O que está por trás do 'efeito Russomanno', sempre na liderança no início da campanha

Grasielle Castro
·Editora sênior, HuffPost Brasil
·7 minuto de leitura
O apresentador e deputado federal Celso Russomanno é líder nas pesquisas de intenções de voto para Prefeitura de São Paulo.  (Photo: Anadolu Agency via Getty Images)
O apresentador e deputado federal Celso Russomanno é líder nas pesquisas de intenções de voto para Prefeitura de São Paulo. (Photo: Anadolu Agency via Getty Images)

A campanha eleitoral municipal começa oficialmente neste domingo (27). Pela terceira vez, é iniciada uma disputada pela Prefeitura de São Paulo em que o apresentador de televisão Celso Russomanno (Republicanos) lidera as pesquisas de intenção de voto. O mesmo cenário se repetiu em 2012 e 2016, quando os institutos de pesquisa foram às ruas no início da campanha e ouviram o nome do atual deputado federal como o preferido dos eleitores para chefiar o Executivo da maior cidade do País. Nas eleições anteriores, entretanto, o candidato não saiu vitorioso da disputa.

Por trás desse fenômeno que tem colocado Russomano como líder de pesquisas quando a disputa começa há pelo menos 2 fatores, segundo especialistas ouvidos pelo HuffPost: regras eleitorais e modelo de pesquisa.

Presidente da Comissão de Estudos em Direito Político e Eleitoral e diretor do Instituto dos Advogados de São Paulo (IASP), Fernando Neisser explica que, com as restrições para propaganda impostas nas últimas minirreformas eleitorais, quem se beneficiou foram as pessoas que fizeram propaganda quando podia, quando havia dinheiro ou que são conhecidas do público ― caso do apresentador.

“O modelo brasileiro era bem equilibrado comparativamente em relação ao tempo de campanha e ao que podia e não podia. De 2006 para cá, após o [escândalo do] mensalão, o Congresso começou a cada minirreforma eleitoral, a cada dois anos, a passar reformas restringindo o que pode fazer de propaganda, como outdoor, brinde, camiseta etc… Até que sumiu a campanha da rua. Isso sob o argumento de que era preciso reduzir os custos das campanhas”, detalha Neisser.

Paralelo à justificativa, no entanto, o preço das campanhas só foi subindo. A primeira campanha vitoriosa do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 2002, por exemplo, custou R$ 39 milhões. Em 2010, a primeira campanha da ex-presidente Dilma Rousseff chegou a R$ 153 milhões. Em 2014, a campanha à reeleição de Dilma teve R$ 350 milhões declarados.

“Em 2015, tem uma reforma que reduz de 90 para 45 dias de campanha e reduz a propaganda de TV de 45 para 30 dias, então isso que pode parecer interessante para reduzir os custos de campanha beneficia quem já tem mandato, quem é prefeito, governador, porque já é conhecido, e o seu adversário não vai poder se fazer conhecer, ou quem é conhecido por outros motivos, pessoal da televisão, cantor, ministro religioso, locutor do rodeio”, diz Neisser, que também é membro da Comissão de Direito Eleitoral da OAB-SP.

Por essa ótica, em uma campanha curta, os candidatos mais conhecidos têm menos chance de perder o apoio e os menos conhecidos têm poucas chances de crescer. “Esse efeito tem sido bastante criticado na literatura internacional porque ele cria o que a chama de ‘profecia autorrealizável’, especialmente nos Estados Unidos, onde tem uma campanha eterna.”

Neste ano, há ainda um fator a mais que pode embolar essa disputa: o momento de crise sanitária por causa da covid-19. Professor de Direito Eleitoral dos cursos de Pós-Graduação do Instituto Damásio/IBMEC-SP e da Escola Brasileira de Direito (Ebradi), Filippe Lizardo acrescenta que a campanha já é curta e, por causa do isolamento, menos pessoas estarão expostas à campanha. Os eventos partidários têm repercutido menos. As convenções, por exemplo, praticamente não tiveram público e poucos candidatos estão visitando os bairros. Parte da disputa tem ocorrido na esfera online.

“São questões que complicam o jogo e que podem fazer que esse quadro de 2012 e 2016 não aconteça novamente. Russomanno é um caso interessante porque ele sai na frente nas candidaturas anteriores, mas não chega ao segundo turno”, diz.

