Símbolo da irreverência carioca, Nelson Couto, o Xerife da Confraria dos Garotos, morre aos 80 anos

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Símbolo do bom humor carioca, Nelson Couto, também conhecido como Xerife, morreu no domingo, aos 80 anos. Ele foi fundador e presidente da Confraria do Garoto, um grupo irreverente formado por 13 amigos, em 1974, que promovia críticas e homenagens a personalidades do Rio. Durante muitos anos, os confrades tinham como tradição, todas as sextas-feiras 13, às 13h, benzer com galhos de arruda a cidade e seu povo contra o mau-olhado.

Vestidos com roupa branca, chapéu de coco preto, gravata borboleta e avental, os confrades se apresentavam como garçons para servir a cidade do Rio. Desde o início, a Confraria teve como bandeira "defender e incentivar ações de preservação do patrimônio natural, histórico e cultural do Rio". Certa vez, quando jovens paulistas picharam o Cristo Redentor, a Confraria foi a São Paulo e, no Viaduto do Chá distribuiu flores aos paulistanos.

Em 1985, os confrades fizeram um grande churrasco na esquina da Rua do Rosário com a Avenida Rio Branco, no Centro do Rio, para prestar uma homenagem ao jornalista Ibrahim Sued. O local passou a ser chamado de Largo da Confraria.

Em outra ocasião, em 2003, para chamar atenção aos constantes conflitos entre camelôs e guardas municipais no Centro do Rio, os confrades estenderam uma faixa de gaze na esquina da Avenida Rio Branco com a Rua São José, em alusão à Faixa de Gaza, território de constantes conflitos entre palestinos e israelentes.

Em 2009, o boneco João Buracão, que brilhou nas páginas do EXTRA denunciando problemas de infraestrutura na cidade, foi homenageado pela Confraria com o título de Carioca da Gema.

As bem-humoradas intervenções caíram nas graças dos cariocas e, em 1997, a Confraria teve sua sede histórica estabelecida formalmente pela prefeitura: o Espaço da Confraria do Garoto, situado no "trecho da calçada da Avenida Treze de maio, entre a Rua Evaristo da Veiga e a Travessa dos Poetas de Calçada”, conforme reconhecido pelo Decreto Municipal do Rio de Janeiro nº 15.992, de 12 de agosto de 1997.

No carnaval de rua carioca, a Confraria tinha presença garantida na cerimônia de entrega das chaves da cidade ao Rei Momo.

— Embaixador da alegria carioca. Vai fazer muita falta — lamentou o prefeito Eduardo Paes, que esteve em várias ocasiões com os membros da Confraria.

O presidente da Sociedade de Amigos da Rua da Carioca e Adjacências (Sarca), Roberto Cury, de 82 anos, que é membro fundador da Confraria, conta que as ideias mais irreverentes eram propostas por Xerife.

— Ele tinha estrela. Sabia escolher as personalidades mais ilustres da cidade. É uma pessoa que vai fazer muita falta ao Rio — disse Cury.

A última vez em que Xerife se reuniu com os confrades foi no dia 1º de março do ano passado, no aniversário da cidade, comemorado no Porto Maravilha.

O empresário Eduardo Blumberg, presidente do Polo Saara, lembra que Nelson Couto promoveu uma "corrida gay" há 40 anos, quando o assunto ainda era um tabu.

— Ele tinha ideias muito à frente do seu tempo. Em 1981 promoveu uma corrida gay no Aterro do Flamengo. Quem ganhou foi um garçom. Eu brincava com ele que iríamos fazer as bodas de ouro da primeira corrida gay do mundo — conta.

O bom humor da Confraria ultrapassou os limites da cidade. Em 1990, quando Collor assumiu a presidência do país com grande apoio popular, os confrades viajaram até Brasília para jogar bola de gude com o novo presidente.

— Ele tinha acabado de assumir a presidência, e a nossa forma irreverente de homenagear Collor foi jogar bola de gude com ele nos jardins do Palácio — lembra Roberto Cury.

Ultimamente, Xerife estava morando na Tijuca, próximo à Praça Saens Peña. Todos os dias, pela manhã, ele tinha o costume de ir tomar café na Padaria Santa Marta. Ontem, os funcionários do estabelecimento contaram que ele havia deixado de comparecer ao local há cerca de 20 dias.

Acometido por uma pneumonia, Xerife foi encontrado em casa, já quase inconsciente, por um entregador de comida, na madrugada de domingo, conforme noticiado pelo colunista Ancelmo Góis. O sepultamento aconteceu na tarde de domingo, no cemitério São Francisco Xavier, no Caju. Não houve velório.

Nas redes sociais, a Confraria do Garoto publicou uma nota de pesar informando que "as merecidas homenagens ao seu presidente serão prestados assim que a situação permitir".

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