Série 'O Caso Evandro' chega ao fim com gravações inéditas e chocantes; saiba o que aconteceu

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Produção original do Globoplay, a série documental "O Caso Evandro" tem mobilizado as redes sociais por partir do desaparecimento e assassinato macabro de um menino no Paraná, em 1992, para fazer um retrato cru das mazelas do Brasil. A história real traz elementos como corrupção, preconceito religioso, violência policial, voyeurismo, tortura, prisões injustas e até mesmo fake news.

Baseada no podcast “Projeto Humanos — O Caso Evandro” (2018), do professor e escritor Ivan Mizanzuk, a série teve seu sétimo e último episódio disponibilizado no Globoplay na madrugada desta quinta-feira. E traz desdobramentos chocantes, desconhecidos até por quem acompanhou toda a longa e densa trama narrada no podcast de Mizanzuk.

Ainda haverá um oitava episódio, extra, que resumirá o "O Caso Leandro" — a história de um outro desaparecimento, de Leandro Bossi, de oito anos, na mesma cidade (Guaratuba, no Paraná), dois meses antes do sumiço de Evandro. Como Mizanzuk adiantou no Twitter ao divulgar o fim da série, não terá segunda temporada.

É importante avisar ao mais ávidos que, não, a série "O Caso Evandro" não termina revelando quem matou o menino Evandro Ramos Caetano, cujo corpo foi encontrado desfigurado, sem vísceras e órgãos há quase 30 anos, em Guaratuba. Ela, porém, faz uma indicação clara do contrário: é muito possível que o verdadeiro assassino tenha passado impune e, caso vivo, ainda esteja à solta.

Isso porque o capítulo final apresenta gravações inéditas, entregues recentemente a Mizanzuk por uma fonte anônima. As fitas em questão são citadas diversas vezes ao longo do seriado, até mesmo pelo primo de Evandro, Díogones Caetano dos Santos Filho, como se fossem provas de que o pai de santo Osvaldo Marcineiro e seus supostos comparsas Vicente de Paula e Davi dos Santos Soares sequestraram e mataram Leandro Bossi dois meses antes do sumiço de Evandro — o que confirmaria a teoria de uma "seita de magia negra" e os incriminaria por ambas as mortes.


Tais fitas chegaram a ser citadas durante as investigações da polícia paranaense, mas nunca foram oficialmente apresentadas como provas em nenhum dos tantos julgamentos e processos que envolveram o caso midiático.

O motivo disso é sugerido pela série "O Caso Evandro" em seu encerramento. As gravações, na verdade, são um tiro no pé da promotoria na narrativa que busca incriminar não só Marcineiro, De Paula e Davi, como também Beatriz e Celina Abagge (filha e mulher do então prefeito de Guaratuba), Sérgio Cristofolini e Airton Bardelli dos Santos, que teriam idealizado ou contribuído com o suposto "ritual de magia negra" que sacrificou Evandro. Vale lembrar que os sete chegaram a ser presos e, tirando Cristofolini e Bardelli, todos foram efetivamente condenados pela Justiça do Paraná.

As fitas trazem um conteúdo chocante. São registros gravados de sessões de tortura praticadas pelo poder público contra ao menos Marcineiro, De Paula, Davi, Beatriz e Bardelli, com o intuito de costurar uma confissão para solucionar o caso. Em certo momento, o interrogador chega a falar "não vai ter jeito, vamos ter que continuar a sessão, ela não quer colaborar". "Ela" é Beatriz Abagge, que também pode ser ouvida nas fitas falando em voz baixa "isso não é verdade, eu estou inventando isso" e pedindo socorro.

O conteúdo gravado também traz Marcineiro ofegante e com voz de desespero contando uma suposta confissão inicial completamente diferente da que foi usada mais à frente pela Justiça e registrada em vídeo. O interrogador chega até a confundir o menino cuja morte Davi deve confessar. Diversas vezes os acusados pedem piedade por "estarem cooperando".

As fitas são apresentadas em primeira mão por um dos diretores de "O Caso Evandro", Aly Muritiba, a Beatriz, Celina, Bardelli e Davi. Eles citam que a tortura da Polícia Militar passava por choques elétricos, afogamentos e outras agressões "que não deixavam marcas".

Também ouvem as gravações à frente da câmera o promotor do Ministério Público do Paraná Paulo Sérgio Markowicz de Lima (responsável pela acusação dos então suspeitos) e Antonio Augusto Figueiredo Basto, o advogado de defesa.

Markowicz , que sempre se mostrou relutante às alegações de tortura, vai cedendo conforme as fitas são apresentadas e, no final, não consegue esconder o constrangimento e admite uma "tristeza profunda". "Sessão de quê? De cinema que não é", comenta, indignado, ao ouvir a fita do interrogatório de Beatriz Abagge. Ele reclama nunca ter tido acesso às gravações durante o julgamento.

Já Basto transita entre o alívio de finalmente ter sua versão de defesa comprovada, a emoção causada pelos fortes relatos e a indignação pela falha crassa provocada pelo poder judiciário. Tanto o advogado quanto Ivan Mizanzuk pedem que a Justiça do Paraná se retratem com os seis acusados ainda vivos (Vicente de Paula morreu na prisão) e os indenize.

Agora vamos aguardar os próximos episódios da vida real.

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