“Round 6”: apenas críticas sociais são legitimadas pelo ocidente?

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Série concorre ao título de maior sucesso da Netflix (Divulgação)
Série concorre ao título de maior sucesso da Netflix. Foto: Divulgação/Netflix

Resumo da notícia:

  • "Round 6"é uma das séries mais assistidas da Netflix

  • Produções orientais sobre horror ou estilo "battle royale" são mais aprovadas pelo ocidente

  • especialistas explicam sucesso da série

Por Isabela Pacilio

O drama sul-coreano “Round 6”, também chamado de “Squid Game”, da Netflix, é o assunto do momento nas redes sociais. A trama traz a história de pessoas com dívidas astronômicas e que, no desespero para se livrar do problema, aceitam participar de um jogo mortal que tem como prêmio mais de 46 bilhões de wons, cerca de 208 milhões de reais na cotação aproximada.

O sucesso foi praticamente instantâneo: em menos de um mês após seu lançamento, o drama está perto de se tornar a série mais popular da Netflix e bater a de romance “Bridgerton”, que chegou na plataforma em março de 2021. Mas o que tornou “Squid Game” tão interessante?

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Elenco, produção e história bem amarrados, além de sua dominação nas redes sociais, nos fez correr atrás da série que todos estão comentando. A trama traz questões e críticas sociais dentro de um sistema capitalista falido. Mas a discussão é bem mais complexa do que parece. Para Daniela Mazur, doutoranda e pesquisadora do laboratório MidiÁsia, da Universidade Federal Fluminense, no Rio de Janeiro, a história chegou em um momento oportuno de crise, tanto das instituições quanto da saúde mundial.

“A narrativa ficcional traz características dos gêneros distópicos, em que você tenta entender o que poderia ser o futuro. Mas não dentro de uma perspectiva imaginativa, como os ‘Jetsons’, mas de bases que fazem muito sentido hoje. Esse lugar de futuro possível chama muito atenção porque as pessoas querem entender o que pode acontecer”, explica.

Para a especialista, é possível interpretar o sucesso do drama de duas maneiras: de forma mais irreal, mas positivista, pela abertura de novos mercados e público, e outra mais real, mas negativista, justificada pela visão orientalista.

Uma das seis provas de sobrevivência na série "Round 6" é destacar um biscoito de açúcar sem quebrá-lo. Foto: Divulgação/Netflix
Uma das seis provas de sobrevivência na série "Round 6" é destacar um biscoito de açúcar sem quebrá-lo. Foto: Divulgação/Netflix

“São sucessos muito consideráveis, mas apenas alguns se vermos pela perspectiva ocidental de consumo audiovisual. A visão mais próxima da realidade é que podem ser sucessos que vão ser grandes referenciais, de ‘olha como a Coreia do Sul conseguiu se estabilizar' e que pode ser utilizada como um totem de ‘olhem só como Hollywood não é mais racista’”, diz.

Daniela ressalta a importância do sucesso de ‘Squid Game’ por meio da Netflix, que tem o poder de criar fluxos de consumo transnacionais e é a maior plataforma de streaming do mundo. “Não só pela abertura de mercados, mas pela naturalização, no mundo ocidental, do rosto amarelo como protagonista. Isso também significa que a indústria midiática coreana está se fortalecendo apesar de todo o fluxo maçante da globalização, que é a força dos Estados Unidos. Eles têm uma indústria cultural fortalecida, concretizada e conseguem ir no contrafluxo, construindo seus espaços.”

Subgêneros

“Round 6” ainda teve a vantagem da promoção intensa da Netflix e, no Brasil, contou até com a divulgação de um número de WhatsApp em que era possível receber figurinhas exclusivas do drama. “Itaweon Class”, “Pousando no Amor” e “Tudo Bem Não Ser Normal”, outros dramas coreanos que fizeram sucesso na plataforma - o último deles indicado ao Emmy Internacional 2021 inclusive - , já não tiveram a mesma estratégia, apesar de bem sucedidas lá fora e também no Brasil, por exemplo. Para Daniela, as produções distópicas, no estilo ‘battle royale’, são vistas com mais legitimidade no ocidente do que os romances.

“A teoria é que os dramas de romance são menos aceitos e têm mais dificuldade de fazer sucesso aqui no ocidente, porque os homens amarelos não são enxergados facilmente como galãs. Vivemos em uma sociedade brasileira embebida em questões eurocêntricas. Então, em consequência [de uma visão] extremamente orientalista, ela não aceita o homem amarelo como potencial galã”, explica.

Imagem da série
Produções de horror como "Round 6" são mais aceitas no ocidente. Foto: Divulgação/Netflix

A doutoranda dá como exemplo a facilidade de que produções de horror são mais aceitas no ocidente pela visão homogênea que a sociedade possui do leste asiático. “‘Squid Game’, dentro dos entendimentos de vivência regional e ocidental no Brasil, a gente meio que pega tudo do leste asiático e fala que é a mesma coisa, que é tudo igual. Se o Japão faz e a Coreia faz, é a mesma qualidade. ‘Alice In The Borderland’ fez bastante sucesso, ‘Sweet Home’ também. Todos eles têm essa perspectiva battle royale, esse lance da matança gráfica, da sobrevivência, do horror.”

“Há também a perspectiva de que todas as narrativas sul-coreanas falam sobre as questões sociais, duras, e essa carcada que o ocidente compra. O que também explica ‘Parasita’. Pensam: ‘Olha só esses países como eles sofrem, eles querem ser nós, nunca vão conseguir, então eles sofrem. Coitados!’”, acrescenta.

Onda Coreana

O sucesso do audiovisual sul-coreano – e de outras áreas como o K-Pop, turismo, esporte e culinária – é fruto, também, de um plano de governo que usa a cultura como ferramenta política ao redor do mundo. A Hallyu, também conhecida como Onda Coreana, começou a tomar forma nos anos 1990 e a estratégia, que movimenta bilhões de wons, vai ganhar ainda mais força em 2022.

De acordo com o jornal “The Korea Herald”, o Ministério da Cultura da Coreia do Sul anunciou, no início de setembro, um orçamento de 7,15 trilhões de wons para os planos de divulgação e produção da onda coreana, com o objetivo de continuar sua expansão global.

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Já muito bem-sucedida em termos financeiros – como o BTS que movimentou mais de 1,7 trilhão de wons para a Coreia do Sul nos últimos anos –, tal estratégia tende a conquistar ainda mais espectadores e ouvintes fiéis para o audiovisual coreano. Afinal, como bem disse Bon Joon-ho, diretor de "Parasita", no Globo de Ouro em 2020, quando a "barreira das legendas" for superada, o público poderá conferir um novo mundo de filmes e séries – e, dado que bastou uma movimentação nas redes sociais e uma divulgação mais intensa para que um K-drama caísse nas graças do grande público, fica claro que esta barreira não passa de um mais disfarce para a visão orientalista.

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