Série documental investiga origens da teoria conspiratória Qanon

CARLOS GRAIEB
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Na invasão do Capitólio americano, em 6 de janeiro de 2021, o Q estava em toda parte. Camisetas, bonés, bandeiras e cartazes traziam a letra estampada. Ela era o símbolo de uma crença que boa parte daquela multidão compartilhava: havia chegado o "dia da tempestade", o "dia do acerto de contas", em que eles, coletivamente conhecidos como QAnon, ajudariam Donald Trump e militares heróicos a impedir a confirmação de Joe Biden como presidente dos Estados Unidos --o que também afastaria do poder uma elite globalista que estupra e devora criancinhas para renovar as energias e (no caso de atores de Hollywood) estender a juventude. Mas de onde veio o Q? E como essa teoria da conspiração, a mais formidável e perigosa de tempos recentes, se propagou? Dividido em seis episódios, todos eles já disponíveis na programação da HBO, o documentário "Q: No Olho da Tempestade" responde muito bem a essas duas questões. Além disso, pretende ter desvendado um mistério: o "quem" por trás de Q. O documentarista americano Cullen Hoback passou três anos coletando material para a série. Pôs o pé na estrada no começo de 2018, pouco meses depois de as primeiras postagens assinadas com a letra Q surgirem num fórum de discussões online. A letra faria referência a um nível elevado de confidencialidade nos órgãos de inteligência dos Estados Unidos. Diante da possibilidade de acessar segredos de Estado, mesmo que em linguagem críptica, a imaginação de muita gente pegou fogo. Àquela altura, nada mais natural para alguém disposto a investigar a história, como Hoback, do que partir em busca do misterioso Q, que talvez fosse um lobo solitário, talvez um grupo de pessoas. Hoback supôs que os administradores do site 8chan, onde os textos de Q ganharam tração, poderiam lhe dar pistas E lá foi ele para as Filipinas, onde travou contato com três personagens pitorescos, todos americanos. Jim Watkins havia sido militar antes de se tornar um "empreendedor". Quando Hoback o encontra, além de administrar o 8chan ele cria porcos e mantém uma loja de produtos orgânicos. Ron Watkins, filho de Jim, é um nerd. Comprou uma casa nos cafundós do Japão, onde passa o dia programando. Fred Brennan é o criador do 8chan. Vive preso a uma cadeira de rodas devido a uma doença congênita. É muito loquaz e afirma ter criado o site como espaço onde a liberdade de expressão pudesse ser exercitada de maneira absoluta. Existe alguma tensão entre Brennan e os Watkins. Eles foram sócios, depois se afastaram. Mas todos dizem desconhecer a identidade de Q. Parece ser um beco sem saída. No entanto, a relação entre eles acaba se tornando a principal linha narrativa do documentário. Conforme aumentam as fileiras do QAnon, também cresce a animosidade entre Brennan e os Watkins, o que leva a uma guerra judicial. Ao mesmo tempo, Hoback suspeita mais e mais que Ron Watkins seja Q. Como já sabemos que a saga do QAnon tem seu clímax na depredação do Capitólio, acompanhar a guerra entre aqueles três personagens insólitos, incluindo o esforço de Hoback para desvendar a identidade de Q, traz um elemento de suspense à série. O problema é que o documentário acaba resvalando, veja só, para o terreno da teoria da conspiração. Hoback não oferece provas cabais de que Ron Watkins seja Q, apenas bons indícios. Mais importante, não traz evidências concretas de que os Watkins, aqueles dois esquisitões perdidos na Ásia, tenham laços com o círculo de Trump ou com alas radicais do Exército americano, mas lança essas suspeitas no ar. Ainda que seja ironia ou brincadeira "metalinguística", ver um documentário sobre o QAnon utilizando artifícios de teoria da conspiração causou, pelo menos em mim, um efeito desagradável. Com isso, as melhores partes da série são aquelas que ficam nas margens. Há uma boa história dos fóruns on-line como o 8chan, onde pululam painéis com maluquices políticas e perversões sexuais. Há o registro de como as postagens de Q deram origem a uma subcultura de QTubers --gente que ganhou dinheiro e notoriedade interpretando em vídeos e podcasts cada nova mensagem do guia. E, obviamente, há o passo a passo de como um fenômeno subterrâneo ganhou a luz do sol e teve impacto político real. Vale a pena assistir? Vale. Só tome cuidado para não cair no buraco de coelho --jargão dos conspiracionistas para realidade paralela-- que os autores do documentário deixaram pelo caminho. Q: NO OLHO DA TEMPESTADE Onde: HBO Go Classificação: 16 anos Direção: Cullen Hoback País: EUA Ano: 2021