Ruínas e possíveis crimes em cidade reconquistada pela Ucrânia

Torres e cabos elétricos caídos no chão, casas destruídas e crateras na estrada. Dois dias após a reconquista ucraniana da cidade de Grakove, os estragos dos combates ainda são claramente visíveis.

"Foi aterrorizante, havia bombardeios e explosões por toda parte", explica Anatoly Vasiliev, um morador de 61 anos, sobre os combates que terminaram na quarta-feira com a expulsão de soldados russos desta pequena cidade no nordeste.

Em frente à igreja cuja torre do sino foi perfurada por um projétil, o homem, com sua bicicleta ao lado, fala sobre a ocupação russa aos jornalistas que chegaram de Kharkiv sob escolta policial.

Soldados russos "passaram pelo vilarejo, alguns acenavam", lembra ele. "Eles levaram os telefones celulares, mas consegui esconder o meu para poder me comunicar com minha família."

Questionado sobre os maus tratos de que são acusadas as forças de ocupação, Anatoly responde que não viu nada.

Entre os escombros e as poucas casas que ainda estão de pé, cães e gatos procuram restos de comida. Cerca de trinta habitantes permanecem em Grakove, que tinha 800 antes da guerra.

Veículos destruídos por explosões ou esmagados por tanques estão no acostamento da estrada que leva à cidade de Kharkiv.

As minas desativadas aguardam para serem limpas na lateral do asfalto e um guincho reboca um veículo militar apreendido dos russos.

Na direção oposta, circulam veículos blindados que transportam grupos de soldados para a linha de frente. Os tiros ainda podem ser ouvidos à distância.

- Suspeitas de torturas e execuções -

A polícia e o Ministério Público da região de Kharkiv realizam a exumação de dois corpos no vilarejo. As autoridades suspeitam que tenham sido vítimas de um crime de guerra.

São dois homens na casa dos 30 anos que teriam sido torturados e executados antes de serem enterrados.

Serguii Lutsai, morador de Grakove, explica à imprensa que enterrou os corpos sob ameaça de soldados russos armados em março, logo após o início da invasão iniciada em 24 de fevereiro.

"Vieram à minha casa, eu estava com meu pai de 70 anos. Tive medo que o ameaçassem", explica Lutsai.

"Disseram-me para ir com eles cavar um buraco", conta ele aos vinte jornalistas levados de ônibus pela polícia.

A investigação deve apurar as causas e circunstâncias da morte dos dois homens através de autópsias e a testemunha principal, Serguii Lutsai, explica à AFP um membro da equipe do gabinete, que quer manter o anonimato.

De acordo com Serguii Bolvinov, agente de polícia da região, Lutsai viu que as vítimas "tinham feridas na nuca" e que "suas orelhas foram cortadas". Lutsai não confirmou a informação à imprensa.

Outras partes do município ainda não foram revistadas e podem conter indícios de outros crimes, diz Bolvinov.

"Esta não é a única prova das atrocidades cometidas pelos russos, existem outros dois lugares como este na cidade. Vamos investigá-los", diz.

emp/pop/dbh/es/jc