Série Pistoleiros: Transcrição do segundo episódio

Transcrição do Episódio 2.

Disclaimer: [00:00:00] Antes de começar um aviso: essa série contém descrições de cenas fortes de violência. Elas podem causar incômodo em alguns ouvintes mas não são contadas sem motivo. [00:00:09][9.2]

Voz da Aeromoça: [00:00:14] Chegamos em Salvador, aeroporto Luiz Eduardo Magalhães. Agora são 10 horas e 40 minutos, hora local. Permaneça com a cinta afivelada até que a aeronave pare completamente [00:00:25][10.9]

Rafael Narrador: [00:00:29] No final de setembro de 2021, eu fui para a Bahia, para Esplanada. Fica a três horas de Salvador. [00:00:36][6.4]

Rafael: [00:00:37] Opa, amigo. Bom... Bom dia. A gente está querendo ir no sítio onde mataram o miliciano, o Adriano. [00:00:43][6.1]

Voz de morador: [00:00:45] Rapaz a pergunta é meio indiscreta, mas eu vou lhe dizer. [00:00:47][2.1]

Rafael: [00:00:47] Obrigado [00:00:47][0.0]

Rafael Narrador: [00:00:50] Eu fui para lá para tentar entender como é que foi a ação que terminou com a morte do Adriano da Nóbrega um dos criminosos mais procurados do país naquela época. Ele foi morto num domingo, dia 9 de fevereiro de 2020. [00:01:02][11.3]

Voz de uma moradora: [00:01:03] Não fazia ideia do que estava acontecendo. Imagina um caso de tão longe. Misericórdia, nunca tinha visto esse homem nem na televisão. A gente vê depois que saiu na internet depois de morto, né? A gente fica assustado. [00:01:15][11.8]

Rafael Narrador: [00:01:19] Eu já faço reportagem sobre crime de grande repercussão no Rio há dez anos. Muitas fontes já mencionaram o nome dele para mim ao longo desse período, mas eu nunca consegui escrever no jornal. Todo mundo tinha medo. Eu só conversava sobre o Adriano em off. E o nome dele nunca ia parar no papel. Não só do jornal, como também dos inquéritos da polícia. [00:01:43][23.7]

Rafael: [00:01:44] Não quiseram problemas. [00:01:44][0.5]

Rafael Narrador: [00:01:45] E quando eu cheguei lá na Bahia foi essa mesma sensação que eu tive. [00:01:48][2.8]

Voz de uma moradora: [00:01:50] Minha filha com 16 anos saía para trabalhar aí ó. Eu trabalho, deixava a minha filha aqui com essas crianças. Minha filha com 16 anos. Se eu soubesse que tinha um homem desse aí eu ia fazer isso? Não ia! Jamais. Eu tinha abandonado a casa. Porque eu não sabia que esse homem estava aqui na Palmeira. A gente aqui, vizinho, não sabia. Nunca nem viu a cara deles. [00:02:10][19.4]

Rafael Narrador: [00:02:12] Quando eu perguntava para as pessoas sobre Adriano, as pessoas continuaram tendo medo dele. Mesmo depois de morto [00:02:19][6.8]

Voz de Morador 2: [00:02:21] Deixa pra lá. Não mexe com essas coisas não, pô. Acaba piorando a vida dos outros. O cara já tá morto, já cheia de problema aí pra lá e pra cá. [00:02:26][5.3]

Rafael Narrador: [00:02:27] O Adriano foi morto num vilarejo chamado Palmeira. É um lugar pequeno. Não é um lugar de casas ricas, não é um lugar de casas grandes, fazendas, não. São pessoas humildes que moram na beira de uma estrada. Nesse lugar só tem uma casa um pouco maior, a casa onde Adriano foi morto. A casa que ele estava se escondendo. No dia que ele foi morto estava fugindo. A polícia já estava perseguindo ele pela Bahia. Ele tinha pedido ajuda para um amigo um fazendeiro influente na região e ele ficou sabendo que a polícia já tinha a localização dele na noite anterior. Ele fala para o fazendeiro que ele tem que sair dali e o fazendeiro o leva para essa propriedade pequena. Que na verdade é uma casa com um jardim grande. E passa a noite ali. Só que, às seis da manhã, a polícia da Bahia já tinha preparado uma mega operação para prender ele. Setenta policiais. Todos do Bope... [00:03:25][57.6]

Voz de Morador 2: [00:03:28] Encostou uns carros aí. Tudo de preto. Eu pensei que era a Guarda Municipal, né? Que furou o pneu. Que era festa da Coritiba. Isso aí foi juntando polícia, mais polícia. Daqui da frente até aquele portão só tinha carro de polícia. Até os carros que vinha de lá de cima ou alguma moto tinha medo de passar e cortava lá por cima da linha pra sair lá na frente sabe, que era da polícia. [00:03:48][20.5]

Rafael Narrador: [00:03:51] Foram três policiais que entraram na casa. Segundo o relato oficial, o Adriano teria dado pelo menos sete tiros na direção dos policiais. Os dois policiais que estavam na retaguarda deram, cada um, um tiro. Foram os tiros que mataram Adriano. [00:04:06][14.8]

Voz de Moradora 3: [00:04:09] A gente nunca viu na nossa vida. A gente nunca tinha passado por aquilo. Eu estava enxertando castanha, sabe. Eu não sei que eu enxertei as castanhas tudo dentro um saco só. Eu não sabia se eu subia no telhado, não sabia onde eu entrava. E eu estava sozinha em casa. Nisso veio uma colega minha. E ficamos lá trancadas. [00:04:28][19.1]

Rafael: [00:04:29] Era de manhã cedo isso. [00:04:30][0.8]

Voz de Moradora 3: [00:04:32] Era sete horas mais ou menos. Eu fiquei foi com medo. A gente nunca viu um terror daquele. [00:04:36][4.6]

Rafael: [00:04:40] Mas teve gente que foi para rua ver. Muita gente foi pra rua ver... [00:04:42][2.8]

Voz de Moradora 3: [00:04:43] Loucos. Deus é mais [00:04:44][0.7]

Rafael Narrador: [00:04:49] Ali, Ninguém consegue esquecer esse dia. Pela quantidade de policiais, pelos tiros... Que ali nunca... Praticamente ninguém tinha ouvido tiro na vida antes. E o dia que Adriano foi morto está na cabeça das pessoas até hoje. Parece que não vai sair [00:05:04][15.6]

Rafael Narrador: [00:05:10] Um podcast original GloboPlay produzido pelo jornal O Globo. Pistoleiros. Episódio 2. Capitão Adriano. [00:05:27][3.8]

Rafael Narrador: [00:05:33] No submundo do crime do Rio, o Adriano tinha vários apelidos: Urso Polar, Maromba, Gordinho, mas o melhor deles era Fantasma. [00:05:43][10.0]

Simone Sibilio: [00:05:44] Ele não fala ao telefone. Nós não temos um único momento sequer a voz do capitão Adriano. [00:05:50][5.2]

