Síria: acusada pelo uso de armas químicas e sob a ameaça de sanções

Danny KEMP
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A OPAQ pode aprovar pela primeira vez a sanção máxima contra um país

Os países ocidentais pediram nesta terça-feira (20) à Organização para a Proibição das Armas Químicas (OPAQ) a imposição de sanções sem precedentes à Síria pelo suposto uso de armas químicas e pelo fato de o país não ter declarado todo o seu estoque.

Os Estados-membros da OPAQ, com sede em Haia, se pronunciarão sobre a proposta francesa de suspender os "direitos e privilégios" de Damasco dentro da entidade, incluindo o direito a voto, uma medida inédita na história da organização.

Vários países criticam a Síria por não ter respondido uma série de perguntas da OPAQ após a publicação no ano passado de uma investigação que confirmou que o regime sírio utilizou gás sarin e cloro em um ataque em 2017 contra uma localidade controlada pelos rebeldes.

"Não podemos deixar esta tragédia durar mais uma década", declarou o embaixador da França na OPAQ, Luis Vassy. "Estamos perante uma situação excepcional, que exige medidas".

"A recusa da Síria a proporcionar fielmente as informações solicitadas não pode e não deve ficar sem resposta", afirmou a União Europeia (UE) em um comunicado conjunto com a ONU divulgado na semana passada.

"Agora cabe à comunidade internacional adotar medidas apropriadas", completou a nota.

A expectativa é de que os 193 Estados membros da OPAQ votem na quarta-feira ou quinta-feira, informaram à AFP fontes diplomáticas. Em caso de aprovação da proposta da França, esta seria a primeira vez que a organização adotaria a sanção máxima.

O governo sírio, que sempre negou qualquer envolvimento, afirma que os ataques químicos foram uma encenação. Damasco e seu aliado Moscou acusam as potências ocidentais de organizar, por meio da OPAQ, uma campanha "politizada".

Em 2018, a maioria dos Estados da OPAQ aprovou o reforço dos poderes da instituição, que passou a ser autorizada a apontar o autor de um ataque químico e não apenas a documentar o uso deste tipo de arma.

Síria e Rússia - também sob pressão da OPAQ pelo caso do envenenamento do opositor Alexei Navalny - sempre foram contrários aos novos poderes.

Damasco afirma que adequou todos os seus armazéns de armas químicas sob supervisão internacional aos termos de um acordo anunciado em 2013, quando a Síria aderiu à OPAQ, após um suposto ataque de gás sarin, um agente neurotóxico, que matou 1.400 pessoas nas proximidades da capital síria.

Mas uma investigação da OPAQ confirmou no ano passado que a aviação síria foi responsável pelos ataques com sarin e cloro contra a localidade de Lataminah em 2017.

Damasco tampouco respeitou o prazo de 90 dias estabelecido pela OPAQ para que declarasse as armas utilizadas nos ataques e revelasse os depósitos restantes.

Em resposta, a França apresentou uma moção, apoiada por 46 países, para que a organização congele os direitos da Síria na OPAQ.

A pressão aumentou na semana passada, após a publicação de um segundo relatório da OPAQ que acusa a Damasco por outro ataque com cloro na cidade de Saraqeb em 2018.

O diretor-geral da OPAQ, Fernando Arias, declarou nesta terça-feira que as respostas da Síria às perguntas sobre suas armas químicas não poderiam "ser consideradas precisas e completas", apesar de anos de inspeções.

De acordo com a ONU, Damasco ainda não respondeu as 19 perguntas feitas há dois anos sobre as instalações que teriam sido usadas para a produção ou armazenamento de armas químicas.

A ONU também acusou o regime sírio de ter executado ataques químicos contras seus próprios cidadãos no passado.

A Síria chamou a declaração francesa de "arrogante", comparando a situação às falsas acusações sobre a presença de armas de destruição em massa no Iraque antes da invasão dos EUA em 2003.

"Negamos o uso de gases tóxicos", disse a embaixadora da Síria na OPAQ, Rania Al Rifai. "Peço que votem não, que rejeitem essa agenda hostil à Síria".

A Rússia também se opôs à proposta. "É muito sério. Nunca tivemos esse tipo de caso antes em que um Estado-membro ficasse sem direitos ou privilégios", declarou o embaixador russo, Alexander Sholguin.

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