Só governos totalitários defendem que professor seja neutro, diz educador espanhol

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Em 1992, Jaume Trilla, 70, professor catedrático da Faculdade de Pedagogia da Universidade de Barcelona, publicou o livro "El Profesor y los Valores Controvertidos" (o professor e os valores Controversos, em tradução livre). Agora, 30 anos depois, avalia que a ascensão de grupos conservadores, impulsionados pelas redes sociais, tornou essa relação ainda mais sensível e prejudicial para a educação.

No Brasil, com o aumento da polarização política, a lista de assuntos que podem ser considerados controversos em sala de aula só cresce. Professores relatam apreensão ao abordar questões de política, educação de gênero, meio ambiente e até vacina sob o risco de serem acusados de doutrinação.

A convite do Centro de Formação da Vila, do grupo Bahema, Trilla deu uma palestra no último dia 11 para professores da educação básica. Na conversa, o educador disse ser papel da escola e dos professores defender com beligerância os valores democráticos. Portanto, não podem ser neutros ou evitar atuar em defesa dos direitos humanos nas atividades pedagógicas.

Pesquisador e professor universitário há mais de 45 anos, Trilla foi colega de Paulo Freire (1921-1997) e tem no pedagogo brasileiro uma de suas mais importantes referências acadêmicas.

Em entrevista à Folha de S.Paulo, Trilla lembra que seus primeiros contatos com os textos de Freire aconteceram de forma clandestina, já que as obras do brasileiro eram proibidas pela ditadura franquista.

Para ele, o fato de as ideias e teorias de Freire voltarem a sofrer tentativas de censura —o presidente Jair Bolsonaro (PL) disse que queria expurgá-lo das escolas brasileiras— são sinais de que o sistema democrático do país voltou a correr riscos.

PERGUNTA - Nos últimos anos, o Brasil tem vivido a ascensão de grupos que estimulam a vigilância e punição a professores que não têm um posicionamento considerado neutro em sala de aula. A neutralidade na educação é possível?

JAUME TRILLA - A neutralidade absoluta é impossível. Mas a questão principal é: a neutralidade dos professores é desejável?

A minha posição é de que há determinadas situações em que os professores devem procurar atuar da forma mais neutra possível e há outras em que não podem ser neutros.

Para questões políticas e morais socialmente controversas, por exemplo como o aborto, é importante que se busque ser o mais neutro possível. O professor tem suas opiniões, crenças e convicções. Ainda que possa explicitá-las em sala de aula, deve deixar claro que se trata de um posicionamento pessoal, deve apresentar argumentos divergentes dos seus e respeitar a opinião divergente dos alunos.

Mas há questões sobre as quais a atuação do professor não pode ser neutra, que são aquelas que se referem aos princípios fundamentais de uma sociedade democrática. Nas situações em que esses princípios são feridos ou estão em risco, a atuação de nenhum cidadão pode ser neutra.

Em uma escola democrática, em um país democrático, o professor não pode aceitar que sejam defendidas posturas que desrespeitem os direitos humanos, por exemplo, posições racistas, machistas, contra alguma religião, identidade sexual etc.

P.- Já houve casos no Brasil em que professores foram acusados de doutrinação, por exemplo, por tratar sobre feminismo e violência de gênero em sala de aula. O próprio governo federal tentou suprimir questões que tratassem desses temas no Enem por considerá-las ideológicas.

JT - Todos os valores que são defendidos por um sistema político democrático, como os direitos humanos, devem ser encarnados pelas escolas e professores. É claro que essa minha posição só é válida dentro de uma democracia.

Em um estado totalitário, o que eu estou dizendo não serviria para nada, porque esses valores não são defendidos. Por isso, só governos totalitários defendem a neutralidade absoluta dos professores nessas questões.

P.- Por conta dessas perseguições a professores, muitos estão com medo de tratar de alguns assuntos em sala de aula. É possível fugir de temas controversos dentro da escola?

JT - Os temas que podem ser considerados controversos estão por todo lugar, estão nas ruas, na mídia. Por isso, são de interesse dos alunos e não há como fugir deles.

Se as escolas e os sistemas educativos têm como objetivo ensinar e preparar os estudantes para conhecer e interpretar o contexto em que vivem, esses temas precisam estar presentes em sala de aula. É claro que há formas de tratar sobre esses assuntos sem escandalizar as pessoas, sem correr o risco de ser acusado de doutrinação.

Por exemplo, existem muitas maneiras de se interpretar episódios históricos ou da realidade social. É importante que essas múltiplas interpretações sejam apresentadas aos alunos.

Precisamos confiar na capacidade crítica dos estudantes.