Rafael Narrador: [00:05:50] Essa é a Simone Sibilio. Você já ouviu falar nela no fim do episódio passado. Só que agora está ouvindo a voz dela. Ela e Letícia Emeli foram as promotoras que mudaram os rumos do caso Marielle. Juntas elas foram ouvir o Orlando Curicica no presídio. Elas também foram responsáveis pelo inquérito que levou o Adriano a virar um foragido da Justiça. [00:06:11][20.6]

Simone Sibilio: [00:06:12] Porque ele não falava. Ele foi apreendido com quase 11 celulares, na Bahia, com vários chips, e quase nada relativo à própria organização ali estava [00:06:24][11.8]

Rafael Narrador: [00:06:25] o Adriano era aquele cara que cometia vários crimes e a polícia não conseguia chegar nele. Circulava pela cidade e ninguém via. [00:06:33][8.4]

Simone Sibilio: [00:06:34] Porque a troca de celulares era imensa. Ele mesmo tinha um protocolo de trocas constantes e orientava o secto dele, os comparsas dele, a trocar constantemente de celular. [00:06:45][10.9]

Rafael Narrador: [00:06:46] E esse silêncio sobre o Adriano demorou muito a ser quebrado. E a maior ironia é que foi quebrado por um crime que ele não cometeu. O Adriano não matou a Marielle. E segundo a investigação oficial do crime ele nem participou do homicídio. Mas foi a investigação do homicídio da Marielle que tornou possível que ele saísse da sombra. [00:07:09][23.3]

Simone Sibilio: [00:07:10] Eu costumo falar para os familiares, nós não podemos nunca mais trazer de volta a Marielle e Anderson, mas nós podemos trazer para elas um conforto no sentido de que, a partir dessa investigação, a gente conseguiu desbaratar organizações criminosas que já mataram pessoas e que poderiam matar mais pessoas. [00:07:30][19.8]

Rafael Narrador: [00:07:37] Chacoalhando esse submundo do Rio é que as promotoras chegaram no miliciano Orlando Curicica e o Adriano foi exposto. [00:07:44][7.2]

Locutor/Curicica: [00:07:46] O chefe? O chefe é o Capitão Adriano. [00:07:48][2.9]

Rafael Narrador: [00:07:53] A primeira informação sobre o Adriano da Nóbrega que eu consegui coletar chegou para mim por entrevistas que eu fiz com pessoas que conviveram com ele quando ele fazia o curso para oficial da Polícia Militar. Ele estava na academia da PM e ele contou essa história para colegas e para instrutores dele. De como ele quis entrar na PM ainda quando ele era criança, adolescente. O Adriano teve a infância e a adolescência divididas entre dois lugares: a Zona Norte do Rio, uma favela bem pequena onde ele morava com a mãe, e a região serrana do Rio. Uma fazenda onde o pai tinha um pequeno pedaço de terra. Essa área seguiria fazendo parte da vida dele por muito tempo, mas nesse momento ele era apenas uma criança vivendo entre os dois lugares. Na favela da Zona Norte, onde a mãe morava, ele estava bastante acostumado com operações policiais. Elas aconteciam praticamente todo mês. [00:08:53][60.4]

Rodrigo Pimentel: [00:08:54] O Bope estava enfrentando bandidos ali do Jacarezinho na saída do turno Noel Rosa de madrugada. [00:08:58][4.0]

Rafael Narrador: [00:08:59] Quem me ajuda a juntar os pedaços da história é o capitão reformado e ex caveira Rodrigo Pimentel, que você já viu por aqui. Ele foi um dos autores do livro que foi adaptado para o cinema e virou o filme Tropa de Elite. Pimentel inspirou o personagem do Capitão Nascimento [00:09:12][13.7]

Rodrigo Pimentel: [00:09:14] E ele lembrou que naquele dia a avó dele, a avó do Adriano, foi para uma janela olhar a ação do Bope [00:09:19][5.1]

Rafael Narrador: [00:09:20] o Bope avistou um criminoso ou alguém no Beco do lado da casa dele [00:09:24][4.4]

Rodrigo Pimentel: [00:09:25] e uma equipe do Bope ficou suspeitou da conduta da avó do Adriano e invadiu a casa. E o Adriano estava dentro de um quarto. [00:09:32][6.8]

Rafael Narrador: [00:09:33] Eles entraram na casa, postura de combate, mas quando viram que era uma senhora falaram com ela revistaram a casa e tal, foram respeitosos. [00:09:41][8.4]

Rodrigo Pimentel: [00:09:43] E o jovem Adriano, aluno do ensino médio, ele vai até a equipe do Bope, explica equipe olha a minha avó estava olhando pela janela porque ela ficou apreensiva curiosa e ela foi para a janela pra saber que estava acontecendo, mas a gente não tem nenhum tipo de envolvimento com o tráfico. E a equipe do Bope agradeceu ao jovem [00:10:00][17.3]

Rafael Narrador: [00:10:01] e foram embora [00:10:01][0.3]

Rodrigo Pimentel: [00:10:02] e anos depois, talvez cinco anos depois, disse que aquele momento fez com que ele tivesse a ideia de entrar para a polícia e entrar para o Batalhão de Operações Especiais. [00:10:13][11.3]

Rafael Narrador: [00:10:15] Essa é a primeira lembrança que as pessoas da PM têm do Adriano. Foi um episódio em que os policiais agiram dentro da lei e que os policiais foram respeitosos, uma abordagem padrão bem feita. O Adriano não seguiria exatamente esse caminho na PM. Na verdade a ilegalidade é que marcou a trajetória do Adriano na corporação. [00:10:35][20.3]

Rafael Narrador: [00:10:37] Ele entrou na PM no final de 96, aos 19 anos. Pouco tempo depois, ele já fez o Curso de Operações Especiais. Aquele mesmo curso que é mostrado no filme Tropa de Elite, o curso dos caveiras. Essa essa entrada do Adriano no BOPE é importante para entender o que essa geração de oficiais que entrava ali significava e significa para PM até hoje [00:11:00][23.4]

Vera Araujo: [00:11:01] Tem duas coisas que são importantes pontuar. Todo mundo sabia que o Adriano era uma pessoa altamente preparada para fazer execuções. [00:11:09][8.2]

Rafael Narrador: [00:11:11] Essa é a Vera Araújo. Ela é minha colega de redação. Também é repórter do jornal O Globo. E ela cobriu a trajetória do Adriano ao longo dos últimos 20 anos [00:11:19][8.2]

Vera Araujo: [00:11:20] Junto com a equipe que foi chamada de os galáticos [00:11:23][2.8]

Rafael Narrador: [00:11:24] a turma da Adriano, a turma de 2000, é conhecida na PM como os galáticos. O nome veio do apelido que o Real Madrid tinha na mesma época. Era um time de peso, os melhores jogadores do mundo. Era sinônimo de excelência em vários meios, inclusive no Bope. [00:11:38][14.5]

Vera Araujo: [00:11:39] Foi a melhor equipe daquela época. Os melhores instrutores. De formação excelente [00:11:44][5.3]

