Sócia de Raiola e agente de Haaland, brasileira elogia SAFs e fala sobre grandes vendas: 'Levam até dois anos'

Em junho, o fenômeno Erling Haaland sacudia o mercado europeu ao trocar o Borussia Dortmund pelo Manchester City, em venda que movimentou mais de R$ 300 milhões, de acordo com a imprensa europeia. Em cadeira importante da mesa de tratativas, estava uma brasileira: Rafaela Pimenta teve que assumir a frente da operação, um dos vários trabalhos delicados que teve no curto período após a morte de seu sócio, o super empresário italiano Mino Raiola, que tinha entre seus clientes nomes como o próprio norueguês, Paul Pogba e Ibrahimovic.

Raiola adoeceu em dezembro do ano passado e desde então ficou impossibilitado de trabalhar. Em abril, acabou perdendo a luta contra uma doença não revelada pelos médicos. Dali para frente, Rafaela, que trabalhava com ele há décadas nos bastidores, viveu uma transformação na vida pública e profissional, que culminou no prêmio “Golden Boy” e na indicação ao “Globe Soccer Awards” em categorias de melhor agente.

— Tive que tocar a coisa às vésperas de uma janela de transferências quando ele faleceu. Não deu tempo nem de reestruturar (a empresa). Eu saí do enterro do Mino direto para o escritório.

A brasileira e o italiano se conheceram quando Pimenta se envolveu com o futebol pela primeira vez, na constituição do hoje licenciado Guaratinguetá, em 1998. Na época, com o surgimento da Lei Pelé, o italiano veio ao país interessado em um novo modelo de negociações. Posteriormente, Pimenta trabalhou na Itália, estreitou ainda mais os laços profissionais e rumou a Mônaco, no que se transformaria em 22 anos de sociedade.

— A empresa era só o Mino e aí tinha eu, num escritório de 20 metros quadrados. Trabalhávamos de maneira complementar. A gente sempre brincava que jogávamos em posições diferentes na mesma equipe.

Advogada formada pela Universidade de São Paulo (USP) e professora de Direito Internacional, Rafaela descreve grandes transferências como a de Haaland como a formação de um “iceberg”, sendo a ponta a conclusão do negócio. Nas tratativas, também dá atenção aos interesses do clube vendedor. “Não adianta tirar um cara (de um clube) e deixar um buraco no gol”, explica.

— Falo para os nossos jogadores que se quisermos fazer uma transferência boa temos que trabalhar no dia seguinte que fecha o mercado, porque as bem feitas, bem estruturadas, na minha opinião, levam seis meses, um ano, as vezes até dois.

Uma rara presença feminina em uma área rodeada pelo machismo, Rafaela admite as dificuldades para uma mulher e brasileira. Hoje no topo, acredita que a igualdade entre mulheres e homens seja uma pauta ampla:

— Acho que a mulher tem que fazer o que quer, o que tem competência e se preparar, deve ser tão competitiva quanto o homem, ter as mesmas possibilidades.

Na cartela de grandes estrelas europeias, ganha espaço o futebol brasileiro. O lateral-direito Wesley, ex-Juventus e hoje no Cruzeiro, foi uma das negociações de sua empresa envolvendo o mercado do país, uma participação que pode crescer na visão da agente, entusiasta das SAFs, como a de Ronaldo.

— Estou enxergando nessa onda de mudanças que estão acontecendo um grande momento do futebol brasileiro, um momento que talvez seja a grande virada na qual vamos ter o que merecemos em termo de mercado brasileiro. Tem tanto talento, tanta coisa bacana que nasce do Brasil e acaba saindo as vezes até cedo. É porque a estrutura estava deficiente.