P.- Esses grupos que defendem a neutralidade dos professores têm incentivado os alunos a filmar ou gravar aulas para denunciar casos de suposta doutrinação. Esse ambiente retira a autonomia do docente de conduzir sua aula?

JT - Casos similares também têm ocorrido na Espanha. Acredito que não com tanta frequência, mas também temos notícias de professores sendo perseguidos.

Não podemos nos esquecer de um princípio importante da democracia, que é a liberdade de cátedra. Essa liberdade não é absoluta, ela tem limites, mas garante ao professor ensinar sua disciplina com as metodologias que considera mais adequadas.

Um caso que ocorreu em meu país e escandalizou muita gente foi o de um professor de uma escola secundária [equivalente aos anos finais do ensino fundamental do Brasil] que levou seus alunos a um sex shop para ilustrar uma aula sobre antropologia sexual. Esse docente foi denunciado, processado e, por fim, absolvido.

O tribunal considerou que um professor, com formação e experiência na área, tem autonomia e responsabilidade para decidir a melhor forma de ensinar seus alunos. Também considerou que esses adolescentes já tinham contato com conteúdos sexuais pela internet e não havia por que se escandalizar com a atividade guiada e orientada pelo docente.

P.- Avança no Brasil um projeto de lei que regulamenta o homeschooling. Como o senhor vê essa modalidade?

JT - Essa é uma polêmica muito discutida, se as famílias têm direito absoluto sobre a educação de seus filhos. Eu defendo que não. Os filhos não são propriedade privada de seus pais. É, por isso, inclusive, que as sociedades e sistemas políticos têm instrumentos para proteger as crianças de seus pais.

As famílias têm um direito importante de defender qual educação querem para seus filhos, mas não têm o direito de definir como eles devem ser ou pensar. Por isso, é dever das famílias garantir que as crianças tenham uma vivência plural.

Aliás, uma escola em todos são muito parecidos é uma má escola. Por exemplo, escolas privadas ou religiosas tendem a ter uma pluralidade limitada. Essa não é a realidade da sociedade. Uma vivência real só é possível com pessoas diferentes, e é nesse contexto que os estudantes aprendem a lidar com conflitos.

P.- O Brasil terá neste ano uma das eleições mais polarizadas desde a sua redemocratização e os professores temem que essa situação traga ainda mais limitações ao seu trabalho. O que o sr. aconselharia a eles?

JT - Primeiro, eu recomendaria que esses professores se organizem, busquem seus sindicatos e estabeleçam grupos para se proteger. Eles têm direito a se defender e defender seu trabalho.

Depois, eu diria para que se protejam escolhendo os melhores momentos para falar sobre alguns temas. Nenhum assunto é proibido, mas é importante saber encontrar a situação certa para tratá-los.

Um professor de matemática ensinando equações, por exemplo, não precisa falar sobre homofobia. A menos que alguma situação em sua sala tenha ocorrido. Dentro da escola, há momento para falar sobre tudo e é importante saber identificá-los.

Também é importante se atentar para sempre apresentar os vários lados de uma situação. Isso dá maior proteção aos professores para que não sejam acusados de doutrinação.

P.- O presidente Bolsonaro assumiu o governo defendendo que iria excluir os métodos de Paulo Freire das escolas brasileiras. O sr. acredita ser possível extinguir a teoria do pedagogo?

JT - Paulo Freire foi perseguido em vida e agora é perseguido em morte. É uma lástima.

O Brasil tem a grande fortuna de ser o país onde nasceu o pedagogo mais conhecido e valorizado da segunda metade do século 20. Em todas as partes do mundo, ele é conhecido e admirado. É uma lástima que seu próprio país tente ocultá-lo.

Mas isso diz mais sobre quem tenta proibi-lo do que sobre o que se tenta proibir. Nenhum sistema democrático pode proibir uma teoria pedagógica, por mais que tenha críticas ou discordâncias a ela.

P.- Por que a defesa de uma educação libertadora e crítica preocupa tanto alguns governos?

JT - Partidos e governos totalitários se preocupam com uma cidadania que pense e tenha autonomia. Pessoas críticas, capazes de defender seus direitos, são mais perigosas para um sistema não democrático.

RAIO-X

Jaume Trilla, 70

É professor catedrático na Faculdade de Pedagogia da Universidade de Barcelona, onde foi diretor do Departamento de História da Educação. Foi também membro fundador do grupo de pesquisa em Educação Moral, programa que é referência na Europa sobre o assunto. Antes de entrar para a vida acadêmica, foi também professor de educação básica. É autor ou coautor de mais de 250 publicações, entre artigos e livros, sobre educação.

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