Rafael Narrador: [00:11:46] São oficiais que se destacavam muito naquela época como grandes oficiais operacionais. E vários deles inclusive chegaram a cargos da elite da corporação. Hoje tem pelo menos dois oficiais se formaram com Adriano que chegaram a cargo de comandante de batalhão. Inclusive um deles foi comandante do Bope [00:12:06][20.6]

Vera Araujo: [00:12:07] O Adriano, ele era treinador, né? E ele foi do Bope. Ele era tão bom, tão preparado, digamos assim, que ele acabou sendo um instrutor [00:12:16][8.6]

Rafael Narrador: [00:12:17] Só que vários outros galáticos, incluindo o Adriano, acabariam presos durante a carreira policial. O Adriano era um dos mais desacreditados naquele curso. Os instrutores e policiais que fizeram o curso com ele não achavam que ele passaria. Achavam que ele ficaria pelo caminho. Porque o Adriano não tinha o perfil de quem passava no curso. Geralmente quem passa no Curso de Operações Especiais é mais ágil, é menor, tem um biotipo que eles chamam de "mignom", que consegue passar por obstáculos, consegue entrar em becos muito pequenos, consegue entrar e sair de lugares sem ser percebido. E o Adriano era muito grande. Ele era muito espalhafatoso. [00:13:01][44.0]

Rafael Narrador: [00:13:03] Mas mesmo assim ele conseguiu passar. Ele passou no curso, e no final de 2000 se formou caveira oficialmente. Geralmente os caveiras, os policiais cursados, os policiais que fazem curso, passam a maior parte da carreira deles no Bope. Só que o Adriano não duraria muito no Bope. Ele seria expulso do batalhão por indisciplina. O Adriano feriu uma das coisas mais importantes entre os oficiais do BOPE: a questão hierárquica [00:13:31][27.5]

Rodrigo Pimentel: [00:13:32] Realizava operações no Complexo do Alemão utilizando seu carro particular, inclusive, não sei se um Santana um Opala, não sei, 4 portas. [00:13:40][7.2]

Rafael Narrador: [00:13:41] Ele costumava fazer operações clandestinas. Sem autorização do comando. E que nos dias em que não tinha operação programada, em que os policiais naquele plantão não estavam programados para sair para determinada favela, o Adriano enchia o carro de fuzis e de homens que estavam dispostos a fazer isso com ele... [00:14:00][19.7]

Rodrigo Pimentel: [00:14:01] E ele entrava na favela e embarcado no carro e o bandido jamais iria esperar que uma equipe de operações policiais entrasse na favela embarcada num carro, porque é muito perigoso você entrar num carro, então o bandido.. Ele, ele baixava a guarda [00:14:15][14.0]

Rafael Narrador: [00:14:16] As chamadas Tróias. E a população que mora em favelas do Rio conhece bem. Quando policiais entram na favela escondidos e atacam de repente entram num carro numa casa e fazem um ataque surpresa. [00:14:31][15.3]

Rodrigo Pimentel: [00:14:33] Isso pode dar certo uma, duas ou três vezes. Na quarta ou quinta vez vai terminar em tragédia para a equipe que está tentando realizar essa ação dentro de um carro. Ou então para um civil que entrou com um carro parecido na favela [00:14:45][11.8]

Rafael Narrador: [00:14:46] incursões que acabavam dando problema para o batalhão. Problema para que o batalhão se explicasse depois. [00:14:52][6.4]

Rodrigo Pimentel: [00:14:53] Essa operação era tão reprovável do ponto de vista técnico que o Adriano não compartilhava dessas operações com o escalão superior. Comandante do Bope não sabia que ele realizava operações desse tipo [00:15:08][14.8]

Rafael Narrador: [00:15:09] O Adriano parou de ser considerado um grande oficial. Um cara que tinha futuro no batalhão. Para ser considerado um oficial indisciplinado. E por isso acabou saindo do Bope com três anos de batalhão. Mas no Bope aconteceu uma coisa importante. Foi no Bope que o Adriano teve o primeiro contato com uma família que chegaria ao topo do poder no Brasil décadas depois: a família Bolsonaro. O Adriano foi instrutor de tiro do então deputado Flavio Bolsonaro no início dos anos 2000, quando trabalhava no Bope. [00:15:49][40.8]

Flavio Bolsonaro: [00:15:51] Eu, é assim importante eu contar como, o contexto de como é que eu conheci a família do Adriano. [00:15:55][4.5]

Rafael Narrador: [00:15:56] O Flávio contou essa história muitos anos depois, quando estava sendo investigado pelo Ministério Público sob suspeita da prática de raspadinha, né, que é o desvio do dinheiro público do gabinete dele. Ele disse que conheceu o Adriano justamente no estande de tiros do Bope. [00:16:11][14.5]

Flavio Bolsonaro: [00:16:13] Eu conheci o Adriano dentro do BOPE, ele me deu instrução de tiro por intermédio do Queiroz, do batalhão não sei qual [00:16:18][5.3]

Rafael Narrador: [00:16:19] Quem indicou o então tenente Adriano como professor de tiro para o então deputado estadual Flávio Bolsonaro foi um policial muito amigo da família Bolsonaro. O hoje conhecido nacionalmente Queiroz, Fabrício Queiroz. Que era sargento da PM na época. Que era próximo, inclusive, do pai do Flavio. O Jair. O Adriano e o Queiroz tiveram trajetórias que se encontraram na PM. Inclusive eles têm uma história juntos. [00:16:47][27.8]

Reportagem do Fantástico: [00:16:48] Fantástico teve acesso a um relatório do Ministério Público do Rio de Janeiro que questiona a investigação do que pode ter sido uma execução envolvendo Fabrício Queiroz e Adriano da Nóbrega quando os dois eram PMs. Os dois mataram um homem suspeito de tráfico na Cidade de Deus. Queiroz e Adriano alegaram legítima defesa na época [00:17:08][19.6]

Reportagem do Fantástico: [00:17:09] O inquérito que já dura 17 anos foi interrompido diversas vezes e pode perder a validade em três anos. [00:17:15][6.5]

Rafael Narrador: [00:17:18] O Adriano tinha saído do Bope há pouco tempo e tinha ido trabalhar com o Queiroz no Décimo Oitavo Batalhão. O Adriano, novato no batalhão, e o Queiroz, um sargento já experiente. Eles entraram na Cidade de Deus e, segundo o depoimento que o próprio Queiroz deu logo depois da ação, eles encontraram um grupo de pessoas armados que teriam feito disparos e os policiais revidaram. [00:17:43][25.1]

Rafael Narrador: [00:17:46] E depois desse suposto confronto os policiais disseram o que geralmente policiais que participam de confronto dizem: que encontraram o corpo de um homem, um homem chamado Anderson Rosa de Souza, junto a uma bolsa preta, caído no chão. A família diz que ele não tinha ligação com o tráfico, que era inocente e que ele foi executado pelos policiais. Ele morreu com três tiros, dois pelas costas, um pela frente. Essa diferença entre tiros na frente e pelas costas indicam, pelo menos, um disparo de confirmação. Em que a pessoa já foi atingida antes e depois tomou mais um tiro para confirmar a morte. O Adriano nunca respondeu por esse crime. O Queiroz até hoje não responde. O inquérito ainda está em andamento. [00:18:36][49.2]

