Russomanno em queda beneficia mais Covas e França, aponta Datafolha

CAROLINA LINHARES E JOELMIR TAVARES
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Deputado Federal Celso Russomano (Republicanos) - Foto: Divulgação
Deputado Federal Celso Russomano (Republicanos) - Foto: Divulgação

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Com o segundo turno embolado em São Paulo e Celso Russomanno (Republicanos) em tendência de queda, a pesquisa Datafolha divulgada na quinta-feira (5) mostra que os candidatos que mais se beneficiam como segunda opção de voto são Bruno Covas (PSDB) e Márcio França (PSB).

Em busca da reeleição, Covas tem 28% das intenções de voto. Sua campanha, porém, não arrisca palpite sobre quem o tucano enfrentará no segundo turno.

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Estão tecnicamente empatados Russomanno (16%), Guilherme Boulos (PSOL, com 14%) e França (13%). A margem de erro da pesquisa é de três pontos percentuais para mais ou para menos. O nível de confiança utilizado é de 95%.

Encomendado pela Folha de S.Paulo e pela TV Globo, o levantamento entrevistou 1.260 eleitores entre os dias 3 e 4 de novembro e está registrado no TRE-SP com o número SP-06709/2020.

Segundo o Datafolha, 42% dos eleitores de São Paulo ainda podem mudar seu voto em uma semana --o primeiro turno da eleição é no dia 15.

Os candidatos vistos como segunda opção são Covas, para 20% dos eleitores, França (18%), Russomanno (13%), Boulos (6%) e Joice Hasselmann (PSL, com 6%).

Entre os que brigam pelo segundo turno, os que têm mais chances de perder seus eleitores são França e Russomanno. Entre quem declara voto no candidato do PSB, 54% podem mudar de ideia; entre simpatizantes do deputado, 49% podem migrar.

Boulos e Covas têm eleitores mais consolidados --28% podem abandonar o candidato do PSOL, enquanto 37% não estão firmes com o tucano. Entre os eleitores de Jilmar Tatto (PT), que tem 6% das intenções de voto, 36% podem mudar sua decisão.

Considerando que o derretimento de Russomanno siga em marcha, seus votos não consolidados migram principalmente para Covas (27%) e França (24%), diz o Datafolha.

A campanha de Russomanno, no entanto, não trabalha com a ideia de perder mais votos. Para seus aliados, o piso foi alcançado.

O candidato tem hoje percentual maior do que recebeu em 2016, quando levou 13,6% dos votos válidos, e menos votos que em 2012, quando marcou 21,6%. Ele terminou em terceiro nas duas ocasiões.

Russomanno trabalha com pesquisas internas em que, segundo ele, aparece com 20% e, portanto, no segundo turno. Sua equipe vê como ponto positivo a estagnação de Boulos, que manteve seus 14% do Datafolha anterior, e a fragmentação de candidatos da esquerda.

Seus estrategistas mantêm a ideia de associá-lo a Jair Bolsonaro, de quem recebeu apoio. Para adversários, o padrinho é que causou o derretimento de Russomanno, que marcou 29% em 23 de setembro.

No mesmo período, a rejeição ao candidato disparou de 21% para 47% --ele é o pior no quesito entre os candidatos. Covas está em segundo, com 25% de rejeição. Esse é um entrave tanto para que Russomanno alcance o segundo turno como para que vença o tucano caso chegue lá.

Bolsonaro estreou na propaganda de TV de Russomanno na noite desta sexta (6). O vídeo com o presidente deve ser repetido ao longo do fim de semana para fixar seu apoio.

O Datafolha mostra que Russomanno é segunda opção para 24% dos eleitores de Covas que podem mudar de ideia, 21% dos eleitores não consolidados de França e 18% dos eleitores de Joice que cogitam um plano B.

Se a trajetória de queda de Russomanno persistir, França é beneficiado no embolado segundo lugar --considerando que Covas, outro herdeiro de votos do deputado, já tem vaga no segundo turno.

A campanha do ex-governador, que subiu três pontos desde o último levantamento, conta com uma arrancada para o segundo turno. Além de poder herdar 24% dos votos de Russomanno, França é colocado como segunda opção por 30% dos eleitores de Boulos, 26% dos eleitores de Covas e 19% de Tatto.

França pode perder votos, por outro lado, para Covas (32%) e Russomanno (21%). Apenas 9% de seus eleitores não consolidados veem Boulos como uma segunda opção. Ou seja, na briga entre PSB e PSOL, um derretimento do ex-governador não beneficia Boulos diretamente.

