Bolsonaro tanto sabotou estrada para 2022 que entrou na rota da inelegibilidade

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Brazilian President Jair Bolsonaro is pictured before of the welcome ceremony to the Cape Verde's President Jorge Carlos Fonseca at Planalto Palace in Brasilia, on July 30, 2021. (Photo by EVARISTO SA / AFP) (Photo by EVARISTO SA/AFP via Getty Images)
Foto: Evaristo Sá/AFP (via Getty Images)

Jair Bolsonaro mirou no que viu e acertou no que não viu durante sua live de quinta-feira 29.

Com as portas dos processos contra ele trancadas com dois guardiões à entrada da Câmara e da Procuradoria Geral da República, uma recuperação econômica ameaçada pela variante delta e uma crise energética que promete não ter precedentes, sem contar os mais de 550 mil mortos na pandemia que desdenhou desde o início, o presidente da República achou, por alguma razão, que era hora de arregaçar as mangas e dar prioridade a uma eleição que só acontecerá, se acontecer, no ano que vem.

Bolsonaro só pensa naquilo. Faz campanha pela reeleição do momento em que levanta até a hora de dormir. O que é, em tese, proibido por lei.

Hoje, segundo as pesquisas de opinião, o presidente teria, em razão de sua alta rejeição, dificuldade de vencer qualquer adversário no segundo turno.

Em vez de ouvir o que os eleitores apontam, o ex-capitão prefere desdenhar dos institutos de pesquisas como desdenhou dos riscos sanitários da covid e dos relatórios sobre queimadas. A consequência pode ser trágica— dessa vez, apenas para ele.

Diante dos riscos de não se reeleger, ele optou por destruir as vias que levam a 2022. Como? Estimulando, desde já, o caos, engrossado por teorias conspiratórias das mais pedestres. Entre elas, a de que houve fraudes em 2018 — exatamente a eleição que o consagrou. Inútil tentar entender.

Com sua já histórica live de quinta-feira, quando fez papel de bobo ao dizer que não tinha provas para confirmar uma grave acusação, ele conseguiu até o momento fazer apenas com que o Tribunal Superior Eleitoral aprovasse por unanimidade a abertura de um inquérito administrativo para apurar a partir de agora os ataques à legitimidade das eleições. Entre os crimes a serem investigados estão os de abuso de poder econômico e político, corrupção, fraude e condutas vedadas.

A corte eleitoral aprovou também um pedido ao Supremo Tribunal Federal para que Bolsonaro seja investigado no inquérito das fake news. Em outras palavras: ele conseguiu trazer para o colo uma encrenca que pode ser avassaladora, a média distância, para seu entorno.

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Como lembrou o professor de Direito da USP Conrado Hubner em seu Twitter, o TSE tem como fundamento jurídico para tornar Bolsonaro inelegível “a maior torrente de delinquência política presidencial em muitas gerações”.

No mesmo dia, o presidente do Supremo declarou que “harmonia e independência entre os poderes não implica impunidade”. Ou seja: mostrou a sola da chuteira e chamou para a briga.

O presidente que passa seus dias no Planalto intimidando as instituições diz que agora que não tolerará intimidações. Jura que seu problema é pessoal e tem nome: Luis Roberto Barroso, o presidente da corte eleitoral. É a lei do vitimismo que tanto diz combater.

Mesmo quem assiste à querela como testemunha vai precisar trincar os dentes. Não é hora de pegar pipoca.

Ainda que escape, Bolsonaro terá de passar pelo constrangimento de ter de responder a um processo para que não fique fora da pista de uma corrida que periga perder.

Há, claro, quem esteja disposto a ir às ruas pressionar os julgadores. Mas há também quem veja no corredor da Justiça Eleitoral a porta de saída para as constantes ameaças e agressões que partem do Executivo desde 1ª de janeiro de 2019, quando Bolsonaro não fez outra coisa se não compensar com cooptação de aliados sinceros e desinteressados a queima paulatina do capital político ganho nas urnas.

A não ser que acredite que um cabo e um soldado deem conta de entregar a ele as chaves de um regime de exceção, e que haverá país ou plano de governo para convencer alguém a investir no país no dia seguinte, Bolsonaro está enroscado com a encrenca que criou e alimentou.

Aconteça o que acontecer daqui pra frente, não haverá nada mais vergonhoso do que, em um momento de crise aguda, muito por conta da pandemia, mas muito também pela incapacidade de resposta a ela, ser lembrado como um dublê de gestor que despendeu tempo, energia e estratégia de sobrevivência para evitar a inelegibilidade.

Bolsonaro já está na história como o líder da nação que priorizou a luta errada na hora errada.

As fake news investigadas, vale lembrar, não começaram a ser disparadas agora. Vêm de antes das eleições de 2018. Estas que o presidente coloca no alvo ao mirar em 2022.

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