Ruas da Maré: do republicano que virou mulher por um erro de placas à igreja católica aberta em via com nome de pastor

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RIO — Ter vivido 56 dos seus 68 anos na Maré fez do pernambucano Édson da Silva Jurandir um privilegiado. Embora não saiba quem é o homenageado, ele é do tempo em que as placas indicavam corretamente o nome de Flávio Farnese, dado a uma rua que passa pela Baixa do Sapateiro e pelo Parque da Maré, duas das 16 comunidades do maior complexo de favelas do Rio, cortado pela Avenida Brasil e decretado bairro em 1994. Dedicada a um jornalista, escritor e poeta republicano, a via, em algum momento, talvez por erro de impressão ou grafia, mudou de gênero. E virou Flávia.

— Antigamente, estava escrito Flávio nas placas; lembro bem — gaba-se Jurandir.

Em geral conhecida por episódios de violência, a região também dá muito o que falar quando o assunto são seus espaços. A primeira igreja católica do complexo, por exemplo, se instalou numa rua que tem nome de pastor evangélico. O que dizer de um lugar batizado de Luiz Gonzaga que só é chamado de Praça do 18 (porco no jogo do bicho)? E ainda de quem vive há décadas na Nova Jerusalém, sem imaginar que se trata da cidade que Deus fará para os fiéis, de acordo com o livro de Apocalipse?

Nascido e criado no lugar, o pesquisador do Museu da Maré Antônio Carlos Pinto Vieira mergulhou nesse universo. Até o fim do ano, lança o primeiro de dois volumes do livro “História das Ruas da Maré”. No levantamento, ele identificou 790 vias, 480 ainda sem nome.

— Os moradores da Maré, que circulam por essas ruas para a rotina do dia a dia, indo para a escola e o trabalho, fazendo compras e exercendo atividades comerciais e de lazer, não têm uma explicação para seus nomes — diz Antônio Carlos. — Essa pesquisa permite compreender a ocupação da região, além de trazer informações sobre personagens e processos que deram origem ao bairro.

Desde maio na Matriz Nossa Senhora dos Navegantes, na subida do Timbau, o padre Adenílson Gomes Moreira desconhecia quem foi Luiz Ferreira, que dá nome à rua onde está o primeiro templo católico do complexo, inaugurado em 1º de janeiro de 1945. O pastor Luiz Ferreira, conta Antônio Carlos, fundou a Igreja Evangélica Brasileira, atualmente com sede na Cidade Nova.

— Agora sabendo do pastor, acho coincidência ainda que, ao lado da Nossa Senhora dos Navegantes, fique um conjunto habitacional, onde Marielle Franco (vereadora assassinada em março de 2018) morou com os pais, que tem nome de um católico, o padre Manoel da Nóbrega — observa o padre Adenílson, natural de Itaperuna.

Nomes indígenas, de republicanos e pastores

Banhada pela Baía de Guanabara, a Maré faz parte de um litoral conhecido como Inhaúma, formado por praias, mangues e ilhas, que, ao longo do tempo, foram sendo aterradas. Antônio Carlos explica que a presença indígena no local é marcada por nomes que se perpetuaram:

— Inhaúma faz referência a uma ave cujo nome científico é Palmitia Cornuta, que viva na região. Já a Ponta do Timbau foi denominada assim por se estender sobre a área de mar como um braço, e no Tupi significa “entre águas”. Em frente ao Timbau, a antiga Ilha do Pinheiro (que, aterrada, virou a comunidade Vila do Pinheiro), mesmo não parecendo, se reporta a uma característica identificada pelos índios, que a chamavam de pi-iêre, por transbordar o seu entorno na maré alta.

As primeiras ruas da região surgiram em 1890, a partir do loteamento das antigas fazendas de Bonsucesso e Engenho da Pedra, que pertenciam às irmãs Mascarenhas. Até os anos 1940 — quando é aberta a Avenida Brasil e iniciada a invasão do Timbau, primeira favela do complexo — foram ganhando nomes dos Mascarenhas, do loteador João Teixeira Ribeiro e de seus descendentes. Como os Mascarenhas e os Teixeira Ribeiro eram republicanos e evangélicos, também foram feitas homenagens a protestantes e à República. Aliás, com o passar do tempo, a Teixeira Ribeiro se tornou a principal área comercial da Nova Holanda e local de muito burburinho, com feira, lojas, bancas de camelôs nas calçadas, consultórios, escritórios e até o que chamam de “shoppinho”.

A Nova Jerusalém, na Baixa do Sapateiro, é dessa época mais antiga. O pintor Silas Ribeiro da Silva, de 85 anos, foi morar ali há 60, ao se casar. Seu imóvel é quase na esquina da Rua do Serviço, aberta posteriormente.

— Quando construí minha casa, a rua era um amontoado de terra com um valão no meio. No meu terreno, tinha esse tamarindeiro, que deve ter mais de cem anos — aponta ele. — Só saio daqui depois de morrer.

Católico não praticante, seu Silas, porém, tem menos convicção ao falar de Nova Jerusalém:

— É uma cidade fora daqui, tem a ver com Cristo.

Por imposição, Rua Quinze de Novembro vira 'da Proclamação'

Tão antiga, é a Rua da Proclamação, que cruza a Avenida Brasil e segue até Bonsucesso, onde fica a sede e o teatro da Orquestra Maré do Amanhã. Segundo conta Antônio Carlos, ela já foi mais explícita na homenagem à República e se chamou Quinze de Novembro. A ordem para mudar foi dada à época pelo governo, tantas eram as ruas com a data no nome.

— Sabia que a Proclamação tinha a ver com a República, mas que a rua teve outro nome é novidade. É legal saber — afirma Carlos Eduardo Prazeres, fundador da Orquestra Maré do Amanhã, que funciona no local desde 2018.

Também na Baixa fica a Praça do 18, oficialmente Luiz Gonzaga. Nada ali lembra o “rei do baião”, além dos bailes com forró que acontecem para atender à população majoritariamente nordestina do complexo. É Marilene Nunes da Silva, contadora de histórias do Museu da Maré, que recorda um pouco do lugar:

— Na época das palafitas, existiam muitos chiqueiros na área onde é hoje a praça. Chegaram a dizer que nasceu ali um porco com cara de gente. Veio o Projeto Rio (do governo federal, responsável pela maioria dos aterros e pela retirada de grande das palafitas, em 1982), mas a memória do chiqueiro permanece. Porco no jogo do bicho é 18.

Mas a homenagem a Orosina Vieira, considerada a precursora da ocupação do Timbau, ainda é devida. Um decreto da prefeitura, de 2016, mudou o nome de várias vias na Maré. Dona Orosina virou rua. Só que no Parque União, e não no Timbau. E a medida se limitou a um ato formal, que não foi implementado com a colocação de placas e a criação de CEP.

— Ela era mineira de Ubá. Veio jovem para o Rio. Ocupou uma área na Maré, construiu uma casa e quartos para alugar. Passou a ser chamada xerife do lugar. Se um casal brigasse, pegava sua garrucha e ia tirar satisfação com o homem. Morreu há duas décadas, com por volta de 105 anos — recorda a sobrinha neta Vera Marta Alves, que vive na Maré.

O primeiro volume do livro “História das Ruas da Maré” vai até a década de 1940. No segundo, ainda sem data para ser lançado, a narrativa chegará aos dias de hoje.

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