Só pela educação será possível superar racismo estrutural, apontam convidados do Festival LED

Só pela educação será possível superar problemas crônicos da sociedade brasileira como o racismo estrutural. O recado foi dado pela escritora Conceição Evaristo, o rapper Emicida e a professora Angela Figueiredo, durante o debate sobre o tema na mesa de abertura do Festival LED - Luz na Educação. A barreira, porém, está na resistência das escolas em promover uma educação antirracista, projeto didático de urgência abordado em uma das oficinas do evento, realizada no Museu de Arte do Rio.

Um dos pontos destacados por Evaristo é que o colégio é o espaço onde crianças e adolescentes constroem os primeiros aprendizados. Também lá, dentro das salas de aula, os estudantes, sobretudo os negros, experienciam situações de preconceito e violência. Por isso, investir na conscientização de professores e em materiais didáticos que abordem a história e a cultura afro-brasileira faz toda a diferença.

— A educação antirracista precisa partir primeiramente da atitude de professores, do Estado e de toda a sociedade, que devem reconhecer que temos um problema a ser solucionado. Podemos aprender através de cursos, trocas, mas a justiça precisa ser o pilar que move essa luta — afirmou Evaristo.

A conversa foi mediada pela jornalista da GloboNews Aline Midlej, que pontuou os avanços obtidos graças às cotas raciais e à Lei 10.639, que, desde 2003, determina a implementação da história afro-brasileira e indígena no currículo escolar. A medida alterou dispositivos da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, que organiza todo o sistema no país. Fruto da articulação de movimentos sociais, o texto da lei aponta que os conteúdos trabalhados na escola devem incluir a história dos negros e dos povos tradicionais no Brasil, resgatando a contribuição deles nas áreas social, econômica e política.

A referência negra na sala de aula, tanto no papel do professor quanto das personalidades apresentadas nos conteúdos, é importante para que os jovens criem uma autoidentificação como potências e como indivíduos capazes, afirma Angela Figueiredo, professora e coordenadora do grupo de pesquisa Coletivo Angela Davis.

— Os movimentos sociais têm criado estratégias para segurar esses temas, e a escola precisa ir atrás do que as crianças e jovens se interessam. É preciso educar o educador e colocar mais educadores negros para que haja referência. É preciso deixar para trás uma herança colonial de uma formação construída apenas para o mercado de trabalho — defendeu Angela.

Uma das grandes referências do universo afro no país, o rapper Emicida chamou atenção para a importância de os professores individualizarem o olhar para com crianças negras.

— Eu insisto na educação hoje porque tem uma professora que pegou um tempo da vida dela e transformou o conteúdo da aula em quadrinhos pra mim.

Foi o que fez o Festival LED, dedicando parte da programação a uma oficina sobre “Educação antirracista”. Com o auxílio de vídeos e troca de experiências, os professores presentes aprenderam como implementar referências nas aulas e como agir em casos de racismo. A oficina foi uma parceria entre a Fundação Roberto Marinho (FRM) e a Diáspora.Black, plataforma que promove conhecimentos afrocentrados.

— A oficina teve uma metodologia própria da Diáspora.Black, pautada nas emoções, no afeto e no diálogo. É preciso ir além do conteúdo maçante para sensibilizar aluno e professor — relatou Carlos Humberto da Silva Filho, fundador da Diáspora.Black.

Os participantes receberam o kit do Projeto A Cor da Cultura, com textos de fundamentação teórica contando a história do racismo no Brasil e do papel da educação para a transformação desta realidade, além de sugestões de atividades para serem realizadas em sala de aula. O último ponto trabalhado na oficina foi sobre como agir em casos de racismo.

— Em casos de racismo na escola, é imprescindível que a gestão acolha a vítima. Crianças reproduzem os discursos preconceituosos, e é preciso responsabilizar a família e tomar providências junto aos órgãos competentes — explicou Maria Corrêa e Castro, líder de projetos de educação da FRM.

A ativista e comunicadora Samela Sateré Mawé defendeu a importância de os indígenas serem reconhecidos enquanto brasileiros e terem suas histórias e culturas respeitadas, visto que somam mais de 300 etnias. As redes sociais e as salas de aula, segundo ela, são espaços de resistência.

— A internet é uma ferramenta de luta, resistência e proteção. Nossos ancestrais lutaram com as armas que tiveram para hoje termos educação, as cotas, e isso precisa ser defendido por todos os brasileiros — concluiu.

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