Rafael Narrador: [00:18:37] Anos depois o Queiroz se tornaria assessor do Flavio Bolsonaro e contrataria duas pessoas ligadas ao Adriano para trabalhar no gabinete dele. A ex-mulher e a mãe. A ex-mulher do Adriano trabalhou por mais de dez anos no gabinete, só que o MP descobriu que as duas faziam parte do esquema de rachadinha. Juntas as duas repassaram 200 mil reais que ganharam, em tese, em salários pro Queiroz. Elas hoje são denunciados por esse crime. [00:19:05][27.9]

Rafael Narrador: [00:19:08] Esse homicídio que o Adriano cometeu junto com o Queiroz aconteceu quando ele estava lotado no 18º Batalhão. Poucos meses depois ele foi movimentado novamente. Saiu do 18º para o 16º Batalhão. O Décimo Sexto Batalhão fica em Olaria, uma área com algumas favelas. E o acontecimento que mudaria a carreira do Adriano de vez aconteceria em novembro de 2003. [00:19:34][25.9]

Vera Araujo: [00:19:35] Ele tinha uma guarnição, né, conhecida como guarnição do mal [00:19:39][3.5]

Rafael Narrador: [00:19:39] E era uma guarnição conhecida por uma prática que eu já mencionei aqui as mineiras [00:19:44][4.5]

Vera Araujo: [00:19:45] e esse grupo de policiais que extorquiam dinheiro das pessoas, pegavam e sequestravam, raptaram, sequestravam pessoas de algumas favelas e levavam proa galpões ou terrenos do Mercado São Sebastião, na Penha [00:20:03][18.5]

Rafael Narrador: [00:20:04] só liberavam a partir do momento em que elas pagavam pela liberdade [00:20:08][4.1]

Vera Araujo: [00:20:09] e ele levava para lá, torturava, saco na cabeça, choque elétrico... Tudo que você possa imaginar em termos de tortura, né, em métodos de tortura. [00:20:17][7.3]

Rafael Narrador: [00:20:17] Isso na época era uma prática comum. Cotidiana até. E ela foi denunciada [00:20:22][4.7]

Vera Araujo: [00:20:23] e nisso ele fez assim numa sequência... Três. De três pessoas dessa forma. A terceira vítima [00:20:30][7.0]

Rafael Narrador: [00:20:31] um guardador de carro [00:20:32][0.6]

Vera Araujo: [00:20:32] não tinha dinheiro todo. E combinou com a guarnição de Adriano de que "olha, eu não tenho esse dinheiro todo, eu não sô quem vocês estão pensando. Mas eu vou pedir. Mas se vocês me soltarem, eu vou tentar pedir para alguém me ajudar, eu vou pedir emprestado pra minha família. Aí eles aceitaram. Eles... Quer dizer, eles acabaram... "Ah, é isso mesmo?" Ah, Imagina. O cara tá sendo torturado. Um monte de policiais armados. E eles sabiam, eles tinham a força ali. Eles sabiam, imaginavam, que o cara não ia fazer nada de errado, por que eles se achavam os donos, os deuses dali, os senhores absolutos. [00:21:09][36.4]

Rafael Narrador: [00:21:10] Ele procura a polícia para denunciar que o Adriano e os policiais que trabalhavam com ele sequestraram o guardador de carros, torturaram ele e só liberaram quando ele pagou mil reais. E ele ainda ficou de pagar mais mil. Mas ao invés de fazer o segundo pagamento, ele foi fazer a denúncia [00:21:29][18.8]

Vera Araujo: [00:21:30] e que não seria só ele, outros moradores foram torturados também por essa guarnição, a guarnição do mal... Que falaram "Inclusive tem um nome, a Guarnição do Mal". Falei, gente essa é uma matéria. E nisso houve uma grande operação, eu cobri essa operação, fui lá... [00:21:45][14.9]

Rafael Narrador: [00:21:49] O nome desse cara era Leandro dos Santos Silva. Era casado, não tinha antecedente criminal nenhum, e ele trabalhava na frente do Copacabana Palace, guardando carros ali na Praia de Copacabana. E no dia seguinte que ele fez essa denúncia, ele foi assassinado a tiros, na porta de casa. [00:22:08][19.7]

Reportagem da TV: [00:22:09] Leandro dos Santos Silva, 23 anos, era guardador de carros da CET-Rio. Hoje ele foi assassinado de manhã com um tiro na cabeça. Na última sexta feira, Leandro denunciou o inspetor geral, o coronel João Carlos Ferreira, que tinha sido preso, torturado por dez policiais militares do 16º Batalhão da PM, em Olaria. Os policiais queriam 2 mil reais para deixá lo em paz. Esta testemunha contou que este mesmo grupo de PMs vem aterrorizando comerciantes e moradores da região. [00:22:37][27.9]

Entrevistado reportagem: [00:22:38] Eles começaram a sequestrar, torturar. Essas viaturas comparecem na favela dia sim, dia não, praticando horrores, dando tiro no meio da rua... Não é troca de tiro. Eles que chegam atirando. Pega criança, pega morador... [00:22:54][15.5]

Rafael Narrador: [00:22:55] O laudo da necropsia provou que ele tinha lesões compatíveis com sufocamento, uma tortura que ele sofreu e com as agressões que ele relatou. A investigação do homicídio concluiu que o tiro que matou Leandro de fato partiu de um PM. Um PM da Patrulha do Adriano. E um PM que a gente vai ouvir falar mais dele ao longo desse episódio. O soldado Luiz Carlos Felipe Martins, o Orelha. [00:23:21][26.5]

Rafael Narrador: [00:23:24] Tanto na PM quanto fora dela, o Orelha foi um braço direito do Adriano. E naquele mesmo dia, com o escândalo que esse homicídio provocou, isso foi manchete em todos os jornais, o comandante do Batalhão caiu [00:23:38][14.3]

Reportagem da TV: [00:23:39] Os dez policiais militares prestaram depoimento na delegacia. O comandante do batalhão foi exonerado e preso porque ameaçou os repórteres que registravam imagens dos militares suspeitos. [00:23:50][10.4]

Comandante na reportagem: [00:23:51] Eu vou processar vocês se vocês tirarem ou fazer qualquer fotografia [00:23:55][4.0]

Reportagem da TV: [00:23:56] Ele vai ficar preso por 30 dias. Os outros dez PM acusados de homicídio também tiveram a prisão decretada. [00:24:05][8.6]

