'Só aconteceu porque ela permitiu', diz filha de Flordelis sobre morte de pastor

*Arquivo* NITERÓI, RJ, 07.11.2022 - A ex-deputada federal Flordelis durante julgamento. (Foto: Eduardo Anizelli/Folhapress)
*Arquivo* NITERÓI, RJ, 07.11.2022 - A ex-deputada federal Flordelis durante julgamento. (Foto: Eduardo Anizelli/Folhapress)

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - Roberta dos Santos, uma das filhas afetivas da ex-deputada federal Flordelis dos Santos de Souza, afirmou nesta quinta-feira (10) que tudo o que acontecia na casa da família tinha a permissão da pastora. Flordelis é julgada no Tribunal do Júri em Niterói (RJ) acusada de ser a mandante do assassinato do marido, o pastor Anderson do Carmo, morto a tiros na casa em que viviam, em 2019. Ela nega as acusações.

Questionada nesta quinta se Flordelis mandou matar o marido, Roberta respondeu que "com certeza".

"Ela era soberana de tudo na casa, e tudo só aconteceu porque ela permitiu que acontecesse", acrescentou.

A filha pediu que a mãe não estivesse no júri, porque não queria falar na presença dela, e Flordelis deixou o plenário pouco antes do início da oitiva neste quarto dia de julgamento. Roberta chorou muito durante seu depoimento.

"Eu não vim falar na frente deles para ver a desgraça deles [três filhos e uma neta de Flordelis também estão no banco dos réus]. Eu não fico nem um pouco feliz de ver eles na situação em que estão. A gente nunca foi uma família normal, mas era uma família. Torta, errada, mas era uma família", disse.

Questionada pela acusação se já havia presenciado algum episódio de abuso sexual praticado por Carmo, Roberta respondeu que não. Ela contou ainda que o pastor restringia o uso de roupas curtas e biquíni dentro de casa.

"Nunca vi abuso dentro daquela casa. O Niel [como Anderson era chamado na família] não era um abusador. É um deboche contra as mulheres que realmente sofrem abuso sexual. É uma afronta", disse.

A defesa de Flordelis tem questionado todas as testemunhas sobre supostos abusos cometidos por Carmo como uma estratégia para justificar o crime.

Rebeca Vitória Rangel Silva, neta afetiva de Flordelis e sobrinha de Anderson, também falou neste quarto dia de julgamento. Ao júri, ela afirmou que os depoimentos dados à Polícia Civil sobre o crime foram simulados para inocentar a pastora.

"Se alguém dissesse: ‘Para mim, a Flordelis foi a mandante do crime’, respondiam: ‘Não, isso você não pode falar. Tem que falar a favor da Flordelis'", relatou Rebeca —a pedido dela, Flordelis também não estava presente na oitiva.

Última testemunha de acusação a ser ouvida, Erica dos Santos de Souza, outra filha adotiva de Flordelis e Anderson, contou que, dias após o assassinato de Anderson, viu Simone dos Santos de Souza e Rayane —também rés neste júri— escondendo dois telefones celulares durante uma busca e apreensão realizada por policiais na casa da família.

Questionada pela promotoria, ela disse acreditar que os aparelhos seriam de Anderson e de Flávio dos Santos Rodrigues, filho de Flordelis já condenado por ter efetuado os disparos que mataram o pastor. A polícia nunca encontrou os aparelhos.

Sobre a rotina na casa, ela contou que Flordelis, a filha Simone e a neta Rayane se comunicavam em código, "na língua do pê", para que os demais não entendessem o que diziam. E acrescentou que alguns irmãos chegaram a se relacionar amorosamente.

Ainda no júri, Erica afirmou que deixou a casa de Flordelis antes da morte de Anderson porque foi queimada com ferro como castigo por um dos irmãos.

O CRIME

O pastor Anderson do Carmo foi morto a tiros na garagem da residência da família em Niterói, na região metropolitana do Rio de Janeiro, em 16 de junho de 2019. Ele tinha 42 anos e morava com Flordelis e mais 35 filhos. Foram constatadas 30 perfurações de bala em seu corpo.

As investigações indicaram que Flordelis começou a tentar matar o marido em maio de 2018, envenenando-o aos poucos, colocando arsênico e cianeto na comida dele. A vítima passou por hospitais no período, com episódios de vômito e diarreia.

A pastora, presa desde agosto do ano passado, é ré por suspeita de homicídio triplamente qualificado —por motivo torpe, emprego de meio cruel e de recurso que impossibilitou a defesa da vítima—, tentativa de homicídio, uso de documento falso e associação criminosa armada. Ela nega todas as acusações.

Também estão no banco dos réus três filhos da pastora —Simone, André Luiz Oliveira e Marzy Teixeira— e a neta Rayane.