Russomanno defende elo com Bolsonaro e busca negar racismo citando 'mãe de leite negra'

CAROLINA LINHARES E THIAGO AMÂNCIO
·8 minuto de leitura

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O candidato à Prefeitura de São Paulo Celso Russomanno (Republicanos) afirmou em sabatina Folha de S.Paulo/UOL, nesta sexta-feira (6), ter a certeza de que irá ao segundo turno da eleição com o apoio do presidente Jair Bolsonaro. Pesquisa Datafolha divulgada nesta quinta-feira (5), mostra um empate técnico entre ele, Guilherme Boulos (PSOL) e Márcio França (PSB) no segundo lugar. A pesquisa mostra Russomanno em trajetória de queda e com 16% das intenções de voto. O prefeito Bruno Covas (PSDB) é lider com 28%. Russomanno afirmou que, segundo suas pesquisas internas, ele tem cerca de 20% dos votos, contra aproximadamente 15% de Boulos e França. O candidato rechaçou a tese de que seu derretimento se deve ao apoio de Bolsonaro —que segundo o Datafolha é rejeitado por 46% dos paulistanos. "Estou fechado com presidente Bolsonaro, ele é importantíssimo para São Paulo", disse Russomanno, que atribuiu sua queda à falta de tempo de TV e ao fato de que gastou menos recursos do fundo eleitoral do que seus adversários. "Nós vamos para o segundo turno e vamos, sim, com apoio do presidente Bolsonaro, porque ele é importante para São Paulo. A gente precisa de recursos, e esses recursos só o governo federal tem", disse. Russomanno comentou ainda o fato de ter chamado de vandalismo, no Twitter, uma ação da prefeitura em homenagem ao Dia da Consciência Negra —foram colocados em semáforos da cidade imagens de punhos cerrados, símbolo da luta contra o racismo. O candidato disse que criticou a ação porque teria usado um símbolo ligado à esquerda e que não tinha entendido que era uma homenagem à Consciência Negra. Ele afirmou que não é racista porque foi criado por uma mãe de leite negra, teve uma namorada negra e tem grandes amigos negros. "Depois que eu tomei conhecimento do que a prefeitura queria fazer. A prefeitura devia ter feito uma campanha, porque se a gente remeter a essa história, nós vamos mostrar que em 1917 Lênin usava o punho fechado como defesa do socialismo. Depois nós tivemos [José] Genoino, José Dirceu, fazendo o mesmo gesto. Esse gesto é tido ao longo de mais de cem anos como um gesto de esquerda. A gente tem que apagar a história primeiro para depois a gente falar sobre isso", afirmou. "Eu não vou polarizar essa questão. Eu fui criado por uma mãe de leite negra. Eu sou uma pessoa que não vejo diferença entre os negros e os brancos. Os meus melhores, tenho grandes amigos que são negros. E tive namorada, inclusive. Eu não tenho problema nenhum com isso", completou. "Agora, a prefeitura é que não pode fazer uma campanha e não dizer para população o que é que ela está fazendo e colocar o punho cerrado nos semáforos, o que contraria inclusive a legislação de trânsito, eles vão responder inclusive por crime de improbidade”, disse o candidato. Russomanno também foi questionado sobre ter dito que a vacina contra o coronavírus deve ser testada em pessoas que contraíram a doença. Segundo o candidato, ao usar o termo testada em "pessoas doentes", ele não quis dizer em pessoas que tenham Covid-19, mas em pessoas que tenham problemas de outra natureza. "Sou favorável à vacina desde que a Anvisa autorize a vacina", completou. "Sou contra a obrigatoriedade, agora, eu prefeito vou fazer uma campanha em massa para que as pessoas tomem a vacina." Durante a sabatina, Russomanno foi questionado sobre informações falsas que tem espalhado em sua campanha, como a afirmação de que o Renda Brasil, programa que não saiu do papel, foi criado pelo governo federal. O candidato afirmou que houve uma "confusão simples de nomenclatura" e deu a entender que chamava o auxílio emergencial de Renda Brasil. Na sabatina, Russomanno voltou a dar informação errada sobre o combate à pandemia e, em seguida, negou o que disse. "O dinheiro todo que veio para a saúde, veio do governo federal", afirmou primeiramente, e foi confrontado com o fato de que prefeitura e governo estadual também tiveram gastos próprios. "Eu não disse aqui que o dinheiro veio só do governo federal. Não falei isso. Eu falei que veio dinheiro do governo federal e muito dinheiro", disse. "A gente não tem intenção nenhuma de dar qualquer informação falsa, não." O candidato evitou se comprometer ao detalhar propostas genéricas de seu plano de governo. Ele não respondeu quantos quilômetros de corredores de ônibus fará e qual será o valor do auxílio paulistano, sua principal promessa, se for eleito. Como mostrou a Folha de S.Paulo, a renegociação da dívida para financiar o auxílio paulistano é desacreditada pela área econômica do governo federal, e Russomanno tem embasado a proposta em renegociação anterior que não ocorreu da forma como ele descreve. Na sabatina, porém, o candidato insistiu no caminho da renegociação. "Eu