São Paulo revive mesmas enchentes há 91 anos

*ARQUIVO* SÃO PAULO, SP, 10.02.2020 - CHUVA-ESTRAGOS-SP - Estragos causados pela chuva na marginal Pinheiros, próximo à Ponte do Jaguaré, na tarde desta segunda-feira (10). A cidade teve o segundo maior volume de chuva em 24h em fevereiro dos últimos 77 anos. (Foto: Zanone Fraissat/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Em uma de suas principais obras, Benedito Calixto retratou, em 1892, a inundação na área do atual Mercadão, no centro de São Paulo.

A região foi atingida também em 1929, numa das primeiras grandes enchentes da capital paulista, e submergiu novamente na última segunda (10), quase 130 anos depois do quadro histórico.

A repetição de locais inundados não se restringe a essa área na avenida Mercúrio: 63% dos pontos de alagamentos nesta semana estão na mesma região atingida pela cheia de 1929, mostra levantamento feito pela Folha de S.Paulo.

A análise cruza dados recentes do CGE (Centro de Gerenciamento de Emergências) com estudo feito por pesquisadores da Unifesp, que estimaram a área inundada nas enchentes de 1887 e 1929.

Não por acaso, a avenida Mercúrio faz parte da subprefeitura com maior número de alagamentos desde 2006: a Sé.

Em 15 anos -período disponível no banco de dados do órgão- foram nada menos que 1.909 registros de alagamento nessa região administrativa da cidade. A via sozinha respondeu por 70 desses casos.

Após a Sé, as subprefeituras com mais ocorrências de inundações no período são as da Lapa e a de Pinheiros, com 1.629 e 1.514 casos respectivamente.

Na Lapa, destaca-se negativamente a praça Marrey Junior (alagada 163 vezes; área próxima ao estádio do Palmeiras).

Urbanistas afirmam que uma das principais explicações para as repetidas inundações foi a decisão de expandir a cidade para as áreas próximas a várzeas dos rios como Tietê e Tamanduateí, a partir de meados de 1890.

As obras e intervenções para tentar conter a cheia dos rios nessas áreas não foram suficientes. Um outro agravante é que o solo da cidade tem ficado cada vez mais impermeável, com aumento das áreas construídas e ocupadas.

O quadro de Benedito Calixto, de 1892, capta o início dessa expansão da cidade. A cheia histórica de 1929 foi registrada em uma série de fotografias que viraram sinônimo das inundações paulistanas.

Nesta semana, a ambulante e moradora do Brás Tânia Alves Batista, 54, acompanhou a enchente na praça São Vito pelo celular, próximo ao Mercadão.

"Quando começa a chover forte não dá para chegar até aqui", diz ela em meio aos carros enquanto vende água para os motoristas. "Há 30 anos moro aqui e nunca melhorou, só teve piora."

Ao seu lado, no chão da praça, há três mudas que ela plantou nos últimos meses, um pé de carambola, um de maracujá e um abacateiro.

"Isso eu compro na feira, gasto R$ 25 e planto porque é o que vai chupar a água. Mas passa um mês, a prefeitura vem aqui e corta. Já plantei umas três vezes esse abacateiro."

A 20 metros do cruzamento em que a ambulante passa os dias, Cláudio Fernandes, 54, já perdeu as contas das vezes em que viu a avenida à sua frente encher, seja com o Tamanduateí ou só com a água da chuva.

O pai de Fernandes abriu um armazém ali há quase 40 anos. "Ele me contava que já teve enchente em que a água atravessou a avenida e chegou até esta altura", diz, indicando um ponto na parede a cerca de 1,70 m do chão.

"Tem vezes que a chuva nem é tão forte, mas o que acontece é que chove na região do ABC e a água do rio sobe aqui", diz.

