Sítios arqueológicos contam como era a vida na Ilha Grande há 3 mil anos

Vestígios de um passado muito distante estão no caminho de turistas e moradores de Ilha Grande, mas seguem despercebidos. Entre praias intocadas, natureza exuberante e ruínas de antigos presídios — sempre lembrados quando se trata da história local — a maior ilha do estado do Rio, em Angra dos Reis, no Sul Fluminense, abriga os chamados amoladores-polidores fixos, usados na produção de machados pela população local há 3 mil anos.

Patrimônio em risco

Em resumo, são sulcos, criados por povos anteriores aos tupis. Há pelo menos 40 sítios arqueológicos do tipo — além de pequenas concentrações espalhadas pela Ilha — todos registrados no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). No entanto, nenhum deles conta com sinalização ou qualquer tipo de informação que desperte a curiosidade dos visitantes, o que certamente contribuiria para a sua preservação.

Um único sítio histórico é protegido: fica em reserva biológica onde só entram pesquisadores. Os demais estão localizados nas principais praias que fazem parte dos roteiros diários de lanchas e saveiros.

O esquecimento é tamanho que até uma escada de madeira foi construída pelo Instituto Estadual do Ambiente (Inea) sobre um amolador-polidor na Praia Preta, uma das mais frequentadas pelos turistas. Já em Lopes Mendes, um caminho de cimento foi feito sobre essas pedras para facilitar o acesso das pessoas que chegam em embarcações turísticas.

Sobre um monumento histórico de valor inestimável, foi criada uma passagem para ser usada quando a maré está muito alta. As duas praias integram o Parque Estadual da Ilha Grande. E toda a ilha, junto com Paraty, é Patrimônio Cultural e Mundial da Unesco.

Responsável pelo mapeamento desses sítios arqueológicos, tema de sua tese de doutorado, a arqueóloga e professora aposentada do Museu Nacional Maria Cristina Tenório de Oliveira lamenta tamanho descuido.

— Há quase 400 amoladores-polidores fixos na Ilha Grande, e é um absurdo o risco que eles correm. Pesquisei esses vestígios por mais de dez anos. E o que mais fiz foi divulgá-los. Quando acabei a pesquisa, passei tudo para o Ibama e fiz os registros no Iphan —diz a arqueóloga. — São sítios arqueológicos, e há lei de proteção para eles. Não entendo como sempre há denúncia e nada é feito.

De acordo com a legislação federal, sítios como esses devem estar sob a guarda do poder público. Sua eventual destruição é enquadrada como crime contra o Patrimônio Nacional. Ali, não é o tempo o inimigo: o turismo predatório é a maior ameaça.

Junto com os sambaquis, depósitos de remanescentes do período pré-histórico, essas pedras ajudam a montar um quebra-cabeça sobre os povos que ali viviam. Para entender os diferentes sulcos —alguns mais em forma de cumbucas, outros que parecem pés grandes e muitos que lembram canoas — Cristina Tenório fez um curso nos Estados Unidos. Lá, aprendeu a amolar e polir suas próprias ferramentas, do jeito que nossos ancestrais do período pré-colonial faziam.

— Fiz experimentações. E, na Ilha, foi encontrada uma quantidade enorme de lâminas de machado em aterramentos datados de 3 mil anos. Às vezes, a lâmina não está nem usada; é como se fosse uma oferenda. Na minha tese de doutorado, aponto a ilha como centro de produção de machados, que eram trocados por outras coisas com outros grupos. O mesmo acontecia em outros lugares do mundo, como na Austrália — explica a professora. — Esses amoladores-polidores são sempre encontrados na saída de rios.

No Brasil, ocorrem sobretudo em pontas do litoral e ilhas. O lugar de maior concentração é Santa Catarina. Em Arraial do Cabo e Cabo Frio eles também existem e estão em situação de abandono. A técnica desses habitantes consistia na fricção de uma lasca, com ajuda da água doce dos rios e areia, na pedra charkonito, mais áspera, predominante na Ilha Grande.

As diferentes marcas nas rochas podem ser explicadas porque era preciso dar forma ao corpo e também ao fio do machado. Há também aquelas relacionadas à ação de recuperar o fio das peças.

— Os formatos mostram uma linha de identidade cultural de um grupo que teria ocupado o nosso litoral. Coincidentemente, encontramos perto de amoladores aterramentos com esqueletos em bom estado para análise, de 3 mil anos. Eram indivíduos mais robustos, atarracados, ligados a grupos sambaquianos — diz Cristina Tenório, lembrando que mais de 60 esqueletos de sambaquis da Ilha Grande viraram cinzas no incêndio do Museu Nacional.

A Ilha Grande já era um paraíso para os povos antigos. Na sua tese de doutorado, a professora Cristina Tenório de Oliveira conta que esses habitantes eram pescadores que viviam em grupos familiares e, às vezes, formavam sítios maiores. Esses pontos eram mais bem localizados em termos de alimentos e poderiam contar com alguma liderança predominante.

Os sítios pesquisados estavam sempre na interseção de diferentes ambientes —no da Ilhota do Leste, dentro na Reserva Biológica Estadual da Praia do Sul, eles tinham acesso a alimentos do mar, da lagoa e da restinga (esta formada há 4,5 mil anos, com o recuo do mar), como apontam achados arqueológicos. De lá, é possível avistar as tainhas que chegam no verão. Tamanha fartura permitia que deixassem de ser nômades, gerando adensamento populacional.

A ‘pré-história’ da ilha

Outro ponto curioso sobre esses moradores da ilha no tempo “da pedra polida” era seu envolvimento com golfinhos: num aterramento foi encontrado um golfinho inteiro em cima de um morto. Em escavações, foram descobertos pingentes feitos de dentes de golfinho, levando a crer que havia uma identificação ritualística com os mamíferos marinhos.

— Na Ilha Grande, a gente não só tem história, como pré-história. E pré-história entre aspas, porque é egoísta achar que a história começa só a partir da chegada dos portugueses — ressalta Carlos Saenz, peruano, especializado em educação ambiental no Brasil, guia há seis anos na Ilha Grande.

Turistas que seguem Saenz, condutor do Parque Estadual da Ilha Grande pelo Inea, são informados da presença milenar dos amoladores-polidores.

— Esses povos ocuparam uma área bem estratégica na Praia do Aventureiro, de onde viam a chegada dos cardumes de peixe do alto da Pedra da Espia. Há uma história muito rica, mas lamentavelmente o passado da ilha é muito marcado pela prisão. E não é bem assim: é um lugar onde há também histórias de piratas corsários e de ocupações antigas de portugueses, que ali chegaram para poder marcar território frente aos franceses —completa o guia.

O Instituto Estadual do Ambiente informa que “eucaliptos foram instalados nas laterais da escadaria confeccionada para conduzir os visitantes do Parque Estadual de Ilha Grande até as pedras citadas pela reportagem”, com “o objetivo de proporcionar maior segurança aos visitantes”.

O Inea, por meio do Parque Estadual de Ilha Grande, estabeleceu contato com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e o Instituto Nacional do Patrimônio Cultural (Inepac) para solicitar os mapas de localização dos amoladores e confeccionar a sinalização. O órgão estadual destaca ainda que, nas ações de educação realizadas nas escolas públicas da região, estão incluídas palestras sobre as pedras de amolar.

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