Série ‘Orgulho além da tela’, do Globoplay, traça história da representação LGBTQIA+ nas novelas; veja marcos e curiosidades

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Em tempos de reprises, as tramas de algumas novelas exibidas há anos, às vezes, são vistas de uma forma diferente pelo público. É o que tem acontecido com personagens LGBTQIA+. Em “Império”, por exemplo, Téo Pereira (Paulo Betti) foi criticado pelo jeito caricato. O mesmo aconteceu com Crô (Marcelo Serrado) na reexibição de “Fina estampa” no ano passado. Mas como um papel como o do mordomo tão amado a ponto de virar ala de escola de samba e ser ovacionado pela comunidade LGBTQIA+ em 2013 foi alvo de tantas críticas em 2020? É o que discute o documentário do Globoplay “Orgulho além da tela”, lançado esta semana.

— Sempre fui um amigo das causas e convivi com a comunidade LGBTQIA+. Qualquer personagem que traga alguma representatividade ajuda, principalmente numa novela de dez anos atrás. O público abraçou tanto na época. Fui homenageado em paradas gays e boates. No carnaval, 200 ritmistas saíram fantasiados de Crô na São Clemente. Não tenho palavras para descrever a emoção e o carinho que eu tive do público. Mas o mundo mudou, né? — reflete Serrado.

O ator é um dos entrevistados na série documental de três episódios, que traça uma linha do tempo com artistas e outros profissionais como autores que deram voz à diversidade nas telenovelas dos anos 70 até os dias atuais. O programa mostra a evolução do debate sobre a comunidade LGBTQIA+ e como ele é abordado na ficção. Além disso, reúne os atores com telespectadores impactados na vida real pelas histórias vividas pelos seus icônicos personagens. Ao todo, 50 pessoas foram entrevistadas entre o elenco da Globo e anônimos.

Além de percorrer a trajetória na TV, a série resgata marcos da história do país que contribuíram para a aceitação ou rejeição das tramas pelo público. Com o tempo, os personagens passaram a ter histórias mais aprofundadas e deram os primeiros beijos nas telinhas. Em “Mulheres apaixonadas”, houve o primeiro entre duas mulheres; em “Amor à vida”, o primeiro entre dois homens. Já “América” frustrou ao não exibir a demonstração de afeto (veja curiosidades abaixo).

Recentemente, as últimas produções da emissora trataram de temas também ligados à identidade de gênero. Em “A força do querer” (2018), reprisada em 2020, Carol Duarte mostrou todo o drama da transexualidade com Ivana/Ivan e Silvero Pereira interpretou uma drag queen.

— Elis foi gigante tanto para o artista como para o militante Silvero. Sou abordado com carinho e muitas pessoas falam o quanto Elis ajudou a esclarecer questões e como torciam pela felicidade dela.

Curiosidades

Pioneiros

O primeiro gay em novelas da Globo foi Rodolfo Augusto interpretado por Ary Fontoura em “Assim na Terra como no Céu”, há 50 anos. Já o primeiro beijo entre dois homens foi em “Amor à vida” (2014) com Félix (Mateus Solano) e Niko (Thiago Fragoso). Na época, a repercussão foi grande, com direito a fogos de artifício nas ruas para comemorar.

Sem beijo

Gloria Perez conta que, apesar de não ter ido ao ar, a cena do beijo entre Júnior (Bruno Gagliasso) e Zeca (Erom Cordeiro) em “América” foi gravada sete vezes. A diretoria da Globo chegou a se reunir para votar no dia do último capítulo. Criticada na época pelo corte, a autora diz que foi a que mais ficou chateada.

Saída esperta

Pesquisas feitas na época de “Mulheres apaixonadas” (2003) apontaram que o público não era contra a relação de Clara (Alinne Moraes) e Rafaela (Paula Picarelli), mas não queria uma cena de beijo. Manoel Carlos encontrou uma solução ao mostrar, no último capítulo, as duas dando um selinho ao encenar “Romeu e Julieta”.

Repercussão ruim

A repercussão negativa mudou algumas tramas. Silvio de Abreu usou a explosão do shopping em “Torre de Babel” (1998) para eliminar o casal Leila (Silvia Pfeifer) e Rafaela (Christiane Torloni). Em “Babilônia” (2015), o beijo entre Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg foi rejeitado após o de Giovanna Antonelli e Thainá Muller ter agradado em “Em família” (2014). As duas senhoras nunca mais tiveram cenas sequer dentro do quarto do casal. O ator Gilberto Braga diz que pediu um selinho, mas o diretor Dennis Carvalho achou melhor ir mais a fundo.

Incentivo

Nanda Costa conta que a dúvida da Maura de “Segundo sol” (2018) foi o que a fez assumir sua sexualidade.

Quando a personagem estava dividida entre Selma (Carol Fazu) e Ionan (Armando Babaioff), as pessoas começaram a questioná-la e ela contou que mantinha um relacionamento com Lan Lanh. A gravidez da personagem também a fez querer engravidar na vida real. Atualmente, ela e a mulher estão esperando as primeiras filhas.

Transexualidade

Carol Duarte emocionou ao viver o transexual Ivan em “A força do querer”. Mas a primeira personagem oficialmente trans foi Ramona (Claudia Raia) em “As filhas da mãe” (2001). Apesar do sucesso, a trama teve dificuldade para ser exibida às 19h por causa do tema.

‘Lugar ao sol’ trata bissexualidade

A próxima novela das nove da Globo “Um lugar ao sol” também vai ter personagens LGBTQIA+. Mariana Lima vai interpretar Ilana, que, num casamento em crise com Breno (Marco Ricca), acaba se envolvendo com Gabriela (Natália Lage). Segundo a atriz, a personagem não é uma bissexual convicta.

— Não há na novela nenhum chamado do tipo: mulheres, sejam bissexuais, façam isso por seu bem! Não. É uma mulher em crise profunda, porque é heterossexual casada há muitos anos e de repente sente um troço por aquela médica e não sabe o que fazer com isso. Ela não é nada militante, ao contrário, é preconceituosa com ela mesma — conta a artista, que se inspirou em uma amiga para a construção da personagem: — Ela tinha uma família careta. Duas filhas, inteligente, professora, 45 anos, hétero. Se apaixonou por uma mulher, casou com ela. E aí tem toda uma transição familiar. As filhas precisam aceitar essa mudança radical. Ela nunca tinha sentido nada em relação a alguém do próprio sexo. E aí vem e diz: “Estou apaixonada, quero viver com ela, ter uma casa”.

A atriz adianta que o casal vai protagonizar um beijo na trama das nove, mas não haverá cenas de sexo.

— Gravamos um mais quente e um mais frio, torcendo para entrar o mais quente. Hoje não há espaço para uma cena de sexo entre duas mulheres numa novela. A gente seria massacrada. Alguns casais de mulheres foram profundamente rechaçados na TV. Sobretudo a Fernanda (Montenegro) e a Nathalia Timberg (em “Babilônia”, 2015). Ninguém gostava ou queria o casal.

Outro tema ligado à personagem de Mariana será a invisibilidade da mulher mais velha, que será abordada também pela personagem de Andrea Beltrão.

— Nós vivemos ex-modelos que foram muito famosas. Minha personagem parou de modelar e abriu uma produtora. O mercado para de querer as mulheres de mais de 40. Nosso assunto vai ser esse: “O que tem de errado comigo?” — explica Mariana Lima.

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