Rafael Narrador: [00:24:08] Aí a trajetória do Adriano começaria a mudar a PM. No final daquele dia, o Adriano iria entrar no Batalhão Especial Prisional, onde ele passaria os próximos anos e ele se aproximaria cada vez mais do submundo do crime do Rio. Mas antes de se aproximar do submundo o Adriano foi homenageado. Em junho de 2005. Preso. O Adriano ganhou a medalha Tiradentes. Que é a maior honraria da Assembleia Legislativa do Rio. Quem concedeu a Medalha para ele foi o então deputado estadual Flavio Bolsonaro. O ex aluno. Poucos meses depois de ganhar a medalha, o Adriano foi condenado. Condenado pelo assassinato do flanelinha a 19 anos e seis meses de prisão. E logo depois da condenação, no dia seguinte, foi defendido na tribuna da Câmara dos Deputados lá em Brasília pelo então deputado federal Jair Bolsonaro. [00:25:09][60.3]

Jair Bolsonaro - deputado: [00:25:10] Pela primeira vez ao comparecer integralmente a um tribunal de júri na segunda feira próxima passada estava sendo julgado um tenente da Polícia Militar de nome Adriano. A acusação era que, numa incursão, numa favela, teria sido executado um elemento. Que apesar de envolvimento com o narcotráfico, a imprensa deu a conotação que ele era apenas um simples flanelinha. E todas as testemunhas de acusação, seis no total, todos tinham envolvimento com o tráfico. Todos. O que é muito comum. E ele era o décimo militar a ser julgado. E o que é... O que é curioso, deputado Betão, vossa excelência que é do Rio de Janeiro, é que o militar que havia apertado o gatilho e matou realmente aquele elemento, ele foi absolvido. E o tenente, que era o comandante da operação, foi condenado a 19 anos e seis meses de prisão, inclusive enquadrado como crime hediondo. [00:26:17][67.0]

Rafael Narrador: [00:26:18] E do alto da tribuna Bolsonaro disse que considerou a sentença injusta, chamou a vítima, o Leandro, de elemento envolvido com o narcotráfico, e o Adriano de brilhante oficial. [00:26:29][11.1]

Jair Bolsonaro - deputado: [00:26:32] Se esquecendo do fato de que ele sempre foi um brilhante oficial e foi, se não me engano, o primeiro na Academia da Polícia Militar. [00:26:38][6.4]

Rafael Narrador: [00:26:39] Me impressiona é que vários policiais militares são denunciados por homicídios à Justiça e alguns até condenados. Mas nem todos são defendidos na tribuna da Câmara. O Adriano foi. Tinha alguma coisa de especial na relação do Bolsonaro com aquele policial. Foi dentro da cadeia, justamente nesse período, que o Adriano começou a trabalhar para o crime. Quem fez o convite foi um fazendeiro que já conhecia o Adriano há muitos anos e que visitou ele dentro da cadeia. O nome dele é Rogério Mesquita. Muito influente na região de Guapimirim, Cachoeiras de Macacu, na Região Serrana do Rio. [00:27:18][39.0]

Rafael Narrador: [00:27:20] E ele conhecia o Adriano desde pequeno, porque o Adriano frequentava fazendas naquela região. O pai do Adriano tinha um pedaço de terra ali. Esse pedaço de terra que o pai de Adriano tinha ficava numa região dominada por uma família de bicheiros. [00:27:35][14.6]

Rafael Narrador: [00:27:39] O Rogério Mesquita estava ali como um administrador. Um administrador da riqueza de uma das famílias que dominavam o bicho. E naquela época tinha um convite para fazer pro Adriano. A família estava vivendo um momento difícil. Estava vivendo uma guerra interna. E eles precisavam de policiais capazes. Policiais operacionais que pudessem fazer a segurança dos integrantes desse clã. E o policial mais capaz que o Rogério Mesquita conhecia, que inclusive conhecia desde pequeno, era o Adriano. [00:28:14][34.8]

Rafael Narrador: [00:28:17] Então ele foi na cadeia e perguntou para Adriano se ele poderia trabalhar para a família. O Adriano na época estava passando por um momento difícil. Antes de ser preso, ele fazia serviços particulares. Ele tinha trabalhado numa casa de shows na Lapa, ele tinha trabalhado para um empresário do ramo das telecomunicações. Então ele complementava a renda de outras maneiras. Ele era um cara de uma família muito pobre. Então esse complemento era fundamental para ele. Na cadeia, ele perdeu essa fonte de renda. E o que aconteceu foi que ele ofereceu o serviço dele. Mas como estava preso, ele não podia fazer a segurança dessas pessoas. Mas ele podia indicar. Então praticamente o que ele ofereceu foi: "vocês me pagam 5 mil reais e eu indico policiais do Bope para fazerem a segurança das pessoas dessa família". E foi isso que aconteceu. [00:29:08][51.0]

Rodrigo Pimentel: [00:29:09] Perder Adriano para a contravenção foi uma... Foi uma grande decepção. E eu não sei até que ponto ele ter estado no Bope em algum momento difícil lá do Bope, de muito combate, eu não sei até que ponto isso favoreceu essa migração dele. Por quê? Porque quem está no crime procura guarda costas. E vai procurar guarda costas aonde? Nas unidades policiais onde os policiais são combativos. Qual é a melhor? É o Bope. [00:29:42][32.6]

Rafael Narrador: [00:29:46] Por 5 mil reais ele indicou um outro oficial e vários praças do Bope para que pudessem fazer a segurança do clã Garcia, uma das famílias mais influentes do jogo do bicho no Rio. Ele ficou por mais ou menos um ano indicando policiais para serem guarda costas da família. Só que, em setembro de 2006, o Adriano foi absolvido, em segunda instância, do assassinato do Leandro, guardador de carros. E pode sair da cadeia. A partir de então ele assumiria como segurança principal da família. [00:30:17][31.3]

Rafael Narrador: [00:30:51] A busca por segurança era justificada. Na época, o clã Garcia vivia uma crise. Os Garcia controlavam e até hoje controlam o jogo do bicho na Zona Sul e na Tijuca bairros ricos e bairros importantes sessa geografia do crime organizado aqui no Rio. Na época, o nome mais importante da família era o Waldomiro Paes Garcia, o Maninho. Ele era o cabeça da família e era o cara que controlava o jogo. O Maninho era uma figura conhecida no Rio. Ele era o patrono do Salgueiro, uma das escolas de samba mais famosas principalmente ali no final dos anos 90 e início dos anos 2000. Era um cara violento, arrogante, falastrão e abusivo com as mulheres. Só que em 2004, quando Adriano ainda estava preso, ele foi executado. Ele estava saindo de uma academia junto com o filho adolescente e ele foi emboscado e morto. [00:31:49][57.4]

Marcelo Pasqualetti: [00:31:50] O Maninho já havia sido assassinado na saída de uma academia de ginástica. O filho dele, menor de idade, na garupa, é poupado na execução. [00:31:58][7.8]

Rafael Narrador: [00:31:59] Esse é o Marcelo Pasqualetti. Policial federal que trabalhou no inquérito do caso Marielle e já apareceu aqui. Ele também investigou Adriano da Nóbrega. [00:32:06][6.9]

Marcelo Pasqualetti: [00:32:06] Com isso o espólio do Maninho fica difuso. [00:32:10][3.4]

