’Só queria deixar um lugar para meus filhos’, diz comerciante que construiu prédio que desabou em Rio das Pedras

·2 minuto de leitura

Em 1986, Genivan Gomes Macedo, com 18 anos, recebeu dos pais, agricultores em Novo Oriente, no sertão do Ceará, a missão de conseguir um emprego para ajudar nas despesas da casa. O jovem entrou em um ônibus e desembarcou três dias depois no Rio de Janeiro, onde já estavam seus dois irmãos mais velhos. Na cidade, conseguiu uma vaga como vigia de uma construtora, na Barra da Tijuca, na Zona Oeste. Ele dormia no alojamento e, todo mês, enviava o salário que recebia à família.

Leia também

Seis anos depois, Genivan deixou a firma e passou a trabalhar como vendedor de água. Conheceu então a ex-mulher e, com ela, teve um casal de filhos e foi morar em Rio das Pedras, também na Zona Oeste. Com as economias, conseguiu comprar um terreno onde havia um barraco de madeira, na Rua das Uvas, há mais de duas décadas. Aos poucos, juntou material de construção, alguns pedreiros que diz nem sequer lembrar os nomes e começou a construir um prédio para abrigar a todos.

Em depoimento prestado na 16ª DP (Barra da Tijuca), no inquérito aberto para apurar o desabamento do edifício, na madrugada de ontem, o comerciante chorou e lamentou a tragédia. “Eu trabalhei a vida inteira e só queria deixar um lugar para os meus filhos morarem”, contou. Ele perdeu o primogênito, Natan de Souza Gomes, de 30 anos, e sua neta, Maitê Gomes Abreu, de 2. A filha Nataniela de Souza Gomes, de 27, sofreu ferimentos, e a nora, Maria Quiaria Abreu Moita, da mesma idade, segue internada em estado grave.

O comerciante relatou que a obra começou pela fundação, há cerca de 15 anos. Ele então construiu o andar térreo, onde até anteontem existiam duas lojas, uma delas uma lan house administrada por Natan. Há quase dez anos, o prédio chegou ao quarto pavimento. Genivan disse nunca ter feito a planta do imóvel nem ter contratado profissionais especializados, como arquitetos ou engenheiros, para supervisionar a obra.

“O que vim fazer aqui? Lutei a vida toda para terminar com esse sofrimento? Amanhã vou enterrar meu filho e minha neta e vê-los pela última vez. O natural era que eu, na minha idade, fosse embora antes deles e não o contrário”, emocionou-se o comerciante, na delegacia.