Russos expulsam soldados ucranianos do centro de Severodonetsk, atual foco da guerra

O Exército da Ucrânia anunciou nesta segunda-feira que as tropas russas conseguiram expulsar os soldados de Kiev do centro da estratégica Severodonetsk. Epicentro do conflito há semanas, a cidade é chave para a definição do destino do Donbass, que compreende as regiões de Donetsk e Luhansk, no Leste ucraniano.

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Em um comunicado no Facebook, o Exército da Ucrânia disse que, "com o apoio da artilharia, o inimigo executou um ataque a Severodonetsk, com um triunfo parcial e expulsou nossas unidades do centro da cidade”. Segundo a nota, os combates pela disputa da cidade continuam ativos.

Serhiy Gaidai, governador pró-Kiev de Luhansk, confirmou a expulsão dos soldados, dizendo que “os combates nas ruas prosseguem (...) e os russos continuam destruindo a cidade”. Na vizinha Lysychansk, três civis, incluindo uma criança de 6 anos, morreram vítimas dos bombardeios das últimas 24 horas, afirmou Gaidai.

O presidente Volodymyr Zelensky, por sua vez, afirmou que “confrontos muito duros estão ocorrendo — por todo metro, literalmente”. Na noite de domingo, ele descreveu as batalhas recentes como “muito ferozes”. Em um vídeo, Zelensky disse que a Rússia mobilizou tropas com pouco treinamento e utiliza seus jovens soldados como "bucha de canhão".

Severodonetsk, uma cidade industrial, foi praticamente destruída pela guerra, que começou em 24 de fevereiro. Ela não tem grande importância estratégica, mas sua tomada pelos russos, além de Lysychansk, de quem é separada por um rio, marcaria a conquista da região de Luhansk pelo Kremlin, uma de suas maiores vitórias no front.

Uma vitória de Moscou na área também abriria caminho para assumir o controle de Kramatorsk, outra grande cidade do Donbass. Seria uma etapa importante para tomar toda a região fronteiriça com a Rússia, que já está parcialmente nas mãos de separatistas pró-Kremlin desde 2014, quando o presidente Vladimir Putin anexou a Crimeia.

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Crimes de guerra

De acordo com Gaidai, a Rússia continua a bombardear a usina química de Azot, em Severodonetsk, onde no sábado houve um incêndio após um vazamento de óleo. Um número desconhecido de combatentes e 500 de civis, incluindo 40 crianças, se abrigam no local e é possível retirar apenas um pequeno número de pessoas por dia.

O governador, contudo, voltou a negar as acusações de separatistas russos de que entre 300 e 400 soldados ucranianos foram cercados na planta de Azot. Os militares, afirmaram os grupos pró-Moscou, teriam tentado negociar sua passagem para Lysychansk — bloqueio que Gaidai disse ser “uma mentira”.

O Ministério da Defesa russo, em paralelo, anunciou no domingo a destruição em Chortkiv, no Oeste ucraniano, de um "grande depósito de sistema de mísseis antitanque, sistemas portáteis de defesa antiaérea e obuses fornecidos ao regime de Kiev pelos Estados Unidos e pelos países europeus". O até agora incomum ataque na região, uma área relativamente calma da Ucrânia, a 140 km da fronteira com a Romênia, deixou 22 feridos.

Já em Mykolaiv, uma importante cidade portuária do Sul da Ucrânia, o avanço russo foi bloqueado e os combates se transformaram em uma guerra de trincheiras, de acordo com uma equipe da AFP no local. O Exército ucraniano efetivamente cavou as barreiras no chão para frear os adversários:

— Os russos falam muito. São muitos. Eles têm muitas armas, velhas e novas, mas não são soldados — afirmou à agência de notícias Sergei, um capitão de brigada ucraniano.

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A Anistia Internacional, por sua vez, acusou nesta segunda a Rússia de crimes de guerra na Ucrânia e afirmou que centenas de civis morreram nos ataques em Kharkiv. Muitos deles foram executados com bombas de fragmentação, que se abrem no ar e liberam milhares de pequenos explosivos com capacidade de atingir zonas mais amplas.

Após uma investigação, a ONG de defesa dos direitos humanos afirma ter encontrado evidências de que em sete ataques contra bairros da segunda maior cidade da Ucrânia, no Nordeste do país, as forças russas usaram bombas de fragmentação do tipo N210 e 9N235 e minas de fragmentação, duas categorias proibidas por tratados internacionais.

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Zelensky pede armas

Desde que a guerra começou, disse Zelensky no domingo, as cidades ucranianas foram atingidas por mais de 2,6 mil mísseis de cruzeiro russos. O presidente voltou a fazer um apelo a seus aliados ocidentais pelo fornecimento de sistema de defesa antimísseis:

— O fornecimento desses sistemas foi possível neste ano, no ano passado e até antes. Nós os recebemos? Não. Nós precisamos deles? Sim. Já houve 2.606 respostas afirmativas para essa pergunta — afirmou. — Essas são vidas que poderiam ter sido salvas. Essas são tragédias que poderiam ter sido prevenidas se a Ucrânia tivesse sido ouvida.

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Kiev, na prática, esgotou seu estoque de armas russas e soviéticas, armamentos com o qual o país construiu seu arsenal — e, mais importante, para o qual seus militares foram treinados. Agora, com os equipamentos já esgotados ou destruídos, resta migrar para sistemas ocidentais com os quais não estão acostumados.

Os países aliados coordenam a assistência para que as forças ucranianas recebam um fluxo constante de munição, peças de reposição e armas, segundo a AFP. As autoridades enfatizam, no entanto, que se a chegada das armas é aparentemente lenta, principalmente porque os aliados querem garantir que os militares da Ucrânia possam usá-las com regularidade e segurança. A demora, no entanto, gera crítica das autoridades em Kiev, que fazem apelos diários por mais armas.

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