Rafael Narrador: [00:32:11] A morte do Maninho não foi um episódio isolado. Um mês depois, morreu o patriarca da família. O pai dele. Que era conhecido como Seu Miro. Ele já estava doente. Já estava quase cego e, enfim, não participava dos negócios. Os negócios ficavam com o filho mas a família ficou sem sua cabeça. Depois das mortes a família rachou. E todos os parentes vivos começaram a se acotovelar, a brigar por um naco do espólio. Todo mundo queria um pedaço e naquele momento o principal herdeiro, o primeiro herdeiro, era o irmão do maninho. Alcebíades. Alcebíades Garcia, conhecido como Bide. Logo depois das duas mortes, ele assume o papel de patrono do Salgueiro e ele vira o cabeça da organização. E o Rogério Mesquita, que era o operador da família, o braço direito do Maninho, começa a trabalhar para ele. Só que as outras partes se sentiram prejudicados. É aí que a história começa. [00:33:18][67.3]

Marcelo Pasqualetti: [00:33:21] Porque ele tem duas filhas que, por uma ordem da máfia que comanda o jogo, não podem assumir, por serem mulheres, e o filho homem é muito novo ainda para tomar a frente. [00:33:31][9.8]

Rafael Narrador: [00:33:33] Acabou que os maridos tomaram a frente. A Shanna se casou com um homem chamado José Luís de Barros Lopes, o Zé Personal, que tem esse nome justamente porque era personal trainer do Maninho e da filha. E a Tamara Garcia, a segunda filha, e o Bernardo Bello. A Tamara casou com Bernardo, que era um vendedor de uma loja no shopping. Os dois se conheceram também numa academia. Essas partes começaram também a se armar para tentar tirar o Bid do posto de chefão. [00:34:06][32.9]

Rafael Narrador: [00:34:09] E foi por isso que o Rogério Mesquita, operador da família, o cara que agia nos bastidores, foi chamar o Adriano na cadeia. Ele temia que o Bid fosse morto e sabia que, com uma segurança formada por agentes do Bope, isso não aconteceria. É assim que o Adriano começa a trabalhar na família como segurança do Bide. Mas isso não duraria muito tempo. A trajetória do Adriano na contravenção é marcada por traições. Ele acabaria se envolvendo em episódios que fariam com que ele mudasse de lado várias vezes. E o primeiro a ser traído foi o próprio Bid. [00:34:50][41.4]

Rafael Narrador: [00:35:01] A briga pelo espólio acabou afastando vários membros da quadrilha do Maninho do negócio. Eles estavam com medo de morrer, estavam se sentindo ameaçados e, de fato, saíram do negócio. Isso abriu espaço para o Zé Personal. O Zé Personal não era nada quando o Maninho estava no poder. Ele só era marido da filha dele. Ele começa a querer mostrar que um dia ele poderia ser o chefe do bando. Poderia ser o chefe do clã Garcia. Isso acaba causando medo nos comparsas. É assim que ele acaba virando gerente dos pontos de bicho da família. Quando o Zé Personal começa a crescer, o Rogério Mesquita, o padrinho do Adriano, o cara que trouxe o Adriano para a família, começa a sentir que o Adriano estava cada vez mais próximo do Zé Personal e não do Bid. [00:35:56][54.0]

Rafael Narrador: [00:35:58] O Adriano acaba largando a segurança do Bid fazendo a segurança do Zé Personal aos poucos. O Zé Personal nomeia o Adriano como chefe de segurança dos pontos de bicho. Essa mudança configura uma traição, porque inicialmente a missão que o Rogério tinha dado para o Adriano era resguardar a vida do Bid, que ele considerava o herdeiro legítimo. A partir do momento que o Adriano vira casaca, os dois racham. [00:36:30][31.7]

Marcelo Pasqualetti: [00:36:34] A partir dali a gente já começa a ter história de assassinatos, uma série deles cometidos pelo grupo do Adriano, grupo capitaneado pelo Adriano. [00:36:42][8.3]

Rafael Narrador: [00:36:44] A crise entre o Adriano e o Rogério começa com provocações e acaba chegando a um ponto de não retorno. O Adriano tenta matar o cara que levou ele pra família. Num atentado em Cachoeiras de Macacu, na saída de um evento da pecuária da região, o Rogério Mesquita é emboscado. O carro onde ele estava é atacado a tiros. Só que ele estava com um policial, um segurança, o policial atira e ele consegue sobreviver. Ele consegue fugir. E logo depois desse atentado o Rogério Mesquita procura polícia e começa a falar. [00:37:31][46.7]

Rafael Narrador: [00:37:35] Ele conta tudo. Um depoimento de 11 páginas, ele detalha tudo o que sabe sobre a entrada do Adriano na contravenção. Todos os homicídios que ele tinha cometido até ali e acusa formalmente o Adriano e o Zé Personal de serem os autores do atentado contra sua vida. Tudo que a gente sabe sobre a entrada da Adriano no crime está ali, contado naquelas onze páginas. Ele diz que foi à cadeia, que trouxe o Adriano. Diz que o Adriano faria a segurança do Bid. Conta da traição e conta que o Zé Personal começou a usar os serviços do Adriano como matador de aluguel. Começou a pagar o Adriano para tirar do mapa as pessoas que poderiam entrar no seu caminho rumo ao topo da hierarquia do bicho. [00:38:22][47.8]

Rafael Narrador: [00:38:27] O Zé Personal tinha uma missão para o Adriano. Na saída de um pagode na quadra do Salgueiro. Foi em janeiro de 2007. O Adriano ficaria estacionado com o carro na saída da quadra. Esperaria esse desafeto do Zé Personal sair do pagode e perseguiria o carro dele pela Tijuca até o momento, o melhor momento para se emboscar esse carro. [00:38:55][28.1]

Rafael Narrador: [00:39:02] Isso de fato aconteceu. O carro foi em direção ao bairro de Jacarepaguá. No final da via emparelha e atira. Só que não era o desafeto do Zé Personal que tava dentro. Nesse dia o Adriano matou dois inocentes. Um casal de namorados que estava curtindo o pagode. O Rafael e a Juliana. Eles tinham ido para o pagode e ele, no final, tinha combinado de levá-la para casa. Ela morava em Jacarepaguá. O casal foi morto no meio da guerra dos Garcia. [00:39:34][31.7]

Rafael Narrador: [00:39:36] Um mês depois, o desafeto Zé Personal é morto da mesma forma. Numa emboscada, saindo da quadra, com o mesmo modus operandi. No depoimento, o Rogério Mesquita conta exatamente essa história. Segundo ele, o Zé Personal, numa conversa no haras que a família tinha, disse: "Porra, O capitão Adriano fez merda. Matou um casal na Grajaú-Jacarepaguá. Matou enganado". Ponto. Apesar dessa acusação, o Adriano nunca respondeu pela morte dos inocentes. [00:40:08][32.2]

