'Só querem Janssen ou Pfizer', diz profissional sobre 'sommeliers' em dia de filas e 17% mais vacinas aplicadas no Rio

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"Meu Deus, sabia que era cheio aqui, mas não assim", comentou um homem que se aproximava para vacinar na Cidade das Artes, na Barra da Tijuca, no início da tarde desta quarta-feira (7). Um segundo, então, chegou mais perto e perguntou: "Ainda estão dando a Pfizer?". Com duas filas, cada uma com pelo menos 100 pessoas cada, o posto de vacinação nesta quarta, pode-se dizer, destacava-se de vários outros pela cidade, com menos movimento. O motivo, segundo o relato de profissionais ouvidos pela reportagem, era algo já destacado pelo prefeito Eduardo Paes, noticiado nesta quarta pelo EXTRA, e que vem preocupando no município: os "sommeliers" de vacina. Nesta quarta-feira, após a prefeitura anunciar medidas para tentar barrar essa prática, o posto na Barra ficou cheio. Dados aos quais o EXTRA teve acesso mostram que somente nesta quarta-feira, o município aplicou 74 mil doses, 17,5% a mais que a média diária desta semana.

"São as vacinas, da Janssen e da Pfizer, que demos hoje, são duas que a galera procura muito. As pessoas aqui só querem saber delas. A Janssen acabou na metade do dia, mas muita gente ficou por causa da Pfizer", comentou um dos profissionais, estudantes da Unigran-Rio, que aplicavam as doses.

Questionado se ele ouviu nesta quarta muita gente perguntando sobre as fabricantes das vacinas durante o dia, ele nem pensou ao responder: "É o tempo todo".

A principal crítica de Paes é em relação às pessoas que acabam aguardando a repescagem para tentar receber a "marca" desejada da vacina. Hoje, as queridinhas entre os "sommeliers" são exatamente a Janssen/J&J e a Pfizer/BioNTech – consideradas as mais eficientes, sem nenhum embasamento científico. A atitude é criticada pela prefeitura, que vê essa semana como crucial para o plano de vacinação da população, por englobar as pessoas na casa dos 40 anos, que hoje aparecem como a maioria dos casos de internação por Covid-19. Na Cidade das Artes, local de vacinação que atraiu centenas de pessoas nesta quarta-feira, funcionam órgãos municipais como a RioTur.

Segundo uma outra profissional ouvida pelo GLOBO, e que auxiliava na checagem das identidades e documentos, principalmente pela manhã, foram essas pessoas, acima dos 41 anos, que acabaram encorpando a fila, que normalmente já é grande no local — no coração da Barra, próximo, por exemplo, ao Barra Shopping, CBF, supermercados e várias outras empresas e centros comerciais. Elas apareceram e foram aceitas, apesar da orientação de que só se dirigissem aos postos à tarde.

"Principalmente de manhã, eu diria que a maioria era pessoal da repescagem. Muita gente acima dos 41 anos", comentou a funcionária, que confirmou que o movimento foi maior nesta quarta.

O EXTRA conversou com algumas pessoas que aguardavam na fila e ouviu alguns relatos. Enquanto uns atrasaram um ou dois dias para conseguir o imunizante desejado, outros, apesar da idade exata do dia, disseram que correram para a unidade porque ficaram sabendo que ali especificamente havia as vacinas que elas queriam.

— Eu moro no Tanque, mas trabalho aqui na Barra, e saí até um pouco mais cedo do trabalho hoje. Eu vim pela Jansen, que é dose única, mas me disseram que já tinha acabado quando cheguei. Como eu já estava aqui, tomei a Pfizer mesmo — disse Jorge Souza Matos, de 41 anos.

Questionado sobre o que ele achava da vacina que acabou "tomando mesmo", ele titubeou um pouco, mas disse que revela. Em seguida, deu uma opinião que era comum também entre os muitos na fila, em relação à agora pouco prestigiada por esse público, Coronavac.

— Tem que confiar, né? Fazer o quê? Me falaram muito da CoronaVac, que não funciona, que tem muita gente que acabou pegando Covid mesmo depois de vacinado... então, vim pela Janssen ou Pfizer.

Quem também lembrou da fabricante chinesa de forma negativa foi a Ana Cavalcanti, também de 41 anos, que, no seu dia, escolheu a Cidade das Artes ao saber que, por lá, estavam aplicando Janssen e Pfizer.

— Eu vim pela Janssen, mas está ótimo a Pfizer. Eu não tomaria a Coronavac, porque tudo que é da China é complicado — disse.

O secretário municipal de Saúde, Daniel Soranz, reforçou que a orientação é para que quem estiver no grupo de repescagem procure os postos apenas no período da tarde, quando costumam estar mais vazios. Sobre as filas na Cidade das Artes, Soranz disse que o movimento já era esperado e que esse grupo de "atrasados" tende a reduzir nos próximos dias:

— Estava dentro do público esperado, mas hoje estávamos fazendo uma idade só e em uma região que muitos estão previstos para tomar a segunda dose também. Pretendemos encerrar o grupo de 40 a 59 anos com 90% de cobertura até sábado. A prefeitura tem muito interesse em vacinar esse grupo, mas por ignorância e falta de conhecimento um grupo tenta escolher vacinas, de forma quase irracional porque não faz o menor sentido. A gente espera que isso não seja uma prática e a pessoa tenha consciência de que atrasar o processo de imunização dela ela não está prejudicando somente ela e sim todo o coletivo e quem está em volta dela — afirma Soranz.

Ao longo da tarde, as filas foram se esvaziando, mas ainda continuavam grandes. O maior sinal disso foi quando, por volta das 15h50, uma funcionária chegou a gritar para que as pessoas mantivessem o distanciamento social, o que foi desrespeitado por todos e alvo de deboche de tantos outros. Às 17h, pontualmente, quando já eram poucas as pessoas restantes na fila, as portas de vidro que recebiam as últimas pessoas se fecharam, e os profissionais de saúde aplaudiram e foram aplaudidos.

Procurada, a Secretaria Municipal de Saúde, que tem feito campanhas ultimamente nas redes sociais para tentar evitar a ação das pessoas que têm escolhido vacinas na capital, respondeu em nota que tem enviado as quatro vacinas (Pfizer, Janssen, AstraZeneca e CoronaVac) proporcionalmente aos postos — com exceção de onde não há estrutura para armazenar a Pfizer —, apesar da informação de que, nesta quarta, eram aplicadas apenas duas na Cidade das Artes. A pasta acrescentou que as pessoas podem checar no site da prefeitura todos os postos disponíveis e buscar os que estão com menos movimento.

A SMS também revelou que esta semana, por dia, há uma média de 63 mil doses aplicadas, entre primeira dose, segunda dose e dose única.

"A Secretaria Municipal de Saúde disponibiliza cerca de 280 pontos de vacinação contra a covid-19 em toda a cidade. As pessoas podem verificar em coronavirus.rio/vacina e nas redes sociais da SMS os locais dos pontos de vacinação e procurar o que esteja com menos movimento, para evitar filas.

Com exceção de alguns postos de vacinação extras, que não têm a estrutura necessária para o preparo da Pfizer, todos os demais recebem das quatro vacinas, proporcionalmente ao número de doses que aplicam diariamente. As vacinas são ofertadas conforme fluxo e estoque restante de cada unidade.

Nesta quarta-feira, foram vacinadas pessoas de 41 anos ou mais, de ambos os sexos, além de segunda dose. Tods os que procuraram os postos foram vacinados. Com o aporte de vacinas recebido no início desta semana, o município do Rio dispõe no momento dos quatro tipos de vacinas".

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