Já o contrário é verdade, de acordo com o Datafolha. Os eleitores de Boulos que ainda podem mudar de ideia têm como segunda opção França (30%), Covas (18%) e Arthur do Val (Patriota, 12%). Apenas 2% podem abandonar o PSOL para votar no PT de Tatto.

Olhando a situação inversa, Boulos é visto como segunda opção para 25% dos eleitores de Tatto que consideram mudar de voto. Mas quem mais se beneficia de uma migração de votos do petista é Covas (27%). França é segunda opção de 19%, e Russomanno de 11% dos eleitores de Tatto.

Enquanto Boulos, para crescer, precisa canalizar os votos de petistas, França é visto como segunda opção entre uma parcela maior do eleitorado.

Outra vantagem do candidato do PSB contra o do PSOL na disputa pelo segundo turno é seu crescimento de 10% para 13%, enquanto Boulos tem apresentou os mesmos 14%.

Por causa da estagnação e do desempenho ruim na migração de votos, a pesquisa foi recebida com frustração por parte da equipe de Boulos, embora o discurso oficial seja o de que o desempenho foi satisfatório. O próprio candidato buscou minimizar o baque e destacar pontos positivos.

"A nossa candidatura é, de longe, a que tem o voto mais consolidado. 72% dos que declaram voto na gente afirmam convicção completa", disse.

"Eu vi essa pesquisa como uma vitória. Nós fomos alvos na última semana de fake news na televisão todos os dias. No meio de um bombardeio desse, a gente com 17 segundos [de tempo de TV] crescer na pesquisa espontânea e estar empatado tecnicamente no segundo lugar, isso é uma vitória", completou.

O candidato do PSOL se referia a peças de publicidade de Russomanno contra ele e críticas de França. Boulos, por sua vez, tem alimentado um embate com França afirmando que ele não é representante da esquerda, mas um aliado do PSDB.

"Não acho que vamos ter dois PSDBs no segundo turno", afirmou o líder de movimentos de moradia. "Vamos estar no segundo turno. O voto de esquerda se define na reta final, na última semana. Tem um eleitorado progressista e de esquerda em São Paulo que sempre colocou um candidato ou em primeiro ou em segundo lugar."

Animado com o resultado da pesquisa, França usará os últimos dias de campanha para tentar capturar a fatia do eleitorado que se diz propensa a migrar para ele.

"Na reta final, há o boca a boca, as pessoas trocam opiniões", disse o ex-governador, que adotou na campanha a retórica anti-Doria, com a qual se contrapõe a Covas.

Ele destacou ainda a baixa rejeição (14%) como um dos ativos de sua candidatura e afirmou que esse aspecto faz com que ele herde voto "de todo lado".

Raul Cruz Lima, marqueteiro da campanha do PSB, projeta um cenário em que uma nova queda de Russomanno beneficie o ex-governador. "O Russomanno caindo, acho que a maioria dos votos vai para o Márcio."

Segundo ele, a pesquisa deu ânimo extra à equipe. "Eu "‹esperava essa subida mais para a frente, mas aconteceu antes, o que é positivo."

As ideias de que o voto se define na reta final e de que, tradicionalmente, São Paulo tem um segundo turno entre esquerda e direita são partilhadas pelo PT e são a esperança da campanha de Tatto, que não viu seu candidato disparar até agora.

O PT trabalha com a hipótese de que Russomanno seguirá caindo e que o segundo turno, contra Covas, terá França, Boulos ou Tatto.

"A última semana costuma ser de muita mudança e com mais agudeza. É uma reviravolta mais intensa na última hora", disse o deputado estadual José Américo (PT), um dos coordenadores da campanha de Tatto.

Já entre os tucanos, a liderança isolada medida pelo Datafolha foi comemorada. A equipe de Covas apostou em não nacionalizar a disputa, em evitar atacar adversários e em esconder o governador João Doria (PSDB), que não é considerado um bom padrinho político do ponto de vista eleitoral.

Essa estratégia vai se manter até que o adversário no segundo turno seja definido. "Recebemos o resultado com alegria, porque demonstra que o trabalho do prefeito está sendo aprovado pelas pessoas. Mas temos que ter cautela, porque ainda tem o segundo turno", disse Wilson Pedroso, coordenador da campanha tucana.