Após polêmicas, STJ libera Sérgio Camargo para assumir Fundação Palmares

O Globo
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Justiça libera Sergio Camargo para reassumir fundação - Foto: Reprodução/Redes Sociais
Justiça libera Sergio Camargo para reassumir fundação - Foto: Reprodução/Redes Sociais

O militante de direita Sérgio Camargo comemorou sua recondução para o comando da Fundação Palmares numa rede social. "Caiu a liminar que me afastou da presidência da Fundação Cultural Palmares. Serei reconduzido ao cargo. Grande dia!", publicou Camargo nesta quarta-feira.

O presidente do Superior Tribunal de Justiça (STJ), João Otávio de Noronha, derrubou decisão que suspendeu a nomeação de Sérgio Camargo para a presidência da Fundação Palmares. Noronha acatou um recurso da Advocacia-Geral da União (AGU). Com a decisão, a expectativa é a de que Camargo seja imediatamente reconduzido ao cargo.

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Entre diversas declarações contra pautas do movimento negro, ele já afirmou que no Brasil não existe "racismo real" e que a escravidão foi "benéfica para os descendentes". A Fundação Cultural Palmares é órgão federal responsável pela promoção da cultura afro-brasileira.

Camargo é um usuário frequente de redes sociais, onde já teve sua conta suspensa por postagens consideradas ofensivas. Ele já defendeu a extinção do movimento negro, o fim do feriado da Consciência Negra, criticou manifestações culturais ligadas à população negra e atacou personalidades como Taís Araújo, Lázaro Ramos e a ex-vereadora Marielle Franco.

Quem também comemorou nas redes foi a reverenda Jane Silva, ex-secretária da diversidade cultural e ex-secretária adjunta da Secretaria Especial da Cultura, que foi demitida a pedido de Regina Duarte. Sua saída, segundo publicou a colunista da GLOBO Bela Megale, pode ter tido relação com a situação de Camargo antes da decisão da justiça.

Segundo a colunista, um dia antes de ser exonerada da Cultura ela tentou emplacar o presidente afastado da Fundação Palmares como seu assessor. Na avaliação de Jane, esse pode ter sido o motivo de sua demissão.

Veja algumas das declarações controversas de Sérgio Camargo:

Racismo 'Nutella'

No dia 15 de setembro, Camargo publicou que no Brasil existe um racismo "nutella", ao contrário dos Estados Unidos, onde existiria um racismo "real". "A negrada daqui reclama porque é imbecil e desinformada pela esquerda", disse. Em 27 de agosto, havia escrito que a escravidão foi "terrível, mas benéfica para os descendentes" porque negros viveriam em condições melhores no Brasil do que na África.

Fim do movimento negro

No dia 16 do mesmo mês, afirmou que o movimento negro precisa ser "extinto" porque "não há salvação". Em outra ocasião, escreveu que "merece estátua, medalha e retrato em cédula o primeiro branco que meter um preto militante na cadeia por crime de racismo". Também já disse sentir "vergonha e asco da negrada militante".

Críticas a Zumbi dos Palmares

O Dia da Consciência Negra é um dos alvos preferenciais do novo presidente da Palmares. Ele defendeu a extinção do feriado por decreto, porque ele causaria "incalculáveis perdas à economia do país" ao homenagear quem ele chamou de um "um falso herói dos negros", Zumbi dos Palmares — que dá nome à fundação que ele agora preside. Também já afirmou que o feriado foi feito sob medida para o "preto babaca" que é um "idiota útil a serviço da pauta ideológica progressista".

Ofensas a personalidades negras

A lista de personalidades negras atacada por Camargo é grande. Ele disse ser favorável a que "alguns pretos sejam levados à força para a África", e cita Lázaro Ramos e Taís Araújo (classificada de "rainha do vitimismo") como exemplo. "Sugiro o Congo como destino. E que fiquem por lá!", disse. O sambista Martinho da Vila é outro que deveria "ser mandado para o Congo", por ser um "vagabundo". Marielle Franco, vereadora do Rio de Janeiro assassinada a tiros, "não era negra" e era um "exemplo do que os negros não devem ser".

Angela Davis, uma das principais expoentes do feminismo negro, foi chamada de "baranga" e "mocreia". A cantora Preta Gil e a atriz Camila Pitanga foram chamadas de "ladras racistas" por, segundo ele, se dizerem negras "para faturar politicamente e fazer discurso vitimista". Os músicos Gilberto Gil, Leci Brandão, Mano Brown, Emicida e os deputados federais Talíria Petrone e David Miranda (ambos do PSOL-RJ) foram todos chamados de "parasitas da raça negra no Brasil".

Críticas ao funk

Além disso, o jornalista chamou a "macumba" — termo pejorativo utilizado para se referir a religiões de matriz africana — e o "funk carioca" de "desgraças do mundo" e disse que o hip-hop faz "apologia da maconha e do crime". Para ele, uma mulher negra que seja "feminista, lulista e afromimizenta não pode reclamar da 'solidão da mulher negra'", porque "ninguém é louco de encarar".

Perfil bloqueado

No último dia 9, Camargo indicou já saber da nomeação, ao escrever que estava "comemorando uma grande notícia" que seria "do interesse da direita conservadora e bolsonarista". "Algo que farei para dar minha contribuição ao Brasil", disse. A confirmação veio nesta quarta, mas no perfil de Maya Felix, que está marcada no Facebook como "em um relacionamento sério" com Camargo. Ela disse que o perfil de Carmago foi bloqueado e, por isso, publicou uma mensagem dele.

"Fui nomeado nesta quarta-feira presidente da Fundação Cultural Palmares, a convite do secretário especial da Cultura, Roberto Alvim. Assumir o cargo será uma grande honra e ao mesmo tempo um desafio! Grandes e necessárias mudanças serão implementadas na Fundação Palmares. Sou grato a Deus por essa oportunidade. Minha atuação à frente da Fundação será norteada pelos valores e princípios que elegeram e conduzem o governo Bolsonaro", diz o texto.

Piada com o AI-5

Camargo também já fez piada com o Ato Institucional nº 5 (AI-5), medida tomada durante a ditadura militar. No dia 1º de novembro, após o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) causar polêmica por levantar a possibilidade de um "novo AI-5", publicou uma foto de Bolsonaro com os seus quatro filhos, acompanhada da legenda "Aí, cinco". Em agosto, sugeriu que membros do PT sejam usados como cobaias em testes, no lugar de animais.

Camargo, conforme registro em sua rede social, é formado em jornalismo pela PUC de São Paulo, mas faz constantes ataques à imprensa. Em uma postagem do dia 31 de outubro, ele afirmou ter trabalhado no jornal "O Estado de S. Paulo". "Acabo de bloquear um dos últimos ex-colegas da redação do Estadão que me seguia. É um esquerdista. Não dá". No dia seguinte, escreveu: "É dever moral de todo direitista desacreditar artistas e jornalistas. São parasitas e inimigos do povo e querem a nossa desgraça."