Rafael Narrador: [00:40:11] No depoimento, o Rogério Mesquita também cita outras mortes. Ele diz que o Adriano tinha se especializado em matar e que ele usava a mesma estratégia para matar todas as vítimas. Ele diz o seguinte, abre aspas: "Ele usa um fuzil com a coronha cortada e se coloca no banco de trás do veículo, de forma que posiciona somente o cano da arma para o lado de fora evitando assim que as cápsulas saiam para fora do veículo. Tirando a possibilidade de um confronto de balística." Fecha aspas. [00:40:41][29.8]

Rafael Narrador: [00:40:45] Depois que Rogério resolveu falar, ele foi morto. [00:40:48][2.8]

Reportage, CBN: [00:40:52] Informações no Rio agora. Oi, Taís. Boa tarde [00:40:54][2.2]

Taís - Reportagem: [00:40:56] Boa tarde. Foi identificado como Rogério Mesquita, de 55 anos, o homem assassinado na esquina das ruas Maria Quitéria e Visconde de Pirajá, em Ipanema, na Zona Sul do Rio, no final desta quarta-feira. Segundo a delegada assistente Leila Goulart, que investiga o caso, Rogério estava indo para a academia a pé quando foi morto. Os criminosos dispararam pelo menos três vezes e um dos tiros atingiu a nuca da vítima. Ele chegou a ser levado para o Hospital Miguel Couto, no Leblon, mas não resistiu aos ferimentos. Rogério era pecuarista, dono de uma fazenda em Cachoeiras de Macacu, na Região Serrana do Rio. Um amigo de Rogério contou que ele já tinha sofrido um atentado no ano passado quando levou um tiro na perna. O motivo seriam denúncias feitas pela vítima contra a máfia dos caça níqueis. A principal linha de investigação é a execução [00:41:43][46.9]

Vera Araujo: [00:41:45] Ele sempre escapava de qualquer tipo de condenação. Por que as pessoas ficavam com medo. As testemunhas chegavam lá e diziam: Ah, eu não lembro dele. Houve uma situação dessas no caso do Rogério Mesquita. Rogério Mesquita sofreu um atentado e depois ele foi morto de fato. Poucos meses depois. Não chegou nem a ser um ano. Ele foi assassinado, o Rogério Mesquita. Em plena Praça Nossa Senhora da Paz, em Ipanema [00:42:09][24.2]

Rafael Narrador: [00:42:11] Ele foi assassinado de manhã, no horário em que babás e crianças lotavam a Praça Nossa Senhora da Paz que fica do lado do local do crime. Nessa época, o Adriano ainda era policial. Ele ainda recebia dinheiro pago pelo Estado. Mas o atentado contra o padrinho colocou Adriano no radar da PM. Ele foi afastado do serviço mas seu salário continuou caindo na conta todo mês. Mesmo com o nome estampado no depoimento do Rogério após sofrer o atentado, o Adriano nunca respondeu pelo assassinato que vem em seguida. O nome dele tão raro nos papéis só foi ligado ao crime muitos anos depois. Apareceu no relato do Orlando Curicica. [00:42:50][38.9]

Locutor/Curicica: [00:42:51] Pois então vamos lá. O Maninho, Maninho... Maninho, aquele do Salgueiro. O Maninho morreu e teve uma guerra na família, uma guerra por causa do espólio. Uma guerra interna horrível entre as irmãs... E o Rogério Mesquita... É, o Rogério Mesquita que foi o cara que ficou na frente. Ficou de frente nessa história tomando conta desse episódio do Maninho. [00:43:17][26.2]

Rafael Narrador: [00:43:18] Essa é a voz do nosso locutor interpretando o depoimento que Orlando Curicica deu para as promotoras. Aqui ele fala sobre a guerra na família Garcia [00:43:25][7.1]

Locutor/Curicica: [00:43:27] E o grupo se reuniu, então, pela primeira vez, até onde eu sei, para matar esse cara, entendeu. E a partir da morte desse Rogério, meu chapa. Aí começa a sucessão de mortes envolvendo aquela área da Tijuca. Esse é o episódio do Maninho, entendeu? [00:43:48][21.3]

Rafael Narrador: [00:43:53] A morte de Rogério Mesquita levou Adriano a um novo patamar no mundo do crime. Ele passou a administrar a fazenda. Aquela mesma onde ele passou a infância. O Adriano ainda não tinha chegado ao topo, mas estava bem perto dele. Administrar a fazenda e seguir como chefe da segurança dos pontos do bicho levou Adriano ao posto de número dois da quadrilha de Zé Personal. Já o Bid ficou com medo de morrer e se afastou dos negócios. Mais uma peça fora do tabuleiro. Àquela altura o Adriano tinha sentido um pouco do gosto do poder. E queria mais. O Adriano não queria mais ser só um segurança. Ele queria ser sócio. Dono. E a sede pelo comando só aumentava. [00:44:37][44.1]

Rafael Narrador: [00:44:45] O Zé Personal tinha o costume de se consultar espiritualmente. Ele ia regularmente para um terreiro, um Centro Espírita de Umbanda que ficava na Praça Seca, em Jacarepaguá, na Zona Oeste do Rio. Era setembro de 2011, uma sexta feira à noite, oito horas da noite, mais ou menos. Ele marcou uma consulta com o pai de santo e saiu com seu pai e com um secretário para ir para esse terreiro. O Centro Espírita era formado por duas casas: uma maior, que ficava na frente, que funcionava como sala de espera nos dias comuns e era usada nos dias de festa. E nos fundos, atrás de um jardim, ficava uma outra casa. Com várias salinhas onde as consultas eram feitas. Naquele dia, o pai de Zé Personal ficou na casa da frente e ele foi para os fundos com o pai de santo, o secretário fica na porta. [00:45:35][49.9]

Rafael Narrador: [00:45:36] Mas não foi só o Zé Personal que entrou no centro espírita naquela noite. Pouco depois, um carro estaciona na porta e saíram três homens. Todos encapuzados, com coletes à prova de bala e armas curtas, pistolas. Eles entraram no centro e logo viram o pai do Zé Personal na sala de espera. Primeiro eles disseram que eram policiais e que estavam procurando o centro. O pai disse, assustado, "fica por ali". Um deles ficou com o pai dele enquanto os outros dois foram para os fundos. Primeiro, no jardim, eles veem o secretário e logo atiram. Ele morre ali. Eles arrombam a porta da frente da sala, onde estava o bicheiro, e atiram. Dão vários tiros. Mais de dez disparos. E acertam vários nas costas e na cabeça do Zé Personal, que morre na hora. O pai de santo foge assustado [00:46:32][55.6]

Reportagem da TV: [00:46:33] E foi enterrado ontem o corpo do genro do bicheiro Valdomiro Paz Garcia, o Maninho, que foi assassinado em 2004. José Luiz de Barros Lopes, o Zé Personal, foi morto num centro espírita na Praça Seca, em Jacarepaguá, na noite de sexta feira. Três homens encapuzados invadiram o templo e fizeram os disparos. Um amigo dele também morreu. A polícia investiga se o crime está associado à disputa por pontos do jogo do bicho e controle de máquinas caça níqueis na Zona Sul e na Tijuca. [00:47:01][28.5]