prefiro perder uma eleição do que ganhar uma eleição mentindo", disse sobre estimar um valor para o auxílio. Russomanno afirmou ainda que não pode prometer o que não pode cumprir e, nesse ponto, aproveitou para criticar seus adversários, Covas e o governador João Doria (PSDB), por terem descumprido promessas como o fim da cracolândia. O candidato ainda criticou Doria por "ter virado as costas para o presidente sem razão nenhuma". Ele minimizou, porém, o fato de seu partido, o Republicanos, integrar a base do governo tucano no nível estadual. Russomanno chegou a criticar a aprovação de um projeto de Doria que dá margem para aumento do ICMS em São Paulo, mas não mencionou que cinco de seis deputados do Republicanos votaram a favor na Assembleia Legislativa. Ao comentar uma crítica de Bolsonaro ao uso do fundo eleitoral —recurso público que Russomanno prometeu não usar, mas acabou utilizando na campanha— o candidato afirmou que tem "usado o mínimo possível" e defendeu que essa verba seja gasta em saúde e educação. "É só fazer a comparação com o Bruno, eu uso 10% do que ele está usando." Até agora, Russomanno usou R$ 1,2 milhão de verba do fundo eleitoral, enquanto Covas empregou R$ 11,3 milhões. Sem dizer de quem falava, Russomanno afirmou que “recebeu propostas de apoio financeiro”, mas não aceitou. “Eu recebi propostas de apoio financeiro durante a campanha e eu não aceitei. Se for para ganhar a eleição fazendo coisa errada ou tendo apoio de quem não tá correto e que anda no governo há muito tempo, fazendo parte desses governos aí, eu não vou fazer, de jeito nenhum”, disse. Antes de anunciar sua candidatura, Russomanno chegou a ser cotado como vice de Covas e os dois chegaram a se reunir no fim do ano passado. O candidato negou ter feito referência ao câncer de Bruno Covas ao dizer que o vice do tucano, Ricardo Nunes (MDB), pode virar prefeito de São Paulo, episódio que causou polêmica na última semana. Ele afirmou que falava de uma prática comum do PSDB, em suas palavras, de deixar a prefeitura para disputar o governo do estado. “Eu não disse isso. Eu disse que o Ricardo poderia assumir. E por que ele poderia assumir? Porque é uma prática do PSDB”, disse, ao citar promessas descumpridas de José Serra e Doria de que não deixariam o posto. “Eu disse que o sonho do Bruno era ser governador, como o avô dele foi. Eu nunca disse nada a respeito da saúde. [..] Eu torço pela saúde dele." No fim de outubro, no entanto, questionado pela imprensa sobre por que ele acreditava que Covas não terminaria o mandato, Russomanno não citou pretensões do prefeito a virar governador. "Não vou fazer considerações, isso quem tem que fazer é o médico dele. Tem que falar com o médico dele", respondeu. Segundo Russomanno, foi a pergunta que induziu essa resposta. "Quando me perguntaram por que eu falei do Ricardo, me perguntaram induzindo uma pergunta. Eu tenho isso gravado. Eu vou tornar público", disse na sabatina. A reportagem teve acesso ao áudio dessa entrevista. A pergunta não menciona a saúde do prefeito, apenas a resposta foi nesse sentido. "O sr. citou o Ricardo Nunes, o vice do Covas, e falou eventualmente que ele pode assumir, no caso de vitória do prefeito, se ele for reeleito. O sr. acha que se o prefeito for reeleito, ele não vai terminar o mandato?", foi a pergunta. Na sabatina desta sexta, Russomanno chamou a associação de “maldade”, disse que não faria isso porque sua esposa também é tratada pelo médico de Covas e lembrou que já perdeu uma mulher antes. “Querem usar isso politicamente para fazer um estardalhaço, eu acho muito triste. O médico do Bruno é o médico da minha esposa, e eu estou vendo isso em casa. Eu já perdi a primeira esposa, eu já sofri demais na minha vida. Eu jamais brincaria com uma situação como essa.” Russomanno também usou propostas de candidatos à esquerda e disse que é preciso recuperar imóveis vazios no centro da cidade para usá-los como moradia para sem-teto. “Se a gente pegar esses 700 prédios que a gente tem aí, que estão fechados, que já foram notificados pela prefeitura, e fizer retrofit nesses prédios, dando moradia para as pessoas, vamos começar a fazer o que todo mundo diz, vamos revitalizar o centro, e ninguém nunca fez.” O Plano Diretor Estratégico de São Paulo tem um mecanismo para notificar e eventualmente desapropriar imóveis vazios, mas a ferramenta foi praticamente abandonada na gestão Covas. Russomanno também prometeu retomar o programa da prefeitura que paga passagem de ônibus a moradores de rua que vêm de outros estados e que querem voltar para suas casas, e afirmou que é preciso agir com verdade e não "ficar mentindo, dizendo que vai acabar com a cracolândia e com os moradores em situação de rua da noite para o dia". Especializado em defesa do consumidor —fez carreira na TV com um quadro sobre o assunto—, Russomanno é jornalista e bacharel em direito pela Faculdade de Direito de Guarulhos (SP).