esperava que em algum momento entrariam duas pessoas armadas no ônibus para tirar dele o celular e a vida. A gente ia se casar em novembro — lamenta Renan Moreira, de 24 anos, namorado da vítima.

Assaltado duas vezes

Um funcionário público de 23 anos da Prefeitura de São João de Meriti, que prefere não se identificar, foi vítima de dois assaltos em menos de um mês. Nas duas vezes, ele perdeu os celulares e fones de ouvidos. Os crimes ocorreram em bairros diferentes. No primeiro, na tarde de 16 de julho, ele estava num ônibus na altura de Agostinho Porto. Dois bandidos renderam a vítima e exigiram os aparelhos. Há duas semanas, ele estava caminhando, quando foi assaltado. Dois homens o abordaram de carro, às 5h30.

— Nunca imaginei ser assaltado duas vezes em tão curto espaço de tempo. Tive um prejuízo de mais de mil reais — conta ele.

Outro crime que aumentou com a queda do isolamento foi o roubo de veículo. Em maio, foram 1.586 casos no estado. Em julho, o número cresceu para 1.819, uma alta de 14,6%. A curva se mantém e, em agosto, aconteceram 1.793 casos. E nada parece ter mudado este mês. No último dia 12, teve repercussão o ataque a uma família que passava de carro na BR-101, na altura de São Gonçalo, quando foi atacada por criminosos. Além de objetos pessoais e do próprio carro, o bando levou o cãozinho da família, Fubá, da raça shitzu, xodó dos filhos do casal. O cachorro acabou encontrado dias depois perto do Piscinão de São Gonçalo.

Outros delitos que tiveram aumento na comparação entre maio e julho foram roubo de celular, assalto a pedestre e roubo a lojas. Nenhum desses voltou ao patamar pré-pandemia, mas já estão dando dor de cabeça. Para se ter uma ideia, em maio, foram 169 roubos a estabelecimentos comerciais. Em julho, eles saltaram para 228, ou 34,9% a mais.

O número de pedestres vítimas também subiu. Foram 2.451 em maio, contra 3.852 em julho, ou 57% a mais. Em agosto, apesar de uma discreta redução, foram 3.486 ocorrências. Para Ignácio Cano, sociólogo, professor da Uerj e membro do Laboratório de Análise da Violência, essa variação nos números era esperada.

— O aumento após o fim do confinamento é esperado, na medida que a reclusão das pessoas e a limitação da mobilidade vão aos poucos desaparecendo — observa.

Sociólogo e professor da UFF, Daniel os Hirata, do Núcleo de Estudos dos Novos Ilegalismos, também acredita na hipótese:

— É fato que o maior número de pessoas nas ruas favorece a ocorrência de roubos, os crimes de oportunidade.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos