'Só executaram meu filho e largaram ele no chão', diz mãe de rapaz morto com tiro no Jacarezinho

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RIO — Parentes de Jhonatan Ribeiro de Almeida, de 18 anos, acusam agentes da Polícia Militar pela morte do rapaz no Jacarezinho, na Zona Norte do Rio, na noite desta segunda-feira (26). Ele foi atingido por um tiro enquanto estava numa rua da favela, a primeira comunidade a receber o programa estadual Cidade Integrada, em janeiro deste ano.

Na chegada ao Instituto Médico-Legal (IML), na manhã desta terça-feira, a mãe de Jhonatan, Monique Ribeiro dos Santos, disse que estava em casa no momento em que o filho foi baleado. Ela voltou a afirmar que o jovem não tem ligação com o tráfico e que não tinha a carteira de trabalho assinada porque, em breve, se apresentaria para o alistamento no Exército. No momento, segundo a família, ele trabalhava com uma tia vendendo roupas. Jhonatan deixou o filho Israel, de 4 meses.

— Só executaram meu filho e largaram ele no chão, como se ele fosse porco, como se ele não tivesse família. E o Jhonatan tem família. O Jhonatan tem uma imagem, ele é um menino de bem. Criado por mim, pela minha mãe, pelo meu pai — disse Monique, auxiliar de serviços gerais, de 35 anos.

Também no IML, o avô do rapaz, Carlos Roberto dos Santos, negou a versão apresentada pela PM, de que ele estaria com drogas e um simulacro de arma de fogo.

— Eles mataram o meu neto, meu neto, meu filho. Não vai dizer que o meu filho era bandido não. É mentira. Vai procurar lá para ver se meu filho era bandido. Tem 18 anos, ele estava lutando para poder ir pro Exército, com uma criança de 4 meses, que estava com a festinha preparada para fazer agora — salientou.

Em nota, a Polícia Militar afirma que a equipe não prestou "socorro ao ferido em função da reação de um grupo de moradores que arremessaram pedras e garrafas em direção à equipe".

O avô de Jhonatan questiona essa versão:

— Eles vieram e o garoto estava conversando. O garoto se assustou e fez a menção de correr, e ele atirou. E tanto é, que agora estão dizendo que ele estava com droga, estava com réplica de arma. E porque todas as vezes que eles matam, na comunidade, quando é traficante, els pegam e levam o corpo. Eles fizeram isso? Eles atiraram, correram, foram embora e quem levou o corpo lá foi o pessoal da comunidade. Porque dessa vez a droga foi só aparecer agora? E eles foram aparecer com esse kit flagrante, que é um kit que eles usam, que todo mundo sabe. Só não sabe quem não quer — diz Carlos Roberto.

Relatos indicam que o rapaz chegou a ser socorrido para a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Manguinhos, comunidade vizinha ao Jacarezinho. Segundo a Secretaria municipal de Saúde (SMS), Jhonatan já chegou em parada cardiorrespiratória à unidade e não resistiu ao ferimento.

Veja a nota da Polícia Militar na íntegra:

"A Assessoria de Imprensa da Secretaria de Estado de Polícia Militar informa que, na noite de segunda-feira (25/04), equipes do Batalhão de Polícia de Choque (BPChq) participaram de uma ocorrência na Comunidade do Jacarezinho, na qual um homem foi ferido por projétil de arma de fogo. Segundo os policiais, não foi possível prestar socorro ao ferido em função da reação de um grupo de moradores que arremessaram pedras e garrafas em direção à equipe. Com o ferido, havia certa quantidade de drogas e um simulacro de arma de fogo. As equipes comunicaram a ocorrência de imediato à Delegacia de Homicídios da Capital. Paralelamente, o comando da Corporação determinou instauração de procedimento apuratório na Corregedoria Geral da SEPM. As armas empregadas na ocorrência já estão à disposição da perícia."

O advogado do caso e coordenador do Instituto de Defesa da População Negra (IDPN), Joel Luiz Costa, acompanha nesta tarde o depoimento da família na Delegacia de Homicídios do IML. Ele informou que o IDPN também vai dar assistência na continuidade da investigação acionando o Ministério Público e a ouvidoria da Defensoria Pública.

Ele relembrou a operação da Polícia Civil no Jacarezinho, há pouco menos de um ano, que matou 28 pessoas.

— É a banalização da morte no território de favela, um território racializado. Não há justificativa, nem a justificativa ‘padrão’ de [os policiais] terem sido recebidos a tiros foi alegada pela Polícia, então, não há nenhum lastro que dê lógica ao que aconteceu, além da banalização da morte. A gente, do IDPN, vai acompanhar tudo isso.

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