A mesma explicação dá o comerciante Francisco Pequeno, 78, dono também de um armazém. Enchente para ele é coisa normal há 56 anos, período em que trabalha na região. "Se já entrou água aqui? Em 1966 entrou e subiu 1,5 metro. Em 2004, perdi R$ 400 mil em mercadorias", afirma.

Estudada pelo grupo de pesquisadores da Unifesp chamado Hímaco, a enchente de 1887 foi a primeira inundação após as áreas de várzea serem ocupadas. Antes disso, os rios já subiam, mas afetavam pouco o cotidiano da cidade, pois áreas próximas aos rios estavam pouco povoadas.

A enchente de 1929 é simbólica por ter deixado áreas da cidade debaixo da água por sete dias.

Além disso, a suspeita é a de que os efeitos da forte chuva que atingiu São Paulo naquele fevereiro tenham sido potencializados por ações da então onipresente empresa Light.

O acordo com o poder público previa que a Light poderia desapropriar áreas atingidas por enchentes naquele ano. A mesma empresa, responsável por geração de energia e oferta de transporte, possuía represas no entorno da cidade.

Pesquisa da professora da USP Odette Seabra indica que a Light abriu suas represas para aumentar a área inundada pelos rios Pinheiros, Tietê e Tamanduateí. Sua investigação mostra que, por isso, os dias mais críticos na cidade foram sem chuva.

Essas áreas inundadas passaram para as mãos da Light, que depois as comercializou.

Para calcular as áreas atingidas pelas enchentes de 1887 e 1929, os pesquisadores da Unifesp, inicialmente, identificaram em relatórios oficiais e notícias na imprensa pontos citados como alagados.

Depois, utilizaram software que calculou a área total atingida a partir desses pontos, considerando topografia e relevo do entorno desses pontos.

A medição de 1929 é mais precisa por terem sido encontrados mais registros de pontos inundados. Ainda assim, os pesquisadores entendem que a região inundada foi maior, pois usaram metodologia conservadora para o cálculo.

Procurada pela reportagem, a Prefeitura de São Paulo afirma que a Secretaria de Infraestrutura Urbana e Obras realizou os estudos das bacias hidrográficas da cidade, chamado de Cadernos de Drenagem, e fez o zoneamento de áreas inundáveis.

Em nota, a gestão Bruno Covas (PSDB) diz que essas iniciativas permitem "balizar as ações da prefeitura no combate às enchentes de forma mais eficiente, levando em consideração os planos setoriais e a instituição da Comissão de Segurança Hídrica". O material é desenvolvido em conjunto com a Fundação Centro Tecnológico de Hidráulica, da Escola Politécnica da USP.

Nas gestões passadas, segundo a nota, as obras eram executadas a partir das demandas que chegavam à prefeitura e pelo histórico de recorrência de enchentes.

Os dados do CGE analisados pela reportagem são os usados na criação de modelos matemáticos para elaborar os cadernos.

A prefeitura diz fazer ações de zeladoria e prevenção para o período de chuva durante todo o ano, com "reformas de galerias, bocas de lobo e postos de visitas, além da limpeza de córregos, piscinões, galerias e bocas de lobo", além "da coleta adicional de resíduos sólidos domiciliares, antecipação das coletas de resíduos de varrição e coleta de pontos críticos e pontos viciados".

Sobre as constantes inundações nas avenidas Nove de Julho e Mercúrio, a prefeitura diz que foram coletadas ali 23,1 mil toneladas de entulho e resíduos de varrição em 2019.

Na rua Turiassu, que passa pela praça Marrey Júnior, foram coletadas, em 2019, cerca de 18 mil toneladas de resíduos de varrição e entulho.

Após a chuva de segunda (10), "4.500 agentes realizaram a limpeza, lavagem e raspagem das vias. Como resultado, foram atendidas mais de 330 vias, recolhidas 565 toneladas de detritos das enchentes (lama e terra), 15 toneladas de objetos volumosos (móveis), desobstruídas 1.783 bocas de lobo e utilizados 693 mil litros de água de reuso."