'Só querem saber de Janssen ou Pfizer', relata profissional sobre 'sommeliers' em dia de longas filas na Barra da Tijuca

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RIO — "Meu Deus, sabia que era cheio aqui, mas não assim", comentou um homem que se aproximava para vacinar na Cidade das Artes, na Barra da Tijuca, no início da tarde desta quarta-feira (7). Um segundo, então, chegou mais perto e perguntou: "Ainda estão dando a Pfizer?". Com duas filas, cada uma com pelo menos 100 pessoas cada, o ponto de vacinação hoje, pode-se dizer, destacava-se de vários outros pela cidade, bem mais vazios. O motivo, segundo o relato de profissionais ouvidos pela reportagem, era algo já destacado pelo prefeito Eduardo Paes, noticiado nesta quarta pelo GLOBO, e que vem preocupando no município: os "sommeliers" de vacina.

"São as vacinas, da Janssen e da Pfizer, que demos hoje, são duas que a galera procura muito. As pessoas aqui só querem saber delas. A Jansen acabou na metade do dia, mas muita gente ficou por causa da Pfizer", comentou um dos profissionais, estudantes da Unigran-Rio, que aplicavam as doses.

Questionado se ele ouviu nesta quarta muita gente perguntando sobre as fabricantes das vacinas durante o dia, ele nem pensou ao responder: "É o tempo todo".

A principal crítica de Paes é em relação às pessoas que acabam aguardando a repescagem para tentar receber a "marca" desejada da vacina. Hoje, as queridinhas entre os "sommeliers" são exatamente a Janssen/J&J e a Pfizer/BioNTech – essas pessoas afirmam, sem nenhum embasamento científico, que elas são mais eficientes que as demais.

Segundo uma outra profissional ouvida pelo GLOBO, e que auxiliava na checagem das identidades e documentos, principalmente pela manhã, foram essas pessoas, acima dos 41 anos, que acabaram encorpando a fila, que normalmente já é grande no local — no coração da Barra, próximo, por exemplo, ao Barra Shopping, CBF, supermercados e várias outras empresas e centros comerciais. Elas apareceram e foram aceitas, apesar da orientação de que só se dirigissem aos postos à tarde.

"Principalmente de manhã, eu diria que a maioria era pessoal da repescagem. Muita gente acima dos 41 anos", comentou a funcionária, que confirmou que o movimento foi maior nesta quarta.

O GLOBO conversou com algumas pessoas que aguardavam na fila e ouviu alguns relatos. Enquanto uns atrasaram um ou dois dias para conseguir o imunizante desejado, outros, apesar da idade exata do dia, disseram que correram para a unidade porque ficaram sabendo que ali especificamente havia as vacinas que elas queriam.

— Eu moro no Tanque, mas trabalho aqui na Barra, e saí até um pouco mais cedo do trabalho hoje. Eu vim pela Jansen, que é dose única, mas me disseram que já tinha acabado quando cheguei. Como eu já estava aqui, tomei a Pfizer mesmo — disse Jorge Souza Matos, de 41 anos.

Questionado sobre o que ele achava da vacina que acabou "tomando mesmo", ele titubeou um pouco, mas disse que revela. Em seguida, deu uma opinião que era comum também entre os muitos na fila, em relação à agora pouco prestigiada por esse público, Coronavac.

— Tem que confiar, né? Fazer o quê? Me falaram muito da CoronaVac, que não funciona, que tem muita gente que acabou pegando Covid mesmo depois de vacinado... então, vim pela Janssen ou Pfizer.

Quem também lembrou da fabricante chinesa de forma negativa foi a Ana Cavalcanti, também de 41 anos, que, no seu dia, escolheu a Cidade das Artes ao saber que, por lá, estavam aplicando Jansen e Pfizer.

— Eu vim pela Janssen, mas está ótimo a Pfizer. Eu não tomaria a Coronavac, porque tudo que é da China é complicado — disse.

Ao longo da tarde, as filas foram se esvaziando, mas ainda continuavam grandes. O maior sinal disso foi quando, por volta das 15h50, uma funcionária chegou a gritar para que as pessoas mantivessem o distanciamento social, o que foi desrespeitado por todos e alvo de deboche de tantos outros. Às 17h, pontualmente, quando já eram poucas as pessoas restantes na fila, as portas de vidro que recebiam as últimas pessoas se fecharam, e os profissionais de saúde aplaudiram e foram aplaudidos.

Procurada, a Secretaria Municipal de Saúde, que tem feito campanhas ultimamente nas redes sociais para tentar evitar a ação das pessoas que têm escolhido vacinas na capital, respondeu em nota que tem enviado as quatro vacinas (Pfizer, Janssen, AstraZeneca e CoronaVac) proporcionalmente aos postos — com exceção de onde não há estrutura para armazenar a Pfizer —, apesar da informação de que, nesta quarta, eram aplicadas apenas duas na Cidade das Artes. A pasta acrescentou que as pessoas podem checar no site da prefeitura todos os postos disponíveis e buscar os que estão com menos movimento:

"A Secretaria Municipal de Saúde disponibiliza cerca de 280 pontos de vacinação contra a covid-19 em toda a cidade. As pessoas podem verificar em coronavirus.rio/vacina e nas redes sociais da SMS os locais dos pontos de vacinação e procurar o que esteja com menos movimento, para evitar filas.

Com exceção de alguns postos de vacinação extras, que não têm a estrutura necessária para o preparo da Pfizer, todos os demais recebem das quatro vacinas, proporcionalmente ao número de doses que aplicam diariamente. As vacinas são ofertadas conforme fluxo e estoque restante de cada unidade.

Nesta quarta-feira, foram vacinadas pessoas de 41 anos ou mais, de ambos os sexos, além de segunda dose. Tods os que procuraram os postos foram vacinados. Com o aporte de vacinas recebido no início desta semana, o município do Rio dispõe no momento dos quatro tipos de vacinas".

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