Não dá para saber até que ponto o ele é um ‘cavalo paraguaio’, como pessoal diz no jargão popular do futebol sobre time que começa bem e não consegue manter o mesmo ritmo até o fim do campeonato. Filippe Lizardo, professor de Direito Eleitoral

Redução no tempo de campanha pode beneficiar candidatos já conhecidos do público.  (Photo: AFP via Getty Images)
Redução no tempo de campanha pode beneficiar candidatos já conhecidos do público. (Photo: AFP via Getty Images)

Pesquisas

Há ainda uma questão referentes ao método das pesquisas. Segundo Neisser, quando a sondagem é feita antes de a campanha começar, sai na frente o candidato já conhecido.

“A pessoa que criou as pesquisas técnicas de opinião, o George Gallup, criou uma pergunta que não existe e é usada até hoje nas pesquisas eleitorais: ‘se a eleição fosse hoje em quem você votaria?’. Essa pergunta não existe porque a eleição não é hoje. E não tem como forçar as pessoas sem ter ouvido nada sobre a campanha a responder. Então, nosso cérebro, que odeia ser colocado ser colocado em uma situação que ele não tem resposta, se vale de um viés cognitivo chamado heurístico, e responde qual candidato ele conhece, qual nome vem à mente mais fácil.”

Na análise dele, esse procedimento mental ajuda a explicar o efeito recall. “É a alta de quem tem o nome conhecido. Não tem como o eleitor dar outros nomes; ele não conhece outros nomes. (...) Em um cenário em que a eleição municipal ainda não engrenou, e as pessoas estão mais focadas na pandemia e em outros assuntos. É pouco crível que uma parcela considerável da população tenha parado para refletir em quem votaria nas eleições.”

Neste momento que estamos da campanha, Russomanno se beneficia porque ele é o candidato mais conhecido e portanto, pelo efeito de heurística, as pessoas acabam respondendo o que não foi perguntado a elas — que é "quem é o mais conhecido?". Fernando Neisser, advogado eleitoral

Pesquisa Datafolha feita entre 21 e 22 de setembro corrobora essa tese. Quando instituto faz a seguinte pergunta: “Vou citar os nomes dos candidatos à prefeitura da cidade de São Paulo e gostaria que você me dissesse de cada um deles, se conhece ou não conhece mesmo só de ouvir falar. Você conhece muito bem, conhece um pouco ou conhece só de ouvir falar o nome?”, Russomanno aparece no topo, conhecido por 99% dos entrevistados, sendo que 54% afirmaram que o conhecem muito bem.

Em segundo lugar está o atual prefeito, Bruno Covas, conhecido por 97% dos entrevistados, sendo muito bem conhecido por 47%. Na pesquisa estimulada de intenção de votos, o tucano também fica em segundo lugar, preferido por 20%. Russomanno aparece no topo com 29%. Em terceiro lugar, empatados na pesquisa, estão Guilherme Boulos (PSol), com 9%, e o ex-governador Márcio França (PSB), com 8%.

Lizardo também endossa os argumentos de Neisser de que o fato de as pessoas já conhecerem o candidato de eleições anteriores o coloca na frente agora. “Ele [Russomanno] tem o diferencial de ter uma imagem pública diferente de um político tradicional, como é o caso do atual prefeito, Bruno Covas (PSDB). Há um fator ligado à questão política, que faz a classe política sofrer um desgaste maior.”

Ele também prevê que conforme a campanha engate, os eleitores passem a conhecer as propostas. “Não basta apenas ser reconhecido pelo eleitor. Tem outros fatores que influenciam no voto e não são simples de serem avaliados e identificados, como questões sociais, políticas e psicológicas”, pondera.

Ele chama atenção para outro ponto da pesquisa, o cenário desenhado na pesquisa espontânea. Quando o instituto não apresenta ao eleitor os nomes dos candidatos, Russomanno cai para o terceiro lugar nas intenções de voto, com apenas 5% das intenções de voto. É possível inferir que o entrevistado não sabe que ele será candidato. “É um outro ponto a ser levado em consideração”, destaca. Nesse cenário, 57% dos eleitores respondem que ainda não sabem em quem vão votar. Na estimulada, esse índice cai para 4%.

O professor de direito eleitoral também alerta para os votos brancos e nulos, que têm percentual bastante significativo, 17% na estimulada e 16% na espontânea. A expectativa dele é que, somado aos brancos e nulos, essa eleição tenha um índice de abstenção alto por causa das medidas de prevenção à pandemia de coronavírus.

O Instituto Datafolha ouviu presencialmente 1.092 eleitores nos dias 21 e 22 de setembro. A margem de erro da pesquisa é de 3 pontos percentuais, para mais ou para menos.

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Este artigo apareceu originalmente no HuffPost Brasil e foi atualizado.