Rafael Narrador: [00:47:03] Os três assassinos libertaram o pai de Zé Personal e saíram pela porta da frente do Centro. Entraram no carro e fugiram pela escuridão. Depois disso, nunca foram descobertos. [00:47:14][10.8]

Vera Araujo: [00:47:16] Todo mundo sabia que Adriano era uma pessoa muito temida, que tinha vários crimes nas costas. Mas por ele ser temido e também pelas delegacias, delegados não terem tido muita eficiência, digamos assim, para não dizer outra coisa, né? Os relatórios ficavam muito... Sem informação precisa... Sem detalhamento. E acabavam sendo arquivados. [00:47:39][23.4]

Rafael Narrador: [00:47:41] Até hoje ninguém responde por esse crime. Só que na semana seguinte ao assassinato a polícia já tinha uma pista de quem eram aqueles três homens. A pista foi dada em um depoimento na Delegacia de Homicídios. O pai de Zé Personal foi até lá e contou que reconheceu o homem que ficou com ele na sala de espera. Ele disse que reconheceu a voz porque aquele homem já tinha trabalhado muitos anos com o filho dele e ele já tinha ouvido muitas vezes aquele homem falar. [00:48:11][30.4]

Rafael Narrador: [00:48:12] Ele era o Luiz Felipe Martins, o Orelha, o mesmo policial que tinha matado o guardador de carro junto com Adriano anos antes. Ele foi perguntado se tinha certeza e disse que sim, porque conversou com Luiz várias vezes, até porque conhecia há anos. No final do depoimento dele ele ainda disse que o Orelha trabalhava para o capitão Adriano. Vários parentes de Zé Personal foram ouvidos e deram mais provas de que o Adriano de fato tinha participado do crime. Eles contaram que, meses antes, o Adriano e Zé Personal romperam. [00:48:48][35.9]

Rafael Narrador: [00:48:50] Esse rompimento teria acontecido, segundo um deles, porque o Adriano administrava a fazenda da família e a família havia percebido o desfalque que estaria ocorrendo na fazenda. De gados e medicamentos. E como Adriano, na época, era o administrador, ele foi demitido. Só que o Adriano não aceitou muito bem essa demissão no dia que ele foi demitido. Ele saiu do apartamento da família irritado como contaram algumas pessoas que estavam presentes e voltou para a fazenda cobrando, querendo os animais dele de volta. Ele voltou com vários capangas, todos eles armados e determinou que todos os seus animais fossem colocados num caminhão. [00:49:32][42.4]

Rafael Narrador: [00:49:35] Uma pessoa até tentou dissuadir o Adriano da ideia. Perguntou que ele estava fazendo aquilo. E ele disse: Se você quiser ver seu filho crescer, é melhor você não se meter. E foi embora. Basicamente o que aconteceu foi: a polícia ouviu Adriano. Ele disse que tinha um álibi para o dia do crime. Não chegou a comprovar. Disse que a filha dele estava doente, que ele estaria no hospital. E o Orelha, por sete anos, nem chegou a ser ouvido. O inquérito ficou parado. Parado mesmo. Por sete anos, nada foi feito. Nenhuma diligência. Eu sei disso porque eu peguei o inquérito. Agora, em 2021. Ele chegou a ser até destruído. Ele teve as páginas danificadas por uma goteira, que aconteceu anos depois e inundou a delegacia. E o Orelha ele só foi ouvido depois que a Marielle foi morta e que o Adriano passou a ser investigado tanto pelo crime da Marielle quanto por outros vários homicídios. Ele entrou de novo no olho do furacão. O Adriano morreu sem nenhuma condenação por homicídio. [00:50:43][68.6]

Rafael Narrador: [00:50:47] Com Zé Personal fora do mapa, o Adriano fez um acordo com o restante da família Garcia e passou a ser sócio do clã. Passou na frente de toda a linha sucessória e, em menos de dez anos, foi de segurança a chefão. Você provavelmente já ouviu falar que o Adriano da Nóbrega era miliciano, mas quando ele chega ao topo, lá em 2011, o Adriano só era conhecido como bicheiro. Ele toma parte dos pontos de jogo da família Garcia. E mais do que isso. Nessa escalada o Adriano também toma o poder na terra onde ele cresceu. Virou dono da fazenda que frequentava desde a infância. [00:51:22][34.6]

Rafael Narrador: [00:51:24] E foi essa relação do Adriano com bicho que empurrou ele para fora da PM. Em 2014 ele finalmente foi expulso da corporação. E agora, sem nenhuma ligação com o Estado, o Adriano estava livre para se dedicar exclusivamente à vida no crime. Mas ele ainda não estava satisfeito. O Adriano queria expandir suas atividades no submundo. E aí ele transformou a fama de matador fantasma em negócio. Seus capangas, em funcionários. Foi assim que ele criou o consórcio de matadores que, anos depois, seria conhecido nacionalmente como o Escritório do Crime. Por ser tão temido, existem poucos relatos com o nome do Adriano, mas um deles você já ouviu aqui. Quem fala sobre esse momento de transição na vida dele é Orlando Curicica, achando que ia ser condenado. [00:52:14][50.4]

Locutor/Curicica: [00:52:16] Então, as senhoras podem ver, ó. O capitão Adriano, ele meio que se afasta desse negócio de matar, né? Aí, ele recebe as missões. Mas ele terceiriza. [00:52:28][11.8]

Rafael Narrador: [00:52:29] No depoimento os promotores Curicica contou que, nessa época, o Adriano tinha sob seu comando um matador exemplar. Era como se fosse a galinha dos ovos de ouro do chefe. O funcionário número um [00:52:40][11.6]

Locutor/Curicica: [00:52:41] Quem desenrola, quem resolve, quem vê, quem vai... É o Batoré. [00:52:46][4.7]

Rafael Narrador: [00:52:51] Pistoleiros é um podcast original Globoplay produzido pelo jornal O Globo. Ao longo de cinco episódios, eu vou contar como Rio de Janeiro virou uma fábrica de matadores de aluguel. [00:53:00][9.1]

Rafael créditos: [00:53:03] Eu sou Rafael Soares fiz a reportagem da série. A direção é da Mariana Romano, que também fez a montagem. O roteiro é do Edu Araújo, Rafael Soares e Mariana Romano. O Saulo Pereira Guimarães fez a pesquisa e a checagem. O nosso locutor é o Ronaldo Tapajós. Quem operou o audio foi o Marco Aurélio Cardoso e Fernando Lemos fez o som direto na viagem a Esplanada. Contamos com a consultoria de Marcelo Pasqualetti, trilha sonora de Mariana Romano, com percussões de Pedro Fontes. Guitarras adicionais Guilherme Lyrio e música vocal de Gabriela Reily. Usamos material de arquivo da TV Globo, da Rádio CBN. A produção executiva é do André Miranda e do Alan Gripp. O Alexandre Maron assina desenvolvimento e a coordenação do projeto. Esse episódio foi gravado nos estúdios da Rádio CBN. Até a próxima. [00:53:03][0.0]

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