Saúde, segurança e racismo dividem com brexit debate no Reino Unido

ANA ESTELA DE SOUSA PINTO
*ARQUIVO* LONDRES, REINO UNIDO, 24.07.2019: O premiê Boris Johnson concede entrevista em frente ao Downing Street, em Londres. (Foto: Romena Fogliati/Folhapress)

LONDRES, REINO UNIDO (FOLHAPRESS) - O sistema público de saúde, medidas de segurança e direitos humanos e acusações de antissemitismo e anti-islamismo dividiram com o brexit o debate realizado na noite desta sexta (6) entre os líderes dos principais partidos rivais: o primeiro-ministro Boris Johnson, dos conservadores, e Jeremy Corbyn, dos trabalhistas.

O Partido Conservador lidera as intenções de voto nas eleições da próxima quinta (12), com até 11% de vantagem, e pode obter de 280 a 360 representantes eleitos, de acordo com pesquisas feitas no final de novembro.

Para assegurar maioria e aprovar seu acordo com o brexit, Boris precisa eleger ao menos 326 representantes no Parlamento (no sistema britânico, em cada um dos 650 distritos é eleito o candidato mais votado, independentemente do total de votos no partido).

O debate desta noite deixou claro diferenças de propostas entre os dois partidos, principalmente em relação a gasto público e a temas sociais.

Boris Johnson disse que os gastos prometidos pelos trabalhistas em saúde, educação e seguridade social são irrealistas e vão arruinar as contas públicas britânicas.

Segundo ele, a política de austeridade dos conservadores conseguiu organizar a economia, e agora é preciso fazer o brexit valer para que o país deslanche.

Jeremy Corbyn, líder do partido trabalhista desde 2015 e conhecido por posições de esquerda polêmicas até mesmo em seu próprio partido (como a proposta de reverter a privatização de empresas), afirmou que a política de mercado deteriorou o serviço público britânico e aprofundou a desigualdade, e que é preciso fazer um governo que não sirva apenas aos ricos.

O sistema público de saúde, NHS, que Corbyn diz estar sendo ameaçado por negociações entre os conservadores e o governo dos EUA, também foi tema de debate. Ambos concordam que é preciso mais investimentos, embora os trabalhistas planejem elevar mais os gastos.

Sobre o brexit, Boris repetiu inúmeras vezes seu slogan "Let´s get brexit done" (vamos resolver o brexit de uma vez) e disse ser o único capaz de tirar rapidamente o Reino Unido da União Europeia.

Corbyn atacou o acordo costurado pelo primeiro-ministro e tentou mostrar que ele não conseguirá cumprir os prazos de completar a saída total da União Europeia até o final de 2020.  Segundo ele, a negociação de tratados comerciais sob Boris pode durar até sete anos.

O líder trabalhista propõe renegociar o acordo em seis meses, aprovar a nova versão no parlamento e depois submetê-la a novo referendo.

Corbyn também bateu na tecla de que não é possível confiar no líder conservador, ponto que aparece nas pesquisas como um dos mais frágeis na imagem de Boris.

Ele se tornou primeiro-ministro em julho, com a promessa de tirar o Reino Unido da União Europeia em 31 de outubro, "com ou sem acordo", mas, após impasses no Parlamento, negociou um adiamento para 31 de janeiro.

A participação no debate de Boris Johnson, que chegou aos estúdios com cinco horas de antecedência, é também uma resposta à cobrança pública feita por um apresentador da BBC de que ele cumprisse a promessa de ser entrevistado.

Ao final, os dois líderes negaram acusações de que seus partidos sejam antissemitas (trabalhistas) ou anti-islamismo (conservadores). Antes, ambos também afirmaram que não comprometeriam direitos humanos em nome da segurança, embora Boris tenha acrescentado que a segurança deve vir primeiro.

Corbyn diz que os conservadores desequiparam o sistema penitenciário e a polícia, e que é preciso voltar a investir em segurança e educação pública.

Uma pesquisa feita pelo instituto YouGov logo após o evento mostrou empate técnico: entre os que apontaram um vencedor, 52% escolheram Boris e 48%, Corbyn, proporção semelhante ao do primeiro debate entre os líderes nesta campanha, no final de novembro, na iTV.

Segundo a BBC, este é a primeira eleição em que um primeiro-ministro debate ao vivo na TV com seu principal rival.

Antigos ocupantes da chefia de governo que disputaram eleições, Margaret Thatcher, Tony Blair, John Major e Theresa May. recusaram a participação em programas do tipo. Outros dois ex-primeiros-ministros -Gordon Brown e David Cameron--, debateram com mais de um rival ao mesmo tempo.