Sérvios da Bósnia comemoram o dia nacional em meio a temores de novo conflito

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O líder sérvio-bósnio Milorad Dodik (AFP/ELVIS BARUKCIC) (ELVIS BARUKCIC)

Na véspera do Dia Nacional dos Sérvios na Bósnia, Mira Vuletic não guarda o espírito festivo devido às crescentes especulações de uma secessão que instilam o medo do regresso dos anos sombrios de conflitos internos.

O feriado de domingo marca a criação da República Srpska, a entidade sérvia da Bósnia declarada há três décadas, um evento considerado um preâmbulo da guerra de 1990 que matou 100.000 pessoas.

“Estão semeando pânico e isso me assusta”, diz Vuletic, aposentada de 70 anos e uma das poucas pessoas que quis se identificar no leste de Sarajevo, área sob jurisdição da República Srpska (RS).

“Mas acredito que fazem isso para esconder seus roubos e maquinações”, acrescenta Vuletic, culpando os líderes de todos os grupos étnicos pela corrupção da Bósnia.

As tensões vêm crescendo há meses no país. Em dezembro, o líder sérvio-bósnio, Milorad Dodik, lançou um plano para se desligar das instituições centrais, incluindo os sistemas judiciário, tributário e militar.

Isso lhe rendeu novas sanções dos Estados Unidos na quarta-feira, que o acusa de tentar minar os Acordos de Paz de Dayton que encerraram o conflito na Bósnia em 1995.

Com esse tratado, a Bósnia foi dividida em duas entidades: uma para a comunidade sérvia e a outra administrada por uma federação muçulmano-croata.

Apesar das sanções, as comemorações do dia nacional continuaram esta semana, com os funcionários municipais pendurando as bandeiras vermelha, branca e azul em todo o leste de Sarajevo.

O feriado é visto como uma "provocação" pela comunidade muçulmana, alvo de grupos paramilitares sérvio-bósnios apenas três meses após a declaração unilateral da República Srpska em 1992.

Para o 30º aniversário, as autoridades da RS planejam três dias de comemorações, que incluirão um desfile de suas forças policiais na capital sérvia da Bósnia, Banja Luka.

- "Mais conflito" -

A retórica cada vez mais agressiva de Dodik, juntamente com seus planos de se retirar do governo da Bósnia, lançam uma longa sombra sobre o aniversário deste ano.

“Ninguém deve jamais descartar a possibilidade de conflito na Bósnia”, adverte Srecko Latal, editor da Balkan Insight, uma rede regional de jornalismo investigativo.

“Dodik vai cada vez mais longe em uma história que pode terminar em uma tentativa de secessão que não poderia acontecer sem mais conflitos”, acrescenta.

A União Europeia tem permanecido relativamente distante, embora Washington tenha assumido uma posição mais dura com a nova rodada de sanções. Mas Dodik não cede.

"Não tenho ativos nos Estados Unidos. É uma pura farsa proibir-me de administrar ativos que não tenho", disse Dodik esta semana, acusando Washington de conspirar para "criar um país para muçulmanos" na Bósnia.

Muitos não compartilham desse clima conturbado no leste de Sarajevo, vendo como prioridade as múltiplas dificuldades do cotidiano deste país empobrecido.

A crise política se somou as adversidades da Bósnia: baixos salários, corrupção sistêmica e um governo disfuncional.

Sem muitas oportunidades, os bósnios emigraram em massa, com quase meio milhão de pessoas deixando este país na última década, de acordo com a ONG Union for a Sustainable Return.

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