Ségio Sant'anna 'era um autor em permanente ebulição', diz Marcelino Freire; leia outros depoimentos

Jan Niklas
Sergio Sant'anna faleceu em decorrência de complicações causadas pela Covid-19

RIO — "Que pancada", disse o escritor Marcelino Freire ao saber da notícia do falecimento do mestre e amigo Sérgio Sant'anna. Muito próximo do autor e de seu filho, o também escritor André Sant'anna, Freire havia dormido na noite anterior com a notícia de que seu "velho camarada" tinha tido uma melhora. Porém, na madrugada deste domingo, o autor que estava internado no Quinta D'Or, em São Cristovão, Zona Norte do Rio, com o novo coronavírus, não resistiu e faleceu.

— A mesa fica vazia. Ficamos órfãos, ao lado do amado André, sem a presença dele — disse Marcelino Freire, emocionado — Em entrevista ao Abujamra, faz tempo, eu disse de meus dois escritores preferidos: Sérgio e André. A dupla que me fez amar o ofício literário. Pode deixar, mestre, que vamos cuidar e abraçar ainda o seu filho.

O escritor pernambucano lembrou que sempre procurava Sérgio quando estava empenhado em novo projetos ("Porque ele era grande. Era boa prosa. Era da gente. Era da mesa de bar", conta). Ele destacou que o autor gostava de se enturmar e vibrava com as iniciativas, fazendo todos acreditarem no poder da literatura. Marcelino contou ainda que o autor andava em uma fase especialmente produtiva.

— (Sant'anna) falou que a quarentena estava o ajudando a escrever mais — lembrou Freire —Era essa a vibração sempre. Feito a vibração de seus personagens. Vivos, pulsantes, quentes ferventes. Sérgio era um autor em permanente ebulição. Nosso mestre "gente-fina", velho camarada, nos deixou.

Reverenciado no mundo literário como um dos maiores escritores brasileiros, Sérgio Sant'anna deixa uma legião de admiradores e autores influenciados por sua obra. O escritor e jornalista Carlos Henrique Schroeder, classificou a a partida de Sant'anna como "uma perda irreparável para a literatura brasileira".

— Era o grande escritor brasileiro vivo, o último dos grandes em atividade — afirmou Schroeder — O mundo só é verdadeiramente vivido quando pode ser narrado. Este bem poderia ter sido o mote da obra de Sant’Anna, escritor que quebrou regras, ampliou contornos e questionou agudamente os limites das formas breves em busca de uma nova experiência na arte de narrar.

O escritor Marcelo Moutinho lembrou que suas conversas com Sérgio Sant’Anna eram mais sobre futebol do que sobre literatura ("Quase sempre sobre o Fluminense, uma paixão em comum", disse). Aliás, a paixão pelo jogo transformada em narrativas é um dos destaques da obra do mestre para Moutinho:

— O Sérgio foi um dos primeiros autores brasileiros a usá-lo (futebol) como matéria-prima na ficção. E o fez com brilhantismo e conhecimento de causa em histórias como “Na boca do túnel” e “No último minuto”. Não se trata de tentativas de mimetização do drama intrínseco à disputa dentro das quatro linhas, o que soaria como mera diluição, mas de uma bem-urdida conexão entre o viés trágico do futebol e o jogo lúdico da trama ficcional — disse.

O poder do autor de transformar o universo futebolístico em textos literários também foi exaltado pelo escritor e historiador Luiz Antonio Simas.

— A morte de Sergio Sant´Anna é um cataclismo pra quem ama a encruzilhada em que duas artes sublimes se encontram: a literatura e o futebol. O futebol perdeu em pouco tempo Aldir e Sérgio: o compositor e o escritor que perceberam no drama do jogo matéria para a criação — publicou Simas em uma rede social.

Para autor mineiro Afonso Borges, Sant’anna era uma referência de qualidade e modernidade para a literatura brasileira. Com a sequência de perda de grandes nomes da cultura brasileira nas últimas semanas, como Aldir Blanc e Rubem Fonseca, ele enfatizou ainda que é necessário combater a "banalidade dos lutos" e dar a dimensão correta do falecimento do autor

— Temos que reverenciar a vida de cada um, com o luto que ele merece. Sérgio Sant’anna está na primeira prateleira — afirmou Borges — A gente sabia que da lavra do Serginho sempre sairia coisa surpreendente, inimitável e, sobremaneira, de alto conteúdo. Foi assim desde “O Sobrevivente”, editado em BH Sérgio Sant’anna.