São Paulo Fashion Week implanta cota racial de 50% em desfiles

Gilberto Júnior
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A abreviação remonta aos anos 1960, 1970. E costuma ser usada para se referir a pessoas que vivem no Reino Unido e não são brancas. De uns tempos para cá, o termo BAME (black, asian and minority ethnic — negro, asiático e minorias étnicas, em tradução livre) também começou a aparecer em reportagens de moda pelo mundo para explicar o atual momento da indústria.

Aqui no Brasil, o efeito BAME acaba de promover uma movimentação histórica: a São Paulo Fashion Week, principal evento de moda do país, anunciou que as marcas participantes terão que apresentar 50% de modelos negras, indígenas ou orientais em seus desfiles. A decisão já vale para a próxima edição digital, que celebra os 25 anos do evento e acontece entre os dias 4 e 8 de novembro.

"Já estava mais do que na hora de termos representatividade e, então, decidimos criar a cota de 50%", disse Paulo Borges, organizador do evento, que, anteriormente, já obrigava as grifes a terem 10% do casting composto por negros, orientais e indígenas. Quem não se adequar, estará fora da próxima edição da SPFW, em abril do ano que vem.

Por conta da pandemia de Covid-19, os desfiles, filmes e apresentações das grifes serão exibidos on-line, no YouTube.

Tome como exemplo a temporada de verão 2021 europeia. A Versace, que sempre exaltou um único tipo de beleza (pense no arquétipo das supermodelos, representado na figura de nomes como Christy Turlington, Cindy Crawford e Claudia Schiffer), abriu espaço para a diversidade. Max Mara e Fendi seguiram pelo mesmo caminho. Até a tradicional Chanel — em menor escala — entrou na discussão.

“A década de 1920 é conhecida como ‘Os anos loucos’, em grande medida por conta da ferrenha luta pela emancipação feminina. Diria que os anos 20 deste século serão lembrados como ‘Os anos conscientes’ pelos avanços nas questões raciais.

A presença de BAME nas passarelas, editoriais e campanhas vai muito além da conquista ou da reparação. É um marco na história e um caminho sem volta”, analisa Paula Acioli, pesquisadora e coordenadora do curso de Formação Executiva em Moda, da Fundação Getulio Vargas (FGV).

Para a top paulistana Rita Carreira, a moda tem papel fundamental na construção de uma nova ordem, em que a diversidade não seja simplesmente uma questão de marketing. “Digo que sou minha própria referência porque não existiam meninas como eu nos desfiles e na mídia. Como mulher negra e gorda, fiquei muito tempo sem me enxergar nas revistas fashion. Com isso, eu achava que não era capaz, não acreditava que seria possível chegar no lugar em que estou hoje”, observa Rita. “Sou uma modelo que busca representatividade diariamente para que pessoas como eu não sejam mais invisibilizadas.”